NOS Alive: Foo Fighters deram tudo o que são em Algés

São enormes. E deram quase três horas de concerto para relatar. Taylor Hawkins teria aplaudido com as baquetas na mão e o sorriso aberto.

Recinto a rebentar pelas costuras para receber outra vez os imparáveis Foo Fighters. A última vez que subiram ao palco do NOS Alive foi em 2017 na altura ainda com Taylor Hawkins no posto da bateria. A tragédia de perdê-lo em 2022 é o capítulo negro na história da banda norte-americana que ontem, mesmo com o peso da ausência, ergueu-se, gigante, para a ocasião e “incendiou” o recinto do festival com a chama inextinguível do rock.  

“But Here We Are” (nome do disco que editaram após a morte do carismático baterista) significa isso mesmo: “ainda assim, cá estamos”. E estão, com a intenção de permanecer.

Foram quase três horas de concerto, achamos nós, porque, na medida em que o tempo é relativo, a sensação é que foi um sprint com quase 30 canções que deixaram grande parte dos milhares que estiveram no recinto ou roucos ou com as pernas dormentes. Danos colaterais do rock ‘n’ roll quando é servido em estado puro. Ninguém se queixa. 

Dave Grohl, Nate Mendel, Pat Smear, Chris Shiflett, Rami Jaffee e Ilan Rubin (o recrutamento mais recente) fecharam a fatia da digressão europeia em Algés. O concerto, de energia inesgotável, foi uma saudação justa ao percurso de 31 anos que caminharam.   

Os Foos voltaram ao Alive com um álbum editado este ano. Disse Grohl que "’Your Favorite Toy’" [o novo disco] foi o mais divertido de fazer em anos. “Foi feito sem regras, sem pressão – só com a diversão de ligar a ficha e ver o que acontece”, contou o frontman quando o álbum saiu do estúdio para o mundo.

Em Algés, a ficha ligada foi ligada por volta das 22h45. A partir daí, esse mesmo espírito foi amplificado ao vivo, entranhando-se, sem pedir licença, nos corpos e nas vozes que quem ali estava.

Neste “novo” capítulo dos Foo Fighters, que se abriu após o golpe trágico que foi a morte de Hawkins, as "malhas" mais antigas, que são autêntico combustível para saltar no recinto da nostalgia, cruzam-se com a vontade de continuar a editar álbuns com vista para os palcos no futuro. Esta noite, porém, as novidades ficaram no bolso – talvez guardadas para um encontro próximo. Em vez disso, houve preciosidades do "espólio Foo" que deixaram os fãs mais dedicados de boca aberta. Mas já lá vamos. Há muito para relatar. Que não nos falte as forças para contar tudo o que vimos. 

Concertão vivo, cru, suado, implacável, visceral e num momento em particular emocional e de alma descoberta. 
Dave Grohl, que, no espaço de pouco tempo, somou a perda da mãe, um dos seus pilares mais sustentáveis, à do companheiro e cúmplice Taylor Hawkins, parece superar tudo no epicentro do palco. É como se as veias, insufladas com a paixão pelo rock sem tretas, lhe atenuassem a dor que, quando lembrou Taylor Hawkins perante a multidão, foi indisfarçável. 

Grohl, uma espécie de Thor do rock, embora moreno e felizmente de carne e osso, tem sempre uma graçola certeira na ponta da língua para disparar entre as canções. Maestro de multidões, entrega-se às canções com a mesma dedicação que se entrega às grandes plateias.  

Nos minutos que antecederam o início do concerto, alguns entoavam possíveis temas que podiam servir de abertura, desde que fossem “a abrir”. Escutámos alguém a trautear 'Best of You', por exemplo, mas houve quem soubesse que seria a pujança de 'All My Life' a dar conta do recado. 

Várias gerações e nações, de ombro com ombro, no recinto para receber os Foos. O amplo espaço estava de tal forma cheio que ali só cabia a vontade voraz de ver o grupo em cima do palco. Pelo menos, foi isso o que testemunhámos mais perto do palco. Os Foos chegaram à hora certa, em passo de corrida e já debaixo de uma chuvada quente de gritos e aplausos. "Estão prontos?", grita, claro, Dave Grohl. 

O rasgar do distinto riff no início de 'All My Life', faixa que abre "One By One", de 2002, gera uma natural vibração que nos foi trepando pela espinha. São convocados os restantes instrumentos e os corações começam a bater cada vez mais depressa. Os ossos, esses, energizam-se de forma automática para acompanhar a energia estonteante de Grohl. Os milhares cantam o refrão com o maestro. Toda a gente salta. Dave Grohl corre, desenfreado, de guitarra nos braços, enquanto o afável Pat Smear, homem de sorriso permanente, cruza os olhares com a multidão. 

Com a vibração poderosa de 'All My Life' ainda a ecoar à beira do Tejo, a banda atira-se depois a 'The Pretender'. A serenidade enganadora do início do tema dá espaço para o primeiro desafio de Grohl. "Vamos cantar juntos", disse, enquanto quem estava no recinto ergueu os braços e seguiu a “ordem” do músico. Coro aprovado pelo homem do momento.

“É a nossa última noite na Europa. E este é um ótimo sítio para acabar a digressão”, contou-nos. "Tenho uma pergunta. Vocês gostam de rock ‘n’ roll?", questiona. "Vocês amam o rock?", insiste. "Eu amo rock ‘n’ roll", grita até às profundezas de si próprio, voltando a pegar no tema que contagiou de euforia os fãs que estavam no recinto. Passagem sem fôlego para 'Times Like These', outra cantada a muitas vozes, não sem antes Grohl despejar em cima do corpo uma garrafa de água. 


Sem bolha de respiração, respirar para quê?, transição direta para 'Rope'. Antes de os Foos irem buscar 'Stacked Actors' ao alinhamento, Dave Grohl tenta localizar na multidão os fãs da velha guarda. O tema de "There Is Nothing Left to Lose" (de 1999) deixa o público no geral mais contemplativo, mas, ainda assim, de olhos trancados no palco até ao grito final de Grohl voltar a estremecer os ossos da vasta massa humana que a banda tinha aos pés.

As vozes voltam a unir-se em 'My Hero', claro. Erguem-se braços e telemóveis. Há abraços “na relva” e a comunhão comovente ocupa o festival.

O frontman norte-americano orquestra a beleza do momento, enquanto masca pastilha e sorri com ar de quem vive para o efeito mágico que a música provoca nos outros. 'Learn To Fly', outro diamante radiofónico, vem depois. 

Em cima dos acordes iniciais de 'These Days', Dave Grohl interroga novamente a multidão mas agora sobre quem já viu ou não os Foo Fighters ao vivo. "Esta noite, vamos tocar quantas canções pudermos porque somos uma banda que já soma mais de 30 anos. Temos muitas canções. E não queremos parar. Eu não quero parar. Queremos seguir. Vamos, vamos, vamos", sublinhou, com entusiasmo franco e juvenil, antes de transformar a serenidade inicial do tema num exercício catártico de força. Grohl canta para chegar ao céu, ergue a guitarra e “eterniza” a genica. De cabelo molhado a tapar-lhe o rosto, segue com os companheiros para 'Walk', "malha" que provocou pequenos motins de alegria internos que foram exteriorizados com palmas e na cantoria. Grohl estica a voz, os fãs esticam os braços e a dedicação.   

Altura de chamar pelos mais "velhinhos", como disse, para celebrar a edição do primeiro álbum dos Foos que foi editado há 31 anos. Algés ouve 'This Is a Call', o single de avanço do disco de estreia (homónimo). Foi em 1995.

O poderoso 'No Son of Mine' provocou um autêntico rodopio de rock ‘n’ roll com um cruzamento com 'Ace of Spades', dos Motörhead, e uma ovação especial para o novo baterista, Ilan Rubin.

'Wheels' chega para acalmar os ânimos. Dave Grohl fala da sensação agridoce que se sente quando se acaba uma digressão. Confessa que o grupo já não se divertia assim "há muito, muito tempo" e reforça como é bom voltar a atuar em Portugal. 

Mais um pulo gigante para o passado e para o único concerto que os Nirvana deram em Portugal em 1994. Dave Grohl lembrou-o, embora o tenha localizado no tempo em 93. "Eu e o Pat atuámos aqui em 1993. Lembro-me que atuamos com os Buzzcocks. Por isso, neste circuito decidimos que íamos tocar uma canção do passado", contou, arrancando gritos da multidão. "Não fiquem assim tão entusiasmados", avisou. "É uma canção que escrevi em 1990 quando me juntei aos Nirvana e acabou por ser o b-side do single 'Heart-Shaped Box'", esclareceu. Foi o mais perto de Nirvana a que tivemos direito. 

O concerto seguiu com 'Big Me', 'La Dee Da' e 'Run'. Dave Grohl pede a toda a gente que ondule os braços até ao momento em que os resistentes voltam a pular com a energia revitalizada. O recinto volta a ser, mais uma vez, um amplo trampolim.

A seguir veio um medley peculiar que Grohl anunciou como uma breve lição de história musical. "Em vez de cada um dos elementos do grupo fazer solos, cada um deles vai tocar um tema de uma banda da qual fizeram parte no passado", explicou o vocalista. Chris Shiflett deu voz a 'Invincible', dos No Use for a Name, Nate Mendel deu corpo a 'Seven', dos Sunny Day Real Estate, Rami Jaffee representou os Wallflowers, com 'One Headlight', e Pat Smear evocou o punk dos The Germs, com 'Manimal'. Ilan Rubin trocou de instrumento com Dave Grohl que, assim que pôde, se acomodou na poltrona da bateria para 'Tap Dancing in a Minefield'.

Após saltar da bateria Grohl ameaça que vai chegar a última para desmentir o aviso logo a seguir. 'Monkey Wrench' destaca as proezas do novo baterista, que brilha a solo com um solo, e amplia as veias do pescoço de Dave que continua a concentrar toda a força do rock na voz. Explode depois o acelerado 'Breakout' e o mais bluesy 'The Sky Is a Neighborhood'.
 
O ambiente fica emocional quando o tom de voz de Dave Grohl muda para falar de Hawkins, a quem chamava de “alma gémea musical”. "Ok. Tocamos esta canção todas as noites. Esta é para o Taylor Hawkins, ok? Vamos fazer isso", diz-nos, pedindo uma ovação ao baterista que, ainda que fisicamente ausente, provavelmente andou a sobrevoar o recinto como um falcão. Dave Grohl cantou 'Aurora' (música preferida de Hawkins) de olhos fechados. O resto do grupo acompanhou. Todos sentiram 'Aurora' fechados em si próprios certamente a recordar o amigo. 

A garra visceral volta ao corpo de Grohl e dos restantes para o ataque a 'Best of You'. 'Exhausted', relíquia de 1995, antecipou o discurso final do homem da noite. "Temos sorte por estarmos aqui, temos sorte por estarmos vivos, temos sorte por sermos uma banda e por podermos partilhar isto convosco. Espero que possamos voltar em breve e repetir tudo outra vez. Talvez no próximo ano", sublinhou. "Vamos terminar com a canção com a qual costumávamos terminar os concertos quando editámos o primeiro álbum, há 30 anos", disse ao público, agradecendo a todos com as mãos juntas em sinal de respeito pelos milhares que os Foos tinham aos pés.

'Everlong', que meteu novamente toda a gente no recinto a pular e a cantar, foi a última. A despedida foi demorada e já com travo a saudade. Houve a tradicional distribuição de palhetas e a inevitável troca de afetos.