Wagner Moura volta aos palcos e traz "Um Julgamento" ao CCB

O ator junta-se a Christiane Jatahy, Danilo Grangheia e Julia Bernat numa que questiona verdade, poder e participação democrática.

Deve o sustento económico de uma cidade prevalecer sobre a saúde pública? É essa a questão central de ‘Um Julgamento’, que sobe ao palco do Centro Cultural de Belém este fim de semana.
O projeto de Wagner Moura - que não faz teatro desde 2009 - e Christiane Jatahy inspiram-se em 'Um Inimigo do Povo', de Henrik Ibsen, e transformam o teatro num tribunal.
Se já na obra feita por Ibsen no século XIX debatia-se a ecologia, a relação entre ciência e política e o papel da imprensa, esta criação transporta a obra para a atualidade e fala destes temas, hoje mais atuais do que nunca. Esta quarta-feira, no CCB, Christiane Jatahy, Wagner Moura e os atores Danilo Grangheia e Julia Bernat estiveram em conferência de imprensa para explicar como a realidade entra em palco.

"O Julgamento não é uma adaptação do Inimigo do Povo"

Apesar de se inspirar no texto de Ibsen, a peça que chega ao CCB é um original que continua a história. A diretora Christiane garante que não é preciso conhecer 'Um Inimigo do Povo' para acompanhar a peça, apesar de a obra servir de base à história.

"O material de Ibsen nos serviu muito como passado" -  Christiane Jatahy

Thomas Stockman (interpretado por Wagner Moura), médico de uma pequena cidade que depende economicamente do turismo termal, descobriu que as águas locais estavam gravemente contaminadas e denunciou a informação. No espetáculo, o "inimigo do povo" é levado a julgamento e o público terá um papel determinante nesta decisão: onze elementos da plateia, selecionados aleatoriamente, decidem se Thomas é ou não culpado através de perguntas feitas ao protagonista para as quais Wagner improvisa respostas. 

"Os clássicos são clássicos por alguma razão, né? Isso é uma coisa impressionante, toda a vez que eu tenho que responder as perguntas dos jurados, 82,3%, eu volto para Ibsen." - Wagner Moura

Jatahy avisa que "é muito raro haver um consenso", com um público que tem mudado quer nas cidades brasileiras quer na Europa: "até mesmo quando se aproxima de uma possível unanimidade, não deixa de ser surpreendente". Sobretudo por sentirem que há cada vez mais pessoas contra o protagonista.

"O teatro é um compromisso muito importante para mim, muito sagrado"

A criação conjunta tinha sido pensada há vinte anos, mas a indisponibilidade de agenda impediu que Wagner e Christiane fizessem uma peça juntos mais cedo. O nomeado ao Óscar de Melhor Ator considera que o teatro é um compromisso  "sagrado", quer pelas origens na formação em Salvador na Bahia no início da carreira quer pelos efeitos que sente ao estar em palco. 
"Toda a vez que aparecia um projeto de teatro, não tinha força, não era um ímã que me puxava. Até encontrar a Cris. Acho que os atores de teatro, no meu caso pelo menos, eventualmente precisam voltar ao teatro. Quando volto ao teatro é como se tivesse um reboot no meu HD." - Wagner Moura
Wagner considera que é nos palcos dos teatros que encontra "a natureza de ser ator", que estar em cena o faz perceber por que razão é ator.

"Tenho horror a peça panfletária"

A cultura pode ser um instrumento político. Christiane Jatahy admite ter "horror a peça panfletária” e recusa que este trabalho seja propaganda, mas a política pode usar a arte como veículo. A diretora refere que o filme lançado para a campanha do Presidente Bolsonaro é muito significativo: “são fins de propaganda e dogmáticos que a extrema direita costuma aplicar em todos os seus discursos, o que é muito diferente da esquerda.” Reforça ainda que as pessoas têm direito de pensar diferente. 

“Esta questão de dizer que a cultura foi roubada pela esquerda não é para destruir a cultura, mas para se apropriar realmente da cultura. Quanto mais a cultura for apoiada, mais o teatro vai chegar a todas as pessoas, mesmo com pensamentos diferentes.” - Christiane Jatahy

Esta é uma peça que coloca em discussão questões que interessam a todas as pessoas e na qual, segundo a diretora "algumas pessoas podem assistir a essa peça e achar o contrário, que a gente está falando". Contudo, a cultura não é uma peça isolada e é impossível que a arte não seja contaminada pela sociedade.

“A gente tá vivendo um momento que dá muito medo mesmo e eu acho que a única reação ao medo é a ação, a resistência.” - Christiane Jatahy

A peça abre com Wagner Moura a anunciar que "a verdade acabou e isso me assusta". Resta saber qual será o veredito da peça em Lisboa.

"Um julgamento" está em cena no Centro Cultural de Belém este fim-de-semana, entre 3 e 5 de julho.