LCD Soundsystem: Central Park da Bela Vista
Paisagem sonora nova-iorquina fez-se sentir no concerto mais vivido desta noite no MEO Kalorama.
Um concerto dos LCD Soundsystem é por si só um acontecimento que marca qualquer festival. Mas o espetáculo desta noite no MEO Kalorama foi um abanão ainda maior, com o carismático vocalista James Murphy e o seu exército de músicos a provocar uma enorme excitação coletiva com o seu pós-punk informático e informado.
O palco dos LCD parece uma cidade de arranha-céus, tal a parafernália de instrumentos - sobretudo teclados -, amplificadores, monitores de chão, maquinões e demais objetos. É difícil encontrar espaço em palco para os músicos. É de forma apertadinha e pouco fulgorante que James Murphy consegue entrar em palco, quase a dar encontrões na mobília musical.
Os relatos e fantasmas de Nova Iorque marcam todo o espetáculo de hora e meia dos LCD Soundsystem, incluindo a própria intro da atuação, com uma canção como ‘Real Good Time Together’, da lenda da maior cidade norte-americana, Lou Reed.
James Murphy é a figura central dos LCD Soundsystem, mas não esvazia a imponência da banda, com alguns membros que se destacam naturalmente, como a teclista Nancy Whang, que faz milagres nas teclas, Al Doyle e Tyler Pope, que são são homens de mil e um instrumentos, incluindo as guitarras e baixos, ou o baterista Pat Mahoney, com resistência de fundista.
Logo na primeira música, 'Us v Them', o público já está conquistado e dançante e cantor, sem precisar da cábula para a letra que sabe de cor. Em ‘I Can Change’, e após uma intro do clássico dos deuses eletrônicos Kraftwerk ‘Radioactivity’, estamos na nação dos sintetizadores, enquanto a caixa de ritmos parece uma máquina de pipocas.
‘You Wanted a Hit’ é uma prova de resistência física para o baterista Pat e para toda a banda, mas também é prova de uma outra resistência, a moral. A música é um manifesto de integridade e uma crítica ao homem sentado no cadeirão do gabinete da editora: “And so you wanted a hit / Well, this is how we do hits / You wanted the hit / But that's not what we do". A música cola-se a ‘Tribulations’, quando a adrenalina está próxima de um nível máximo no palco e na enorme arena. Segue-se ‘Tonite’, com James Murphy a enrolar ainda mais os fios do microfone na sua mão direita, no seu estilo habitual de colar o micro à boca, como se agarrasse com a outra mão um megafone. As irritações de James Murphy com sensações de déjà vu nas canções que repetem as mesmas expressões, desaguam em reflexões sobre a crise de meia-idade que se aproxima, no tal ‘Tonite’.
‘Someone Great’ é marcado pela reverberação carismática das programações do maquinão, com os LCD em modo mais etéreo. Nada etéreo é ‘Loosing My Edge’, mais uma crónica urbana de James Murphy a recriar um choque de gerações à volta da música. O descontrolo emocional está iminente, com berros, efeitos de ecos e uma envolvência de toda a banda como operários atarefados de uma fábrica.
James Murphy lembrou ainda a primeira vinda a Lisboa dos LCD Soundsystem, no Lux, há mais de 20 anos, antes do encerramento, com o tema 'All My Friends', ou mais uma reflexão de Murphy sobre a idade.
Os LCD Soundsystem tocaram como penúltima música, ‘New York, I Love You but You're Bringing Me Down’, numa cidadania nova-iorquina ativa e crítica, em altos e baixos, entre críticas e elogios à sua cidade, sempre em teor melancólico. Essa parece ser a canção dos LCD Soundsystem mais ao alcance da estética recatada dos English Teacher, que fizeram uma versão dessa música ao seu estilo próprio, ao início da noite no Palco Lisboa, num bonito intercâmbio entre New York e Yorkshire, a região inglesa desta jovem banda.
Os English Teacher tocaram as músicas do álbum de estreia nomeado para o Mercury Prize deste ano, “This Could Be Texas”. Em formato de quinteto, incluindo uma violoncelista, deixaram um rasto de uma tranquilidade outonal, com uma voz fenomenal e elástica, como a de Lily Fontaine, que só se projeta a longo alcance quando a música a pede. Há também alguns esticões elétricos e alguns momentos quase de spoken word como no tema-título do álbum, ‘This Could Be Texas’.
Entre as atuações dos LCD Soundsystem e dos English Teacher, houve a festança megalómana dos Jungle no único espaço em que haveria espaço para tal: o palco principal. Foi uma grande animação de electrónica funky em modo non-stop como uma pista de discoteca e muitas mas mesmo muitas luzes em permanentes desdobramentos geométricos na tela atrás. Viam-se muitos vermelhöes em riscos verticais e horizontais no fundo do palco e luzes a faiscar nas estruturas laterais. A banda atraiu uma multidão monstruosa com pé para a dança. Nem as conversas entre amigos e namorados lhes faziam parar os tremeliques dançantes, como se fossem um tique nervoso, com o estímulo da música ao vivo dos Jungle.
Em formato de sexteto, os Jungle elogiaram repetidamente Lisboa, num concerto que teve alguns momentos de maior turbulência positiva. O tema ‘Us Against the World’ provoca uma revolução nas luzes, quando esbranquiçam ao som do grito de ordem do título da música. Em ‘What D'You Know About Me’, a batucada bate ainda mais forte na festa, com a frase do título a ser replicada quase a cada segundo. ‘Good Times’ é representativo do espírito do espetáculo, com muitos braços no ar e sorrisos ainda mais largos em palco. E não podia faltar ‘Keep Moving’, o bilhete para a posteridade dos Jungle, como tema final, para o fecho em glória.
Na hora anterior ao acontecimento da noite, o concerto dos LCD Soundsystem, os Nation of Language deram no Palco Lisboa uma das atuações mais poderosas do Kalorama. O franzino vocalista Ian Richard Devaney toma muito bem conta do palco, às voltas com o seu microfone e às vezes invadindo de forma traquina os sintetizadores da mulher da banda, Aidan Noell. O cantor dança no palco como se fosse o último notívago resistente no meio da pista de dança.
Os Nation of Language são de Nova Iorque mas o baixo muito amplificado de Alex MacKay vive em Manchester, na música dos Joy Division e dos New Order, enquanto que os sintetizadores veneram os primórdios arcaicos dos Depeche Mode. Naquela urbanidade sombria, as canções empolgam a alma e o corpo, como o caso evidente de ‘Sole Obsession’, que os fãs começam a cantar, como um hit nos ouvidos daquele público, que tomou proporções que extravasaram o próprio espaço do Palco Lisboa.
Ao final da tarde houve uma migração em massa de festivaleiros para a ponta do recinto mais próxima de Alvalade, no Palco San Miguel. A fama dos Kills como bandão ao vivo é já antiga e permanentemente renovada. Nesta sexta-feira, o bandão mostra-se em Lisboa de volta às suas origens, só eles dois em palco e mais ninguém: a vocalista Alison Mosshart e o guitarrista Jamie Hince e ainda uma caixa de ritmos.
A vocalista dos Kills é uma torre humana que baloiça os cabelos loiros que lhe tapam recorrentemente o rosto como uma carapaça, numa figura glamourosamente desengonçada, em headbanging platinado. O seu cabelo comprido dança tanto na sua cabeça como o seu corpo em rodopios. Quando pára junto ao suporte de microfone, Alison Mosshart põe a bota em cima do monitor de chão do palco como se fosse um degrau bem a jeito. Canta, leva a mão à testa e fecha os olhos, entrando a bordo de uma viagem transcendente em que transporta o rock para um sítio muito especial. Já Jamie Hince é um todo-poderoso da guitarra que faz as diabruras dinamitadas de rock & roll que quer. Os dois juntos são como unha e carne.
Como destacar dois ou três momentos num concerto em permanente ebulição. ‘Kissy Kissy’? ‘Love and Tenderness’? O tórrido e apocalítico ‘103’? ‘Black Balloon’? Todas essas interpretações foram impressionantes, tal como ‘Baby Says’, que convocou as melhores memórias dos Kills, com Alison Mosshart a fazer um itinerário pelo palco que incluiu uma paragem nos teclados para umas breves pinceladas e um descanso sentada em cima do monitor de chão, enquanto bebia de um copo. De recursos modestos, o concerto dos Kills é de uma alma gigante e de um toque humano superior.














































































