"Jim Morrison está vivo" e era Val Kilmer

Ator conseguiu recriar a personalidade complexa do vocalista dos Doors com uma imensa autenticidade.

O ator Val Kilmer não merece ser reduzido a um ou dois papéis, numa carreira que teve a oscilação que as nossas vidas têm. Apesar de ter assumido a função mediática de Batman, o seu desempenho mais elogiado é praticamente um consenso. Falamos evidentemente do seu trabalho na pele de Jim Morrison, no filme de Oliver Stone de 1991, “The Doors – O Mito de uma Geração”.

Se a recriação em cinema de uma história verídica afigura-se uma missão impossível que só o milagre de cinema ilude, imagine-se reavivar a vida de um músico numa dinâmica ofegante, que inclui desafios para uma equipa de rodagem como os incontornáveis concertos. Além disso, o músico retratado num biopic é já de si uma figura carismática e complexa que, se ficcionado em cinema, dificilmente não cai no clichê, na caricatura ou na sombra pálida perante o verdadeiro.

Val Kilmer faz parte de uma shortlist de atores que conseguiram reencarnar com impressionante verosimilhança os ícones musicais ficcionados, a par de Joaquin Phoenix como Johnny Cash (em "Walk the Line") ou, mais recentemente, Timothée Chalamet enquanto Bob Dylan (em “A Complete Unknown”). A similitude de Val Kilmer com Jim Morrison não é só visual, encontra-se sobretudo no modo de agir e de cantar. Val Kilmer faz-nos esquecer que é ator, tão dentro do rocker está, tão perto de Jim Morrison que passamos a estar. 

Val Kilmer apanhou bem os trejeitos de Jim Morrison e, sobretudo, compreendeu bem o homem que ganhou o poder mitológico de um dos deuses do rock dos anos 60. Ele é o centro de um elenco e de cenas também que parecem uma máquina do tempo com precisão sobre o que terá acontecido com os Doors. 

Para incredulidade de muitos, incluindo os membros vivos dos Doors, foi o próprio Val Kilmer a cantar no filme, num estilo algures entre o barítono e o tenor, entre o terno e o macho embrutecido. Val Kilmer transfigurou-se numa personalidade elástica, que se transcendeu, passando do tímido em palco ao monstro autoconfiante, mas que se iria autodestruir nas suas derivas erráticas de drogas, álcool e obscenidades. 

Val Kilmer embebeu-se bem dos defeitos e qualidades de Morrison: o charmoso e corajoso, mas também o convencido e gozão - mas, atente-se um gozão com classe.

O filme “The Doors – O Mito de uma Geração” é uma prova viva da imensa competência de realização de Oliver Stone, com um impacto comercial que permitiu à icónica banda de Los Angeles renovar o seu público e o interesse à volta de Jim Morrison no início dos anos 90.

Os grandes ídolos musicais agregam as mais diversas reações, incluindo a admiração, mas também a beatificação e, por vezes, uma negação alienígena de que essas figuras sejam de carne e osso e que possam morrer. Tal como com Elvis (que Val Kilmer também interpretou, no filme “Amor à Queima Roupa”), abundaram, e abundam, teorias de que Jim Morrison não tinha morrido. “Jim Morrison is still alive”, diziam os mais bizarros. Porém, no filme de Oliver Stone, foi o que todos sentimos, no corpo e alma de Val Kilmer: “Jim Morrison is still alive”, durante uns intensos 140 minutos.


Artigo de opinião.