NOS Alive: a humanamente divina Florence Welch voltou a Algés

Regresso dos Florence + The Machine ao Alive depois de terem atuado por lá em 2022.

Ainda não tinha entrado em palco e o nome de Florence Welch esvoaçava pelo palco NOS. Lorde, que atuou antes dos Florence + The Machine, evocou-a, com enorme tom de respeito, como uma das mulheres que admira. A neozelandesa confidenciou inclusivamente que o som do coletivo inglês a acompanhou na infância. Era a música que a mãe ouvia.   

Florence, que transforma os demónios em substância artística e os atropelos da existência em canções, levou-nos outra vez para dentro do culto florenciano. No festival Alive, fê-lo em 2022, há não muito tempo. Mas a massa humana que se juntou à volta do palco expressou a vontade incontida de ver novamente Florence entre nós.

A estética desse lugar de Welch lembra tanto o etéreo, o místico como o terreno. No palco, acompanhada pela máquina instrumental dos seus músicos, exorciza, contempla, conecta-se com a multidão e mete-a a dançar. Ontem à noite, sentimo-la, porém, talvez um pouco cansada, isto se compararmos com os últimos concertos que deu por cá.

A verdade é que, além de ser humana e de ter direito a dias menos bons, como performer exímia que é Florence agarrou o público e “rodopiou” com as emoções de quem estava no recinto (sobretudo as dos que estavam mais à frente) do início ao fim do espetáculo. Seguimos-lhe os movimentos, mesmo que às vezes mais furiosos, nunca perdem a graciosidade.   

Ao Alive levou "Everybody Scream”, o álbum que editou em outubro do ano passado. Um disco inspirado "magia" e "misticismo" e o sucessor de Dance Fever de 2022. "Após ter sido submetida a uma cirurgia que lhe salvou a vida durante a digressão de 'Dance Fever', a recuperação de Florence levou-a por um caminho de misticismo espiritual, feitiçaria e folk horror, à medida que sentia os limites do seu corpo e explorava o significado de estar 'curada'. O disco percorre temas como a condição da mulher, a parceria, o envelhecimento e a morte, expondo o que é obscuro no quotidiano", lia-se na nota que apresentou o disco à imprensa.

É este o contexto do álbum que devolveu Florence à estrada e que ontem foi representado por quatro canções: 'Everybody Scream', 'One of the Greats', 'Buckle' e 'Sympathy Magic'. Florence Welch chegou ao palco dentro de um esvoaçante vestido vermelho. E descalça, como é costume. Entrou com um grupo de bailarinas, estas com saias brancas e corpetes pretos, que a acompanharam em diversos momentos do espetáculo. Expressaram, com a beleza e intensidade dos movimentos, a mensagens do novo álbum e, no fundo, o lugar artístico onde está a cantora inglesa. 

'Everybody Scream', a primeira da noite, é a convocação imediata para a comunhão na dança, no canto e entre os fãs e Florence. É a faixa na qual Florence Welch reflete sobre estar em palco, o que tanto lhe dá um propósito como a esgota para revitalizá-la logo a seguir. A artista britânica abre os braços, mete a mão ao peito e contempla o público com olhos de gratidão. 

No catártico (e imprescindível) 'Shake It Out', ergue os braços e orquestra os últimos acordes. Na primeira saudação grita, "NOS Aliveeee" e agradece a presença de todos. Deixa um aviso: "se há por aí alguém que precise de gritar saiba que veio ao concerto certo". 

Momento de teatralização sincronizado na perfeição com as bailarinas em Which Witch, com passagem depois para 'Spectrum', do álbum "Ceremonials". O som etéreo da harpa e do violino serenam por momentos o recinto, mas, segundos mais tarde, Florence já corre de um lado para o outro, rodopia no palco e liberta a voz para um lugar distante e quase inatingível.  

Antes de entregar a voz a 'Rabbit Heart (Raise It Up)' encena o primeiro ritual da noite, pedindo a todos para que ergam os braços. A intenção é a de pedir aos céus por um belo verão e não por chuva. O recinto vibra a seguir com o inevitável 'You Got the Love'. Em 'Hunger', a inglesa volta a esvoaçar, leve, pelo palco mas na batida poderosa de King avança, convicta e poderosa, para a frente, com o olhar intenso preso na plateia. Agora, ladeada pelas bailarinas, faz a catarse amplificada pela guitarra.

A delicadeza do piano abre 'Howl'. 'What Kind of Man' começa com densidade na atmosfera e com Florence fechada em si própria para logo depois voltar a soltar-se no palco. Em 'Heaven Is Here' comunga com as bailarinas, acabando no centro da roda que estas formaram entretanto. O recinto escuta ainda as novidades 'One of the Greats' e 'Buckle'. 

Florence Welch volta a abrir os braços, com toda a convicção do mundo, para absorver a energia à volta. Algés ouve depois a emotiva 'Never Let Me Go' - canção que estava guardada há cerca de uma década e que foi resgatada há cerca de cinco anos para brilhar ao vivo. A britânica contempla os aplausos, sorri e retoma a balada. Ondula os braços e o público segue o gesto. 

'Sympathy Magic' foi a canção que escolheu para descer até junto dos que estavam colados ao gradeamento. Cantou-lhes a canção olhos nos olhos. Estendeu-lhes a mão, quase que lhes cantou ao ouvido e debruça-se, com ternura, sobre eles. 


'Dog Days Are Over' transformou o recinto numa pista de dança. É também nesta altura que Florence Welch tenta “salvar” a conexão humana – o ouro de um concerto. A cantora pediu a todos para que guardassem os telemóveis e que aproveitassem o momento para fazer declarações de afeto aos que tinham ao lado. “Eu sei que é difícil porque querem filmar esta canção, mas filmar esta canção impede-vos de experienciar a canção ao lado das pessoas que estão convosco, das pessoas que amam. Digam a essas pessoas o quanto as amam", pediu. O momento de alívio tecnológico soou vintage mas, acima de tudo, soube muito bem.
 
O concerto acabou com 'Free', de "Dance Fever", canção que cumpre o desígnio da entrega à liberdade. Florence mostrou no palco o que apregoa. "When I'm dancing, I'm Free/Quando estou a dançar sou livre", canta a esguia e tremendamente carismática ruiva na canção. Cantou a última acompanhada pelas bailarinas que também entregam o corpo à experiência única da liberdade. "NOS Alive, que público incrível. Muito obrigada por estarem connosco desde o início", disse às tantas, voltando ao tom de gratidão pelos milhares que tinha à frente. 


Florence canta, encanta, dança e liberta-nos mesmo nos dias menos bons. Sejam os dela ou os nossos.

(imagem captada no NOS Alive de 2022, não foi autorizada a captação de imagens no concerto da edição deste ano)