Penguin apresenta rentrée literária mais concorrida de sempre e defende os livros como antídoto para a era da dispersão

A Casa do Jardim da Estrela, em Lisboa, recebeu esta quinta-feira a apresentação das principais novidades editoriais da Penguin Random House Portugal.

A Casa do Jardim da Estrela, em Lisboa, recebeu esta quinta-feira a apresentação das novidades de rentrée da Penguin Random House Portugal. A sessão reuniu editores, livreiros, jornalistas e autores para revelar dezenas de lançamentos que vão marcar os próximos meses, numa altura em que a editora alerta para os desafios da leitura num mundo cada vez mais dominado pela distração digital.

A diretora editorial Clara Capitão abriu a apresentação sublinhando que esta foi “a rentrée mais concorrida de sempre” da editora, encarando a forte adesão como um sinal de que “as nossas novidades importam”. A responsável destacou ainda a presença inédita de vários livreiros independentes convidados para o encontro, lembrando o papel essencial que desempenham na sobrevivência do setor.

Num discurso marcado pela preocupação com os hábitos de leitura, Clara Capitão associou os resultados mais recentes dos estudos sobre literacia ao impacto da hiperestimulação digital.

“A leitura precisa de tempo, profundidade, complexidade e perenidade.”

A editora defendeu que são precisamente estes valores que sustentam todo o ecossistema do livro, desde autores e tradutores a jornalistas, editores, livreiros e leitores. “Os livros resistem até hoje como um formato insubstituível”, afirmou, acrescentando que apenas através da colaboração entre todos os agentes do setor será possível enfrentar os desafios atuais.

Andreia Safaria, Catarina Barros e Hugo Gonçalves entre os destaques

Entre as novidades da Companhia das Letras,está Aposto Tudo Numa Elegância Ferida, de Andreia C. Faria, volume que reúne textos anteriormente esgotados e um inédito. A editora descreveu a autora como “artífice de uma prosa sem paralelo na literatura portuguesa”, capaz de oferecer aos leitores “violência, delicadeza e magnetismo” numa escrita que desafia fronteiras entre géneros literários.

Outro dos momentos mais destacados da sessão foi a apresentação de Labor, livro de estreia de Catarina Barros e vencedor da primeira edição das Bolsas Literárias Penguin. A obra aborda maternidade, trabalho e escrita a partir da experiência de uma mulher que foi mãe aos 21 anos e enfrentou duas décadas de precariedade laboral.

Segundo a editora, trata-se de um livro “pessoal e universal”, “altamente literário, mas dialogante com o mundo, com a sociedade e com a política”, constituindo uma reflexão sobre “a liberdade, a criação artística e as condições políticas que, no nosso tempo, permitem ou não que uma mulher escreva a sua própria história”.

Já Hugo Gonçalves regressa às livrarias com O Império do Fim, romance que aborda o colonialismo, a guerra colonial e o pós-colonialismo através de duas personagens que espelham as feridas ainda abertas da sociedade portuguesa.

João Tordo, Afonso Cruz e Clarice Lispector reforçam catálogo

A rentrée inclui ainda O Inferno Cheio, novo policial de João Tordo, protagonizado por Pilar Benamor, descrita como uma “heroína mais que imperfeita”, e Canção de Circe, de Afonso Cruz, uma alegoria política inspirada na mitologia clássica.

A editora destacou ainda a edição comemorativa dos 70 anos de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, que reproduz a capa do artista Poty Lazarotto e um introdução inédita de Clara Rowland, bem como novos títulos de Clarice Lispector, autora cuja obra completa continua a ser publicada pela Companhia das Letras.

Da literatura internacional ao fenómeno Miyazaki

Na Alfaguara, os destaques passaram por nomes como Douglas Stuart, Leïla Slimani, Roberto Saviano, Miriam Toews, Marie NDiaye e Valeria Luiselli.

Sobre Princípio, Meio e Fim, de Valeria Luiselli, a editora não escondeu o entusiasmo:

“É um romance cintilante, erudito e terreno ao mesmo tempo. É uma ode à imaginação, uma declaração de amor à ligação entre mães e filhas e entre mulheres.”

A obra chega acompanhada por um QR Code que permite ouvir gravações sonoras recolhidas pela autora na Sicília, reforçando a dimensão imersiva da leitura.

A chancela Penguin Ficção aposta também em novos autores portugueses. Nas livrarias está já o segundo romance de João Zammit, que cruza terror sobrenatural com a ascensão da extrema-direita, destacando que “o verdadeiro terror deste livro é a ascensão do fascismo e da extrema-direita”.

Entre as novidades estão ainda A Luz que Sobrou, de Liliana Meireles de Sousa, inspirado numa experiência real de violência doméstica; Carcaça, do Senhor Vulcão (Bruno Pereira); e A Balada do Bairro, de João de Almeida Santos, romance que revisita os anos do PREC e a realidade dos antigos combatentes do Ultramar.

No catálogo internacional da Penguin, a editora destacou A Solidão de Sonia e Sunny, o aguardado regresso de Kiran Desai duas décadas após o romance que lhe valeu o Booker Prize.

“Kiran Desai escreveu um livro à altura dessa expectativa.”

O romance, finalista do Booker e considerado um dos livros do ano por várias publicações internacionais, explora temas como migração, identidade, pertença, amor e solidão.

Outro dos destaques é A Viagem de Shuna, de Hayao Miyazaki. A editora descreveu a obra como a oportunidade de encontrar “um Miyazaki antes do Miyazaki que todos reconhecemos”, revelando as origens visuais e temáticas do criador de filmes como A Viagem de Chihiro e A Princesa Mononoke.

Cinco anos de Penguin Clássicos

A sessão serviu também para assinalar os cinco anos dos Penguin Clássicos em Portugal. A coleção celebra a data com novas edições de autores como Federico García Lorca, William Shakespeare, Franz Kafka e Séneca, reforçando a missão de aproximar os leitores das grandes obras da literatura universal.