Kristin destruiu numa noite o que precisou de cinco hipotecas para existir em Segodim

O pavilhão do Centro Cultural e Recreativo de Segodim desapareceu numa noite depois de ter sido precisa "uma terra" para o fazer nascer. E sem ajudas, assume um dos fundadores, não deve voltar a existir.

Há mais de 30 anos, Fernando Ferreira e a mulher hipotecaram a casa para ajudarem a construir o pavilhão do Centro Cultural e Recreativo de Segodim. Mais quatro casais fizeram o mesmo. Numa madrugada, a depressão Kristin destruiu tudo isso.

A madrugada de 28 de janeiro só deixou duas paredes e meia de pé. A fachada do edifício engana: visto de fora, o pavilhão do CCR Segodim só não tem telhado. Visto de dentro, não há quase nada para ver: espalhados pelo chão - que já foi um campo de futsal - estão montes de betão, tijolo, arame, e madeira.

Há duas balizas retorcidas, uma no lugar que devia ocupar, outra algures entre o meio-campo de jogo e o descampado, deitadas abaixo pelos ventos que na freguesia de Carvide e Monte Real chegaram, segundo foi medido na Base Aérea n.º 5, pelo menos aos 178 quilómetros por hora.

"isto era o melhor que havia em Monte Real", garante Fernando Ferreira, que fala de um local que recebia "festas de aniversário quase todos os fins de semana", às quais se juntavam festas populares e até casamentos.

Sócio fundador do pavilhão, explica que a obra só nasceu "graças à terra". Segodim tinha "66 casas" quando a obra arrancou e para "meter telhado neste pavilhão houve cinco casais que hipotecaram as casas deles. Fernando Ferreira, a mulher e as restantes dez pessaos pagaram "do bolso" o empréstimo e os juros, "mas isto com autorização da Assembleia Geral, se alguma coisa corresse mal, a Assembleia Geral e os sócios todos tinham de entrar", ressalva.

"Praticava-se aqui futsal, havia equipas que vinham aqui treinar também, alugavam isto, o espaço, e vinham aqui treinar", vinca Fernando, que insiste, com um misto de orgulho e desalento, que o pavilhão "era o melhor espaço" da freguesia. E a recuperação, confessa, só pode acontecer se o clube for apoiado. "Se não, nunca mais levantamos isto."

O pavilhão está completamente a céu aberto e as chapas que compunham o telhado estão espalhadas no terreno ao lado. Outras, que já foram recolhidas, chegaram a atingir várias casas na vizinhança. Num pavilhão mais pequeno, colado ao principal, aconteceu a mesma coisa: não há telhado nem teto.

A direção do clube já se reuniu com a câmara de Leiria, mas só no fim de semana é que vai encontrar-se para perceber o que pode ser feito. Para já, não está sequer marcada uma limpeza do pavilhão. Espera-se, sobretudo, pela normalidade.

Sobreviveu o bar, que fica à espera de energia para poder voltar a funcionar: "Fechámos uma das portas para não entrar por lá alguém com más ideias."