Trovante na MEO Arena: aplauso demorado e de pé a uma história que começou há 50 anos
Hoje o grupo histórico volta a reunir no mesmo sítio, com a sala esgotada. A 27 e 28 de março, o Trovante atua na Super Bock Arena, no Porto.
A celebração dos 50 anos desde as origens do Trovante encheu ontem a MEO Arena na primeira noite que reuniu o grupo no amplo palco lisboeta. Hoje, 21 de março, a troupe histórica volta a reunir no mesmo sítio, com a sala esgotada. A 27 e 28 de março, o Trovante atua na Super Bock Arena, no Porto. Quatro ocasiões especiais para os ver outra vez em cima do palco e para celebrar o contributo inquestionável que deram à música portuguesa. Era o tempo do boom do rock português quando o Trovante (ou "trovadores progressistas" para onde o nome aponta) foi resgatar sons mais tradicionais.
Forte aplauso de reconhecimento para Luís Represas, João Gil, Manuel Faria, Fernando Júdice, Artur Costa, João Nuno Represas e José Salgueiro. Também para António José Martins, desta vez envolvido na produção dos espetáculos, e para Gui Salgueiro (filho de José Salgueiro) que acompanha o elenco dos "trovadores".
"Viver Tudo Numa Noite" - frase da canção 'Memórias de um Beijo' - é o nome que "batiza" o regresso histórico do coletivo para os quatro concertos. Não será apenas uma noite, é certo, mas a ideia é que cada um dos espetáculos seja, de certa forma, único. Na carta de intenções do Trovante para o retorno aos palcos está uma passagem pelos 16 anos de história do grupo, com a boa inevitabilidade de reavivar ao vivo canções que enriqueceram tanto o cancioneiro português como a memória coletiva do país que continua a trauteá-las. E assim foi. Pelo meio do trilho mais previsível de êxitos - sem que um atalho fosse possível - surpresas que completaram a “viagem” pelo catálogo do coletivo.
Nas entrevistas que antecederam os concertos, Luís Represas relevou a importância da entrega do grupo a cada um dos espetáculos. Uma entrega que se corporiza em “cuidado e brio”, disse o músico, no início de março, ao jornalista da casa, Gonçalo Palma, quando este entrevistou alguns elementos do grupo.
Na mesma entrevista, que decorreu no meio da revitalizante azáfama dos ensaios para estes concertos que estimam como “especiais”, João Gil reconfortou-se na ideia de “voltar, outra vez, à casa-mãe”.
“É voltar a ter aqueles sabores intensos que a nossa avó e a nossa mãe faziam, e só a nossa avó e a nossa mãe faziam”, acrescentou na entrevista, afastando, porém, do discurso qualquer tom de saudosismo com pó. Preferiu inclinar-se para o propósito de “manter a infância viva”, uma vez que, segundo disse, a infância musical passada no Trovante foi “muito feliz e vivida com intensidade”.
Ontem o fulgor dessa infância, agora revitalizada nos palcos e à frente de milhares, insuflou boas lembranças - quer da banda como do público - e sentiu-se no entrosamento cúmplice de um grupo que soma uma sobredosagem de experiência (em grupo e a solo), vivências de estrada e partilhas de estúdio. Sentiu-se também na intemporalidade das canções que se soltaram do reportório da memória para respirarem, bem vivas, ao vivo.
Passavam poucos minutos das nove da noite, quando a MEO Arena começou, aos poucos, a encher. As pessoas, que foram encontrando os seus lugares depois de uma passeata debaixo de uma chuva nada digna para o início da primavera, foram-se acomodando, com um entusiasmo ainda comedido, nas cadeiras.
Dois ecrãs, a ladear o palco, mostravam preciosas imagens dos arquivos da banda. Vimos o Trovante em estúdio, no topo de um camião e nos palcos de outrora. Algumas fotografias com o foco na vibração (ainda que cristalizada) dos públicos que os acolheram ao longo dos anos. Ainda uma lembrança com Jorge Sampaio outra com Mário Soares e a revisita obrigatória às capas dos discos que materializaram para sempre a herança que nos deixam. Muitas fotografias do antes, umas quantas do agora e um palco, ainda vazio, com uma parafernália de instrumentos à espera dos respetivos donos.
O burburinho na sala foi aumentando de volume à medida que se aproximava a hora do início do espetáculo. Quando a arena escureceu para a entrada do grupo, o burburinho transformou-se em aplausos. Estava na altura de receber os protagonistas merecedores de uma noite triunfante.
O acelerado 'Comboio', do álbum "Cais das Colinas" (1983), entrou “pela sala adentro” com Manuel Faria a dar vida às teclas. O resto do grupo juntou-se à locomotiva instrumental, enquanto a voz inconfundível de Luís Represas acomodou a canção que foi escolhida para abrir o espetáculo.
Sem paragens, pulo para a próxima com os pés do grupo a aterrar no álbum "Terra Firme". 'Noite de Verão' salta do alinhamento, mantendo o ritmo e evidenciando troca de cumplicidades entre a banda. A dada altura, Luís Represas apoia-se na bateria de José Salgueiro mas logo depois vai fazer companhia a Artur Costa no saxofone.
"Boa noite, Lisboa", grita Represas para a sala, mas sem grandes demoras no discurso. Escuta-se a flauta transversal de Artur Costa a dar as boas-vindas a 'Xácara das Bruxas Dançando', canção que conta com o coro de praticamente todos os que ali estavam.
Breve paragem para sentir o pulso ao público, só "para saber se estavam em condições" e segue-se 'Ribeirinho'. Escutada a canção de "Cais das Colinas", Luís Represas, descontraído e brincalhão, apresenta, um a um, os companheiros de palco e “amigos”, como lhes chama, não esquecendo José Martins que desta vez “atuou” nos bastidores. 'Namoro II' veio a seguir.
'Esplanada', do álbum "Trovante 84", é apresentada, com um profundo sentido de respeito, por Luís Represas. O vocalista do grupo enaltece “a junção de palavras” da canção da autoria de João Monge. “É um dos grandes escritores da música portuguesa desde a metade do século XX até agora”, disse, apoiado por um forte aplauso, também de sentido respeito, que veio de todos os pontos da sala.
'Travessa do Poço dos Negros' evoca o fado, com João Gil e Luís Represas juntos nas cordas e na frente do palco. Manuel Faria acompanha no acordeão, voltando logo a seguir ao posto das teclas para a que se escutou depois.
'Peter’s' proporciona um momento coletivo de uma espécie de introspeção na sala, com os mais destemidos a quebrar o silêncio da plateia para trautear, com suavidade, a canção que vai fluindo com o saxofone e é abraçada pelo piano. A voz de Luís Represas enche a sala. No final do tema, mais um robusto aplauso para o trabalho de grupo desta turma de veteranos.
Chega o momento de 'Memórias de Um Beijo'. Luís Represas conta a história da composição da canção, arriscando inconfidências inocentes sobre uma paixão de João Gil que o terá inspirado. João Gil, mesmo ao lado do companheiro, reage com humor mas também com um elogio rasgado ao amor. "O amor salva-nos", disse, como resposta, desencadeando uma troca de risos entre os dois. O tema de "Terra Firme" é cantado por todos na sala e talvez até por Marcelo Rebelo de Sousa que fez questão de ontem “viver tudo numa noite” ao lado do Trovante.
Segue-se 'Balada das Sete Saias', com um pé no álbum "Baile no Bosque", e a garra de 'Fizeram os Dias Assim', canção que, sobretudo na voz e no punho de João Gil, ainda perdura como manifesto.
'Um Caso a Mais' volta a aproximar Gil e Represas, cada um com a respetiva guitarra nos braços. Em 'Sorriso', os instrumentos entram devagar, pondo a descoberto a voz irrepreensível de Luís Represas, voz essa que logo depois engrandece ainda mais a poesia da enorme Florbela Espanca. A poucas horas do Dia Mundial da Poesia (que se assinala hoje), a MEO Arena “declamou” em grupo a canção 'Perdidamente' com as teclas de Manuel Faria e a voz de Represas a arrepiar até as paredes da sala. Os dois terminam o tema encostados ao piano. O público aplaude de pé.
Regresso do resto da banda ao palco para 'Chão Nosso', canção que, como disse Luís Represas, deu nome ao primeiro disco do coletivo. "Quando tocávamos esta, em países que já não existem, era um sucesso”, disse, com graça, enquanto relembrava o ano de 1976. A “relíquia” dos primórdios que assinalam 50 anos da banda começa a capella até o som de uma série de bombos ecoar pela arena. Depois dos bombos, a percussão continua a brilhar com uma amigável batalha de solos entre José Salgueiro, João Nuno Represas e Gui Salgueiro. Sem perder o ritmo o grupo avança depois com 'Procissão de Santa Bebiana' e 'Prima da Chula'. 'Saudade' começa com um momento a capella entregue ao público, com Luís Represas a orquestrar as vozes.
"Esta noite, para nós, é de uma grande sensibilidade porque é a estreia", diz a voz do Trovante antes do primeiro encore. Depois, uma alusão às coincidências curiosas da vida. Luís Represas lembrou o ano de 1999 quando Jorge Sampaio, na altura Presidente da República, os convidou para uma reunião histórica naquele mesmo espaço que na época se chamava Pavilhão Atlântico. Foi então que aproveitou o momento para saudar a presença de Marcelo Rebelo de Sousa, agora ali presente enquanto "cidadão do país para apreciar um espetáculo de música popular". Aplausos demorados até à retoma do discurso que depois se focou nos afetos familiares e na presença de todos os filhos dos elementos da banda. Saudação especial à presença da mãe de Manuel Faria que, aos 100 anos, recebeu a ovação mais emotiva da noite.
No primeiro encore, a arena lisboeta escutou 'Fim', 'Linha das Fronteiras' e 'Timor'. O grande final foi ao som de 'Molinera' e, claro, de '125 Azul' que, assim que chegou a grande velocidade, meteu toda a gente a cantar e a saltar, incluindo João Gil, claramente com a alma e os movimentos no pico da jovialidade. Mais uma ovação de pé para a noite de estreia desta série de reencontros do Trovante com o seu estimado público.
Faltava apenas o agradecimento coletivo, com a tradicional vénia, e a foto de grupo para o espólio dos arquivos que continua aberto, pelo menos, para mais três concertos.
Se 'Memórias de um Beijo' diz que “as lembranças são os sorrisos que queremos rever devagar”, o regresso aos palcos do Trovante contou-nos que as lembranças são sorrisos que ontem foram aplaudidos de pé.
