Miguel Araújo na estrada: "quero juntar os meus amigos para fazer a festa"

O músico portuense atua a 21 de abril no Campo Pequeno, em Lisboa. Nos dias 21 e 22 de maio, a festa é na Super Bock Arena, no Porto. Mais datas em baixo.


Miguel Araújo tem canções novas para mostrar e uma série delas para revisitar - agora que os palcos estão desconfinados. O músico portuense, que está a celebrar 10 anos de carreira a solo, anunciou ontem mais uma mão cheia de datas, em vários pontos do país, para fazer a festa.  E não vai estar sozinho. Rui Veloso, António Zambujo, Cláudia Pascoal, César Mourão e Kappas - tios de Miguel Araújo - são os amigos "convocados" para a ocasião. 

O recente "Chá Lá Lá" - disco que saiu a 14 de março - vai estar no alinhamento, bem aconchegado, ao lado de canções que todos sabem de cor. O primeiro concerto é a 21 de abril no Campo Pequeno, em Lisboa. A 21 e 22 de maio, Miguel Araújo atua em casa, com dois concertos marcados para a Super Bock Arena, na cidade do Porto.

O músico e compositor vai ainda passar por Aljustrel, Torres Novas, Coimbra, Vila Nova de Gaia, Cascais, Lousada e Crato. Mais cidades serão anunciadas em breve.


Podemos começar esta conversa pelo teu disco mais recente, ao qual deste o nome de "Chá Lá Lá". É um nome curioso. Porquê este título?

"Chá Lá Lá" é aquele recurso fonético muito comum na música pop. Qual é a primeira canção com "chá lá lá" que te vem à cabeça? 

'Era Uma Vez Um Cavalo'. É aquela: "a correr, chá lá lá, a saltar, cha lá lá, cavalinho não saía do lugar, chá lá lá"...

É curioso. No Porto cantamos "tra lá lá". Do rio Mondego para cima o "chá" passa para "trá". (risos) Mas o primeiro "chá lá lá" que me vem à cabeça é o "chá lá lá" que está na canção 'Mr. Jones', dos Counting Crows. Mas há muitos. Há o "chá lá lá" do David Bowie [na canção 'This Is Not America'], por exemplo. 

Há uma dos U2...

'Who's Gonna Ride Your Wild Horses', sim. E há um outro "chá lá lá" que é absolutamente mítico, o do genérico da série "Quem Sai aos Seus" ["Family Ties"]. O genérico acaba com "chá lá lá lá". São três "lás", na verdade. 

 

E agora há um "chá lá lá" no teu álbum...
 
É uma onomatopeia que associo ao pop - género que adoro. Eu não faço músicas em linha reta. Não componho de propósito para um só disco. Estou constantemente a fazer músicas. Só para teres uma ideia, neste álbum há canções que compus em 2014. Ao longo do tempo, vou agrupando as canções por pastas, nem que seja apenas na minha cabeça. Dei o nome de "Cha Lá Lá" à pasta onde coloquei as músicas que são mais pop. É a pasta onde armazenei as canções mais cantáveis, mais alegres. Achei giro manter o título. Ficou "Chá Lá Lá". 

Tens outros nomes interessantes no teu desktop mental? 

Sim. São os nomes dos meus discos. (risos) Não há uma razão muito lógica nem racional para os nomes dos meus álbuns. O disco "Peixe Azul" chama-se assim por causa de uma fotografia que tirei ao peixe azul do meu sobrinho. A fotografia ficou linda. Quando vi a imagem soube imediatamente que teria de ser a capa de um dos meus discos. Dei o título "Peixe Azul" ao álbum só por causa dessa fotografia.

'Talvez Se Eu Dançasse', uma das faixas do disco, foi lançada em 2019, pouco tempo antes da pandemia...

Durante a pandemia gravei e lancei três discos. Quando falo da pandemia no passado até bato três vezes na madeira. A verdade é que ainda não passou. Este álbum foi o terceiro a ser lançado mas foi o primeiro que gravei. Devia ter saído antes dos outros mas pareceu-me um contraciclo editar um disco tão alegre e expansivo em plena pandemia. Era demasiado "chá lá lá". Além disso, é um álbum que foi feito para ser tocado ao vivo. Achei que não fazia muito sentido editá-lo numa altura em que não havia concertos. Preferi guardá-lo para depois. É por isso que o primeiro single saiu com dois anos de avanço. Foi estranho. Mas o que é que não foi estranho no mundo?  

 

Foi um confinamento produtivo...

Sim. Tenho três filhos. Acabo por ter uma vida muito doméstica. O que acontece é que, antes da pandemia, passava metade do ano fora de casa, a dar concertos. Foi a primeira vez, em muitos anos, que não tive espetáculos. Foi uma sensação estranha, mas, como tinha acabado de montar um estúdio na cave lá de casa, aproveitei o tempo para compor. Faz parte da minha rotina doméstica andar com uma guitarra ou estar sentado ao piano a fazer música. Compor não é separável do meu dia a dia. Toco e canto antes de meter um prato na máquina de lavar loiça ou depois de limpar as migalhas do pão. (risos) Pegava nas músicas que tinha, até porque tenho sempre excesso de músicas, e, sempre que podia, esgueirava-me para o estúdio para gravá-las. Além de ajudar os miúdos com a telescola, dediquei os meus dias pandémicos à gravação dessas canções. Aproveitei e armazenei-as nestes três discos. Foi assim que ocupei o tempo durante a pandemia. Ocupei-o no estúdio, a gravar. A fazer o que sei fazer. Também não sei fazer mais nada. Ao todo são cerca de trinta canções. Entretanto fiz mais. (risos)

O disco abre com o tema 'Dia da Procissão' (com o António Zambujo) e há uma curiosidade na letra que acaba por ser pertinente. Às tantas, cantas: "se a América se lembra de carregar no botão [botão nuclear]". Com o que está a acontecer na Ucrânia, a frase ganha um sentido estranhamente mais real, com a ameaça a soprar da Rússia...

É o mesmo botão. Se a Rússia carregar, a América também carrega. Cada vez que canto essa música fico arrepiado nessa parte. A ideia desse botão transporta-me para a minha infância, para a infância de quem cresceu nos anos oitenta. Nessa altura é que se dizia, embora longinquamente, que o mundo podia acabar com o simples "premir" de um botão. Quando fiz essa letra lembrei-me disso. A canção é sobre a urgência de nos divertirmos, de vivermos a folia de um dia de procissão, antes que o mundo acabe. Foi a metáfora que arranjei para a ideia de fim do mundo. Nunca na vida poderia sequer supor que essa metáfora não passaria de longínqua e absurda. Nunca pensei que se falasse outra vez do "botão". É algo inimaginável. Até pensava que o tal "botão" já não funcionava. (risos) 


Neste disco tens uma série de convidados: Joana Almeirante, António Zambujo, Rui Reininho e Rui Pregal da Cunha. Primeiro, os novos talentos. O que é que a Joana emprestou ao álbum?

   
A Joana toca guitarra e canta na minha banda. Gosto muito da voz dela, de cantar com ela. E toca muito bem guitarra. É uma guitarrista genial. Agora está a lançar-se a solo, qualquer dia foge-me. (risos) Senti necessidade de voltar a ter uma voz feminina e, tendo em conta que a Joana tem uma voz incrível, convidei-a. É fixe quando a voz do disco é a mesma voz que as pessoas vão poder ouvir nos concertos. A canção ['Baby [chá lá lá)'] que canto com a Joana foi a primeira que gravei. Gravei-a assim que o estúdio ficou pronto.

Que características é que o sangue novo de artistas tem de ter para te chamar a atenção? O que é que privilegias nos novos artistas?

Acho que cada artista tem os seus superpoderes. E a Joana tem vários. A voz e a guitarra talvez tenham sido os primeiros superpoderes que me chamaram a atenção, mas também valorizo o facto de ser compositora. A 'Mera Ilusão', uma canção que tem estado a passar nas rádios, tem letra e música assinadas por ela. Valorizo muito isso. 

E sobre os talentos veteranos que convidaste para o disco. Chamaste o Rui Reininho, o Tim e o Rui Pregal da Cunha para te ajudarem no tema 'Canções da Rádio'. Entram para cantar excertos de hits dos GNR, Xutos & Pontapés e dos Heróis do Mar. Misturaste tudo...

São frases simples que foram muito importantes para mim quando era adolescente. Frases como "quero-te tanto" ou "só gosto de ti", por exemplo. São carimbos que ficam na alma das pessoas que ouvem essas canções. Podem até ter mais importância para quem as ouve do que para quem as escreve. [A faixa 'Canções da Rádio'] é um recado apaixonado de alguém que, não tendo coragem de falar com a sua amada, imagina que está a falar com ela através destas canções. O refrão é uma colagem dessas tais frases que considero muito fortes. Acho que não posso ser acusado de plágio, são citações. (risos) Acabei por ter a ideia de convidar as vozes originais para cantarem comigo no segundo refrão. Cantam as suas próprias frases. É uma honra enorme. Fiquei incrivelmente emocionado. 

Gostas de homenagear as tuas inspirações. Recentemente, partilhaste algumas versões de temas assinados por artistas que são uma referência para ti, como o Bob Dylan, os Beatles, o Mark Knopfler ou o Paul Simon. O que é que aprendes com eles?

Quando faço versões tento não imitar as originais. Tento fazer uma versão que seja feita à minha maneira, com a minha voz. Quase sempre passa por baixar os tons para a minha voz que, por norma, é mais grave. (risos) Mas são versões de músicas que conheço de trás para a frente. Nem preciso de ensaiar. São as canções que sempre cantei. São as músicas da minha vida, não tive de "treinar" ou ensaiar. Fiz esses especiais porque quis partilhar [com o público] esse mapa afetivo musical. Quis mostrar de onde venho. 


Agora a outra escrita que não a escrita de canções. "Seja o Que For" - o teu segundo livro - reúne as crónicas que assinaste para a revista "Visão". São textos que também refletem a tua visão do mundo, como, a título de exemplo, a importância que dás aos pequenos gestos... 

Talvez seja, sim. 99,9% das pessoas não são reconhecidas por grandes feitos, mas são essas pessoas que sustêm e sustentam isto tudo, com o seu trabalho. A vida é isso. Houve alguém que serviu a sopa ao Einstein ou ao Thomas Edison. Houve alguém que foi comprar os ingredientes para a sopa e houve alguém que teve de limpar tudo no final. 

Como é que a tua visão do mundo se vai adaptando ao próprio mundo?

A Madre Teresa de Calcutá dizia o seguinte: "não me peçam para participar em manifestações contra a guerra, peçam-me para participar em manifestações a favor da paz". Há muito mais mundo onde não está a haver guerra. Claro que não se pode desvalorizar, nem podemos deixar de prestar atenção ao que se passa mas não é por vermos os noticiários de manhã à noite que vamos conseguir ajudar quem precisa. Evito ver notícias, embora veja o suficiente para estar informado. Acho que sou mais válido, a contribuir para um mundo melhor, se estiver animado, a fazer as minhas coisas, as minhas músicas. Tenho a casa pronta para receber quem precisa e, daqui a alguns dias, é isso que vai acontecer. Não posso fazer muito mais que isso. Creio que não adianta muito estar viciado nos noticiários e nas desgraças que acontecem a toda a hora.

Estás a celebrar dez anos desde o lançamento do teu disco de estreia a solo. Como é que te sentes com este marco?

Se não tivesse havido pandemia, acho que não faria nada de especial. Mas, como a pandemia nos mostrou que não se pode dar nada como certo, não vou deixar passar esta oportunidade [de celebrar]. A 21 de maio [dia do primeiro concerto no Porto] faz exatamente dez anos que saiu o primeiro disco ["Cinco Dias e Meio"]. Decidi juntar a malta, os meus amigos músicos, para fazer uma festa rija. Nunca se sabe quando é que voltaremos a ser impedidos de subir ao palco. Já não vou deixar escapar esta efeméride. Dez anos é apenas um pormenor. Não será um daqueles concertos em jeito de best of, vou também tocar músicas do disco novo. 


 

Datas dos concertos:

21 abril - Campo Pequeno, Lisboa
21 maio - Super Bock Arena, Porto (ESGOTADO)
22 maio - Super Bock Arena, Porto
28 maio - a anunciar
10 junho - a anunciar, Aljustrel
13 junho - a anunciar
07 julho - a anunciar, Torres Novas
08 julho - a anunciar, Coimbra
15 julho - MEO Marés Vivas, Vila Nova de Gaia
22 julho - a anunciar
23 julho - EDP Cool Jazz, Cascais
31 julho - a anunciar, Lousada
15 agosto - a anunciar
25 agosto - Festival do Crato