Scissor Sisters quase no Cooljazz: "criamos um espaço onde as pessoas podem ser quem são"
Entrevista à banda norte-americana que atua a 29 de julho no festival de Cascais.
Contagem decrescente para a estreia dos Scissor Sisters no festival Cooljazz. A banda norte-americana sobe ao palco do Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, no dia 29 de julho.
O coletivo (Jake Shears, Babydaddy e Del Marquis) traz a Portugal a digressão “The Kiki Continues”. É o circuito que celebra os mais de 20 anos de carreira dos Scissor Sisters que, com uma irreverência particular, deixam uma marca nas sonoridades que juntam o disco, o pop e o rock eletrónico.
O disco de estreia (homónimo) que a banda editou em 2004 serviu de rampa de lançamento para o sucesso mundial. Em 2006, o grupo editou Ta-Dah onde está a icónica faixa 'I Don't Feel Like Dancin'.
A discografia do grupo inclui ainda "Night Work" (2010) e "Magic Hour" (2012).
Eis o que ainda poderá ver no Cooljazz 2026 até ao final do mêm de julho: Diana Krall e Gisela Mabel (22 de julho), Franz Ferdinand e Bombazine (25 de julho), Scissor Sisters e Saint Caboclo (29 de julho), Chet Faker e Luís Severo (31 de julho).
Primeiro quero saber, o quão felizes estão por estarem de volta?
Jake Shears: Estamos muito entusiasmados por atuarmos no verão.
Scott Hoffman (Babydaddy): Estamos muito felizes.
JS: No verão passado divertimo-nos muito. É muito entusiasmante para nós poder dar ainda mais concertos neste verão. Estamos muito empolgados.
Como é que o público tem reagido ao vosso regresso?
JS: No verão passado foi mesmo muito divertido. Os concertos que demos no Reino Unido foram uma loucura. Foi muito divertido reconectarmo-nos com os nossos fãs e conectarmo-nos com novos fãs.
Novos fãs? Boa!
JS: Sim. Estamos a notar que há muita gente mais nova, jovens adultos, que vão aos nossos concertos com os pais ou com as mães. Acho que a música que fazemos é passada de pais para filhos. Ao longo dos anos, tem sido muito prazeroso ver tanta gente a ir com os pais aos nossos espetáculos. Por exemplo, nos Estados Unidos andámos durante seis semanas em digressão com a Kesha. E havia realmente muita gente nova nesses concertos. Havia meninas muito novas que talvez nem soubessem quem iam ver ao vivo. Foi muito divertido tocar para pessoas que não tinham qualquer tipo de expectativa.
SH: E também havia gente muito nova que conhecia realmente a nossa música, o que, para nós, foi uma boa surpresa.
JS: Sim. À medida que a digressão avançava, tivemos a sensação de que as pessoas estavam cada vez mais entusiasmadas. Foi uma grande diversão.
SH: E demos alguns concertos na Europa também. Foi uma experiência muito porreira.
Qual foi o melhor feedback que tiveram por parte do público mais novo? Estão na fase de descobrir tanta coisa na vida…
JS: Foi dos melhores feedbacks que tivemos. Foi muito bom ver a forma como se conectaram. Temos duas mulheres incríveis que nos acompanham no palco, a Bridget [Barkan] e a Amber [Martin], que são muito exuberantes e poderosas. São divertidas, fortes, bizarras e "loucas". É realmente divertido ver a mistura de pessoas que somos no palco. Somos todos muito diferentes. Não sei…
SH: Nós fizemos pesquisas online para perceber o tipo de reações que estávamos a provocar em pessoas que provavelmente ainda não tinham ouvido a nossa música. E acho que houve muita gente que se conectou, apesar de ser algo que os pais ouviam. Talvez muitos tenham descoberto a nossa música no TikTok ou em algo do género. E nós nem temos muita presença no TikTok ou nesse tipo de coisas. Mas acabámos por furar. Ontem econtrámos muita coisa. Encontrámos misturas das nossas canções e esse tipo de coisas. É interessante ver como somos "traduzidos" para uma geração diferente.
JS: E a Bridget está muito ligada ao TikTok.
SH: Sim. A Bridget ajudou.
JS: Como estava a dizer antes, a Bridget angariou um novo contingente de lésbicas à nossa base de fãs, e isso é muito divertido.
SH: Sim.
JS: As lésbicas amam a Bridget.
Mas também não estão assim tão envelhecidos…
JS: Não estamos, não.
SH: É interessante. Não somos assim tão velhos mas vimos pessoas, especialmente na América, que eram mesmo muito novas. Ficamos muito entusiasmados de ter pessoas nos nossos espetáculos que ainda não eram vivas quando demos o nosso primeiro concerto.
Creio que foi o Jake que, numa entrevista ao "HuffPost", disse o seguinte: "sinto que o mundo precisa novamente dos Scissor Sisters". Acho que sei porquê mas gostaria que me dissesse o que quis dizer com esta frase…
JS: Estamos a viver tempos difíceis. E neste momento é algo que pesa nos ombros de toda a gente. Acho que é realmente importante que as pessoas se juntem, que sintam companheirismo. É importante que haja comunhão, que as pessoas cantem canções juntas. É bom para as nossas almas sobretudo em tempos conturbados e desafiadores. E acho que é precisamente isso que oferecemos enquanto banda. Criamos um espaço para que as pessoas possam ser quem são. Um espaço onde possam viver bons momentos com os amigos ou com a família. Isso é muito importante. Acho que atualmente as pessoas vivem com muita má energia à volta. Sempre que possam fugir disso, nem que seja por algumas horas, vale muito a pena.
Sublinho a parte em que disse que as pessoas podem ser quem são. Atualmente também há muitos direitos que estão a ser atacados. E, sim, um concerto é um lugar muito especial onde as pessoas podem ser mais elas próprias. Não é apenas um concerto…
JS: Não, não é. É engraçado. O meu irmão, que é mórmon e é 20 anos mais velho do que eu, sempre julgou um pouco a banda, aquilo que eu fazia e até a minha vida. Mas no verão passado ele e a mulher foram assistir a um espetáculo em Salt Lake City, no Utah, e algo mudou. O meu irmão escreveu sobre isso e tudo. Acho que aquele concerto lhe abriu os olhos. Passou a vida toda a julgar mas depois viu as pessoas a soltarem o cabelo, a divertirem-se e a serem simplesmente quem são.
SH: E a criarem também uma comunidade, certo?
JS: Sim, a criarem uma comunidade. Ele percebeu que a perspetiva dele não era a correta. Assumiu que esteve sempre errado. Foi incrível ouvi-lo dizer isso. Mas também foi incrível para ele poder testemunhar com os próprios olhos [o que criticava].
A digressão celebra 20 anos desde a edição do álbum (homónimo) de estreia [ainda que o disco tenha sido editado em 2004]. Como é que olham para esse disco e para o início de tudo com os olhos do presente?
JS: É muito doce. É engraçado porque começámos a escrever música outra vez. E esse primeiro álbum é muito destemido. Tem muita espontaneidade. Tem uma inocência e uma ingenuidade tão reais que é praticamente impossível reproduzi-las. Não podemos voltar a esse lugar. Há algo de muito doce nesse disco e nas canções que o compõem.
O que é que me podem contar sobre as novas canções que estão a criar?
JS: Não podemos contar nada ainda. Mas fiquem atentos.
SH: Estamos só a começar.
JS: Passámos por muita coisa nos últimos dez anos. Aconteceu muita coisa, sabes? Todos nós mudámos, de formas diferentes, mas positivamente.
Estão mais sábios?
JS: Definitivamente mais velhos e um pouco mais sábios, espero eu.
SH: Há muito para falar com tudo o que tem acontecido no mundo nos últimos 10 anos. Falo também da nossa perspetiva. Somos pessoas diferentes que fazem isto há 20 anos, mesmo com interrupções.
Vão voltar a Portugal para atuar no Cooljazz, em Cascais. O que é que nos podem dizer sobre o concerto?
JS: Estamos agora a tratar do alinhamento. Como andámos na estrada no último verão, sinto que estamos em boa forma. O espetáculo é muito teatral. E é muito divertido e excitante. É uma festa, na verdade. Vai haver muita coisa para ver. As nossas meninas são o máximo. E vamos tocar canções antigas que já não tocamos há algum tempo.
SH: Posso dizer que podem esperar uma grande viagem que acaba com um pouco de caos. Vai haver definitivamente um elemento de caos que se vai infiltrar no espetáculo.
JS: Sim!
