Samuel Úria: "a consciência não tem de ficar dentro das nossas casas"

O cantautor de Tondela atua no lisboeta Coliseu dos Recreios a 11 de outubro e no Coliseu do Porto a 17.

Samuel Úria estreia-se este mês a solo nos Coliseus de Lisboa e do Porto. 

O cantautor de Tondela atua no lisboeta Coliseu dos Recreios a 11 de outubro e no Coliseu do Porto a 17 - concertos que terão uma mão-cheia de convidados como é o caso de Manuela Azevedo, Gisela João, Milhanas, Margarida Campelo, Carol, As Velhas Glórias e o grupo vocal 12 Ao Todo

Os dois espetáculos celebram o percurso artístico de Úria mas também servem "2000 A.D." - o álbum que o músico editou em dezembro de 2024 e com o qual conquistou recentemente um Globo de Ouro na categoria de Melhor Canção. O reconhecimento foi para a faixa-título do novo registo discográfico.  

Entrevista a Samuel Úria

Como te sentes com a estreia em nome próprio nos Coliseus?

Não é uma estreia absoluta. Já toquei muitas vezes nos Coliseus. Cheguei inclusivamente a tocar lá com a minha banda. Mas é uma estreia a segurar o cartaz, com o meu nome a justificar o evento. Nesse sentido, estou orgulhoso por poder fazê-lo. Mais do que qualquer outra coisa, acho que sinto orgulho. Não sinto nenhum tipo de ansiedade limitadora. Nenhum de nós anda a correr ou a arfar com os nervos. Estamos todos muito contentes. Tem sido esse o feedback que tenho tido da minha banda durante os ensaios. Sinto que [esta estreia] é um passo em frente. Pode ser arriscado, para um artista da minha dimensão, mas acaba por ser um risco necessário e agradável. Estou muito feliz por estar a dar este passo.   


Mas é um risco porquê?

Porque estou habituado a tocar em salas um pouco mais pequenas. Acho que pode ser arriscado ir para um coliseu e depois ter uma casa desapontante. Isso pode dar mais que falar que o próprio espetáculo. Mas também sei que estou resguardado e respaldado pelas canções e pelos convidados. Mesmo que os Coliseus não encham, sei que o espetáculo não irá defraudar quem estiver na sala. E, na verdade, são essas pessoas que importam. Mas quando falo em risco, falo do risco que vai além do próprio espetáculo. Digo que é um risco quando penso em toda a estrutura envolvida e nas pessoas que dependem de mim. Risco no sentido de poder estar a dar um passo maior que a perna. Acaba por ser um investimento muito grande.

Convidaste uma mão-cheia de artistas como a Gisela João, Manuela Azevedo, Carol, Milhanas, Margarida Campelo e As Velhas Glórias. Como é que está a correr a preparação dos espetáculos?  

Há um outro grupo que se vai juntar a nós no palco. Falo dos 12 Ao Todo, que são um grupo vocal que me acompanha há algum tempo. A canção 'Pedra e Cal' serve precisamente para apresentá-los e para lhes dar o protagonismo que merecem há muito tempo. Além dos convidados que referiste e dos seis elementos da minha banda, vão estar mais 12 pessoas a fazer barulho e a inclinar as tábuas dos palcos dos Coliseus.


A preparação tem sido feita com alguma minúcia, tendo em conta que a maior parte das canções do "2000 A.D." já tem quase um ano de vida ao vivo. Há canções que foram tocadas várias vezes. Os detalhes dos concertos têm sido, sobretudo, à volta das adaptações que estamos a fazer para os membros novos da banda e para os elementos do coro. Mas também à volta das adaptações de canções que vamos partilhar com os convidados. É que, além de cantarmos canções minhas, vamos cantar temas originais dos convidados, o que obriga a um trabalho extra de adaptação. Estamos a adaptar canções de outras pessoas à sonoridade do espetáculo. No fundo, estamos a dividir as nossas propriedades com as propriedades dos temas originais. É trabalhoso mas também é algo que nos está a dar muito prazer.   

Será uma espécie de experiência comunitária com artistas com quem partilhas uma certa frequência humana e artística...

É mesmo por aí. A ideia comunitária na música é a ideia que mais me agrada. E digo isto recorrentemente. Dei concertos a solo durante muito tempo. E mesmo quando andava pelo país fora, só com a guitarra, apoiava-me muito no público. Ensinava as canções, pedia ao público cantar comigo e conversava com as pessoas. Nunca fez sentido para mim debitar maquinalmente as canções, como se fosse uma grafonola humana. E acho que a maneira de controlar e contrariar esse lado mais maquinal e automático passa também por ter muitas pessoas em palco. Acabamos por depender uns dos outros. Temos de confiar nas características uns dos outros. Temos de aproveitar os defeitos dos outros e amplificar as vozes nas harmonias dos outros. Fazemos uma espécie de escada em que somos os degraus uns dos outros. É esse o segredo da elevação. E com os convidados acontece o mesmo. Tenho uma história com todos eles. Até fiquei muito surpreendido quando, ao fazer contas, percebi que não tinha nada gravado com a Gisela [João]. Quando convidei a Gisela estava convencido de que era uma das minhas testemunhas de discografia, uma vez que, além de sermos muito amigos, já partilhámos o palco diversas vezes. Pensei que já tínhamos gravado algo juntos e só mais tarde é que me apercebi que não. E isso acontece precisamente porque este gosto pela ideia de fazer música comunitária confunde-se com a amizade. Acho que domino mal o que acontece na minha discografia porque a amizade musical é mais premente. Está mais fresca na minha memória. É precisamente isso que vou celebrar no palco com todos os convidados

Ainda assim, recentemente "roubaste" um Globo de Ouro à Gisela... 

É verdade. (risos)

O que é que esse tipo de reconhecimento significa para ti?

O reconhecimento nunca é mau. Não tenho nenhuma queixa em relação a isso. Mas também não sou deslumbrado. Percebo que as escolhas são sempre subjetivas, mesmo que façam parte de um júri relativamente alargado. As escolhas podem ser sempre contestadas. Considerando que não sou o artista mais mediático do mundo e sendo um evento tão mediático, acho que me deu alguma exposição. E isso é positivo. Estou muito feliz com o galardão e tenho muito orgulho pela forma como as minhas canções estão a ser apreciadas. Mas o que me deixou ainda mais feliz foi ver que [esse reconhecimento] deixou muito feliz quem gosta de mim. Houve, por exemplo, uma festa muito grande na minha terra natal [Tondela]. E a minha irmã, que está nos Estados Unidos e que é uma pessoa bastante tranquila e pacata, disse-me que se fartou de berrar. Isso deixa-me ainda mais feliz. Fico feliz por perceber que a minha música e as minhas amizades contribuem para uma corrente maior de alegria. Pode parecer a coisa mais lamechas do mundo, mas esse é que foi o prémio mais doce daquela noite. 

Quero saber como tem sido o feedback do público ao novo álbum e como é que estás a pensar espelhar o disco nestes dois espetáculos?

A vantagem de ser um disco com quase um ano é que boa parte das reflexões que fiz quando o escrevi já tem  o "fardo" do feedback que fui recebendo ao vivo ou através das redes sociais. O que partiu de algo muito íntimo vai perdendo essa intimidade quando chega a palco. Chega ao palco com vontade de ser partilhada. E essa vontade de partilha tem a ver com as ideias, com o "fardo" das temáticas. E todos esses fatores - que podem parecer muito românticos e muito artísticos - ganham peso estético. Às vezes, até um grito de dor ou de felicidade que damos em palco torna-se na própria estética da música. Sou muito permeável a todos esses fatores. O lado de "mãe-galinha" que tenho quando escrevo as canções perde-se rapidamente. E um após um ano de lançamento do álbum posso dizer que esse lado está absolutamente disseminado. O que o disco transparece neste momento não é o mesmo que está nas rodelas dos CD ou dos vinis. Já é o disco que ganhou vida ao vivo, que suscitou troca de ideias e que teve espaço para ser contestado ou premiado. É isso que eu quero levar para o palco.       


Pegando agora em parte da letra da canção '2000 A.D.'. Neste "presente hostil", como dizes, como é que encaras o papel da arte como uma ferramenta de mudança ou como agitadora de consciências? Há quem diga que os artistas devem evitar emitir opiniões politizadas, por exemplo... 

A arte tem esse lado mais pernicioso. Dá palanque a ideias boas mas também pode dar palanque a ideias más. Toda a história panfletária ou a forma como as massas são controladas tanto podem relevar a importância do papel da arte como o papel das pessoas que odeiam a arte. Acho que os artistas que têm consciência, que se sentem massacrados por questões sociais ou por situações que carecem de mudança não se vão abster de comunicar. A consciência não tem de ficar dentro das nossas casas. Se as pessoas têm acesso às redes sociais e se manifestam como querem - muitas vezes para criticar quem tem palcos maiores ou mais amplos - nós também temos de aproveitar esse favorecimento. Não podemos ter vergonha das nossas convicções. Muitas vezes, somos quase admoestados por "perdermos a vergonha" de termos ideais, de termos crenças e de querermos fazer melhor. Mas é sempre um pau de dois bicos. Quem tem estes palanques também pode conduzir as pessoas para caminhos errados. A destrinça tem de ser feita por quem acolhe as ideias e não por quem as manifesta. Quem as acolhe é que tem de decidir se as ideias são boas ou más.

Os artistas têm mais acesso às pessoas. Os músicos, por exemplo, podem expressar o que pensam com as canções, além de o poderem fazer nas entrevistas. E depois temos a oportunidade de oferecer o nosso trabalho a campanhas solidárias ou de angariação de fundos. Temos esse privilégio. E isso, muitas vezes, é ignorado. As pessoas pensam que estamos ali só para cantar uma cantiga, mas, na verdade, estamos a oferecer o nosso ganha-pão a essas causas. Os músicos em Portugal são sempre os primeiros a aderir a essas causas. São os chamados first responders. Cada vez que se organiza um evento solidário, os músicos estão presentes. Seja pelo povo de Gaza ou pelo povo da Ucrânia. Também o fizeram pelo povo de Alepo, na Síria, ou na sequência das cheias em Moçambique. E também por situações que se passam em Portugal. Os artistas são sempre muito solidários. São os primeiros a oferecer os próprios trabalhos a essas causas. E isso é algo inatacável. Que mal é que se pode dizer sobre essa disponibilidade?     

O que é que te inquieta mais, o que é que te tira o sono?

Há algo que me provoca um nó na garganta. Claro que o contexto mundial atual - com situações que se arrastam há muito tempo - é muito inquietante. Mas o que também me inquieta é a facilidade com que se forjam verdades. É algo que está muito presente nos dias de hoje. E o que me deixa muito desgostoso é ver pessoas solidárias, com compaixão, que estão do lado certo e que apoiam as causas certas a ceder a esse deturpar da verdade. Fazem-no apenas para facilitar a exposição das suas causas, para congregar pessoas e para facilitar a rejeição dos inimigos. A honestidade e a verdade têm de ser valores inegociáveis, quando queremos defender causas que também são inegociáveis na sua validade moral

E achas que ainda é possível haver um espaço saudável de debate ou vamos a continuar a fazer caminhos paralelos sem ponto de encontro?

Acho que infelizmente estamos mesmo a fazer um caminho paralelo. Ou mantemos as coisas dentro de nós ou usamos o expediente do anonimato da internet para deixarmos que brotem de nós opiniões que dificilmente assumiríamos em público uma vez que temos noção de quão más, embaraçosas, invejosas ou odiosas são essas opiniões. Acho que tudo isto caminha para uma explosão muito grande. E quando tudo rebentar, vamos ter de apanhar os cacos e começar a reconstruir. Será nessa altura que teremos oportunidade de ser pessoas melhores. Mas até lá ainda vamos passar por muitas dores.