Luís Represas fez os dias assim... mais belos
Voz melodiosa foi uma luz que guiou os Trovante e a reconversão da música de raízes portuguesa.
O cantor Luís Represas (1956-2026) foi um baladeiro de sete vidas que elevou a uma fasquia muito alta tudo em que se envolveu. O que pedia aos outros exigia a si mesmo, não menos que a excelência, e no seu caso com qualidades superiores de interpretação. A sua voz altamente melodiosa adocicava e iluminava uma engrenagem musical que era um ecossistema instrumental riquíssimo, nomeadamente o Trovante, a banda de alto nível que se foi metamorfoseando entre o prog-rock, a música de intervenção e uma visão mais atual do folclore nacional.
Trovante nasceu exatamente há 50 anos, de uma forma informal. Mas nem a cavaqueira típica da amizade entre os vários membros distraiu a mente de Luís Represas para a permanente superação coletiva que se seguiria. “Quisemos arranjar vários nomes tão ridículos como Ressaca, uma coisa assim. E foi o Chico Viana, o Francisco Viana [o primeiro letrista], que se lembrou de chamar Trova + Avante, Trovante. Nós sempre dissemos que não somos o grupo oficial de nenhum partido, nós não somos o grupo oficial da UEC [União de Estudantes Comunistas], nem do PCP [Partido Comunista Português]. Temos ideias comuns e, obviamente, andámos nos mesmos terrenos, mas artisticamente não. Quis o trova mais avançado, é o se chama trova no sentido progressivo. A trova, os trovadores dos tempos modernos, trovadores modernos. Em Cuba chamaram-lhe a nova trova cubana. Sempre dissemos que esta era uma palavra que não existia e que, como tal, foi uma invenção, foi uma criação nossa. E andámos durante quase 50 anos orgulhosíssimos de ter inventado uma palavra. Até que eu cheguei à porta de um restaurante que se chamava Trovante, que não tinha rigorosamente nada a ver connosco”, comentava humoradamente Luís Represas, numa entrevista que lhes fiz – a ele, a João Gil e a Manuel Faria - nos estúdios da Valentim de Carvalho, no ano passado.
Sempre com os pilares instrumentais do guitarrista João Gil e, evidentemente, dos teclista Manuel Faria, Luís Represas foi a voz lindíssima de uma viagem etnográfica em “Chão Nosso” (álbum de estreia, de 1977), em Portugal, e também com saltos para outras paragens (como a América Latina), como quem trata do Oceano Atlântico como uma banheira pronta a ser esvaziada para a tal travessia musical em menos de nada.
Como criativos, Luís Represas e os Trovante não se conformaram com o chão etnográfico e levitaram com canções novas, que se tornaram um património cancioneiro único na música portuguesa entre 1977 e 1990. Dado o aviso no álbum “Baile No Bosque”, os Trovante desatracam em “Cais das Colinas” (de 1983) para uma viagem temporal de enorme visibilidade e para uma sucessão de grandes canções até ao final dos anos 80. ‘Saudade’, ‘Xácara Das Bruxas Dançando’, ‘Timor’, ‘125 Azul’ ou ‘Perdidamente’ foram alguns dos temas mais emblemáticos, que ajudaram a fazer dos concertos dos Trovante autênticos aglomerados de massas, como aconteceu na Festa do Avante!, em Lisboa, no Alto da Ajuda, em 1986 – talvez o caso mais evidente.
Luís Represas teve depois uma carreira a solo que não viveu à sombra do Trovante, tendo procurado outros sons e encontrado outros temas que o grande público adotou, como o exemplo de ‘Feiticeira’.
Luís Represas apenas aceitou o regresso dos Trovante em palco. Para o cantor, o ciclo criativo dos Trovante ficou fechado em definitivo em 1990. “O Trovante tinha uma forma de atuar que nem abelha na colmeia. Cada um sabe o seu caminho, cada um sabe o seu espaço e como fazer com que o mel seja aquele. Com todas estas saídas e entradas e toda essa confusão, o Trovante deixou de fazer sentido, deixou de ser aquilo. Portanto, começou a ser quase uma técnica de fazer a música ou de fazer o arranjo e passa a ser qualquer coisa que não aquela. E então, para reativar o Trovante, é necessária uma abdicação total das nossas vidas atuais, para voltarmos outra vez a fazer aquilo que as abelhas faziam naquela altura naquela colmeia. Ora bem, são umas abelhas que, passados quase 40 anos, não sei se estariam em grande estado de voltar a fazer um mel muito saboroso. Por outro lado, não teriam grande disponibilidade para sair do cortiço para ir às árvores buscar flores para o pólen”, justifica desta forma poética Represas, na tal entrevista nos estúdios da Valentim de Carvalho.
Num dos ensaios a que assisti, os Trovante perguntaram-nos, a nós visitantes media, se queriam que eles tocassem algum tema em específico. Aproveitei a oportunidade e pedi-lhes a minha canção preferida deles, ‘Fizeram os Dias Assim’. Pedido assim de forma tão espontânea, seria natural uma interpretação a meio-gás, típica de um ensaio. Mas não, saiu uma interpretação galopante e exímia, de nove músicos, como se estivéssemos já num concerto na MEO Arena ou na Super Bock Arena. Onde estivesse Luís Represas, onde estivessem os Trovante, a fasquia era sempre alta, mesmo num ensaio. Da minha parte, obrigado. Obrigado pelo brinde de ‘Fizeram os Dias Assim’ e obrigado por todos estes 50 anos.
