"Quanto mais descobria sobre Rosalía, mais interessante parecia"
Adrian Besley desvenda o processo criativo por detrás do livro "Rosalía", que chega às prateleiras portuguesas esta quarta-feira.
Depois de esgotar discos e salas de espetáculo por todo o mundo, começam a surgir as primeiras biografias (não autorizadas) sobre Rosalía. É esse o caso do livro "Rosalía", que chega esta quarta-feira às livrarias.
A criação de Adrian Besley faz um recorte daquilo que se sabe do percurso da catalã: desde o estudo do cante flamengo e da participação em concursos de talentos até à criação de quatro álbuns e incursões por outras formas de arte. Através de uma pesquisa exaustiva entre jornais e entrevistas, constrói-se o percurso de uma das figuras mais proeminentes da cultura pop atual.
O autor britânico era redator na BBC até se dedicar à escrita de livros de não ficção. Tudo começou pelo fascínio de ler livros sobre músicos, como Beatles, e perceber "como evoluem enquanto pessoas e artistas ao longo da vida". No mundo biográfico, estreia-se a contar a trajetória de BTS e Billie Eilish. A cantora catalã segue-se com um "percurso tão fascinante que quis contar a história da sua vida, desde a infância até ao momento em que se encontra".
Qual é a maior dificuldade na produção de uma biografia não autorizada?
Não poder falar diretamente com a própria pessoa. Seria maravilhoso incluir conversas ou reflexões que ela me tivesse transmitido pessoalmente. Por outro lado, isso também me dá liberdade para abordar temas que talvez não aparecessem numa biografia controlada pela artista ou pela sua equipa. Posso falar sobre algumas controvérsias e escrever com relativa independência aquilo que considero ser verdade.
Como se escreve a biografia de alguém que protege tanto a sua privacidade?
Esse é sempre o meu objetivo: nunca escrever nada que seja invasivo ou excessivamente pessoal. Tento apenas partilhar informações que a própria pessoa já tornou públicas ou com as quais demonstrou sentir-se confortável. Acho que existem limites que um escritor não deve ultrapassar.
Sobre a vida de Rosalía conhece-se sobretudo a parte artística e pública. É preciso pesquisar muito para encontrar entrevistas, artigos e diferentes fontes internacionais. No livro, por exemplo, há muitas referências à imprensa espanhola.
Exatamente. Tento ser o mais rigoroso possível. O extraordinário numa artista como Rosalía é que se escreve sobre ela em todo o mundo. Depois há também as redes sociais: aquilo que publica no Instagram ou noutras plataformas revela pequenos aspetos da sua vida e ajuda a completar a história. De repente encontramos uma declaração dada, por exemplo, no México, que se relaciona com algo que ela tinha dito anteriormente em Espanha. Tudo isso exige uma pesquisa muito aprofundada. Felizmente, hoje em dia, graças à internet, existe uma enorme quantidade de informação acessível.
A arte é um reflexo de Rosalía ou Rosalía é um reflexo da sua arte?
Acho que muito da sua arte nasce da sua personalidade. Ela tem uma atitude pós-moderna, aberta à experimentação, disposta a testar limites e a tentar coisas novas. Isso reflete-se diretamente na sua expressão artística. O que emerge do seu trabalho é, ao mesmo tempo, arte e uma manifestação da forma como ela encara a própria arte.
Neste livro sobre Rosalía fala da artista, da pessoa e também da sua arte. Qual destas dimensões é mais difícil de retratar?
É uma questão interessante. Acho que escrever sobre música é a parte mais difícil. A música é algo profundamente pessoal; depende da forma como nos faz sentir. Traduzir essa experiência em palavras nunca é fácil. Diria que descrever a própria música é o maior desafio. Mas a grande vantagem de Rosalía é que essas três dimensões — a pessoa, a artista e a obra — estão constantemente ligadas. Falar de uma leva-nos inevitavelmente às outras.
Qual foi o facto mais fascinante que descobriu sobre Rosalía enquanto escrevia esta biografia?
É difícil escolher apenas um. Mas há uma história que ficou comigo: quando ainda estudava, teve um problema grave nas cordas vocais e perdeu praticamente a voz durante quase um ano. Nessa altura não conseguia cantar. O mais impressionante é que conseguiu recuperar e regressar com a voz extraordinária que hoje conhecemos. Quando descobri isso, fiquei verdadeiramente impressionado. Passar por uma situação assim e acabar por desenvolver uma voz capaz de tocar tantas pessoas é algo notável.
Há uma declaração dela que me marcou muito. Disse aos seus dançarinos algo como: “Quero que saibam que eu não estaria aqui sem vocês. Dependo de vocês. São tão importantes para isto quanto eu.” Achei um momento extraordinariamente sincero, humilde e bonito. Descobri essa história durante a pesquisa, creio que num jornal mexicano, e encontrei até o vídeo desse momento. Poder incluir episódios assim no livro permite mostrar quem ela realmente é. Não é uma personagem que sobe ao palco para representar algo. Ela acredita genuinamente naquilo que diz. É uma pessoa notável.
Esta não é a primeira biografia que escreve. É mais difícil escrever sobre pessoas vivas ou sobre pessoas já falecidas?
Para ser sincero, nunca escrevi uma obra extensa sobre alguém que já tivesse falecido. Mas acho que prefiro escrever sobre pessoas vivas. É uma realidade em constante evolução. Há sempre algo novo a acontecer. No caso da Rosalía, por exemplo, a sua energia criativa e o seu desenvolvimento artístico tornam tudo muito mais presente e estimulante para quem escreve.
Ao escrever este livro, passou a admirar mais Rosalía?
Sim, sem dúvida. Quanto mais descobria sobre Rosalía, mais interessante parecia. Comecei a admirá-la bastante. Gosto do seu espírito, do seu sentido de humor, da sua curiosidade intelectual. Claro que houve aspetos pelos quais foi criticada, nomeadamente em questões de natureza política, e nem sempre achei as suas respostas totalmente convincentes. Ainda assim, isso não alterou a admiração que sentia por ela durante a escrita do livro.
O meu espanhol é péssimo e nem sempre percebo as palavras das canções. Mas consigo sentir o que ela transmite. Através da voz, cria uma linguagem própria. Curiosamente, durante a investigação encontrei muitos espanhóis a dizer que também nem sempre compreendem tudo o que ela canta. E, ainda assim, isso não parece importar. Nunca tinha visto algo assim. Sobretudo para alguém do Reino Unido, onde tradicionalmente existe alguma resistência a música cantada noutras línguas.
Houve alguma descoberta que gostaria de ter incluído no livro, mas que acabou por ficar de fora?
Sinceramente, não. Tentei incluir praticamente tudo aquilo que considerei relevante. Houve talvez uma ou outra questão que tratei com mais cautela, por razões legais, mas quase tudo o que achei interessante acabou por entrar no livro.
Quando trabalha sobre figuras como os BTS, Billie Eilish ou Rosalía, alguma vez receia que os fãs mais fervorosos possam interpretar mal alguma passagem?
Não particularmente. Escrevo da forma mais honesta possível. Lembro-me de receber muitas mensagens de fãs quando saiu o livro sobre os BTS. Diria que 99% foram extremamente positivas. Haverá sempre alguém que se sente ofendido por algum comentário sobre o seu ídolo, mas isso não me preocupa demasiado. Tal como Rosalía canta com o coração, eu procuro escrever com o coração e ser fiel ao que considero verdadeiro.
