Tó Trips sobre Mark Lanegan: "tínhamos pensado fazer uma banda de apoio para as cenas dele"
Através dos Dead Combo, o guitarrista português colaborou com o recém-falecido cantor, que chegou a ponderar vir viver para Portugal.
Tó Trips é um dos músicos que melhor conheceu Mark Lanegan nos seus últimos anos de vida. O ex-vocalista dos Screaming Trees participou em dois concertos dos Dead Combo, em duas vindas diferentes a Portugal: no Festival de Paredes de Coura de 2018 e no Campo Pequeno, em Lisboa, em 2019. "Foi através do Alain Johannes, que produziu o álbum Odeon Hotel, que ele veio cá. Ele é que nos arranjou o contacto e falámos com ele. O Alain também falou com ele. Conseguimos que ele viesse", diz-nos hoje Tó Trips, em declarações à nossa rádio.
"A nossa ideia era mais spoken word. Chegámos a fazer isso com o Camané. E ainda convidámos o Nick Cave. Depois convidámos o Mark Lanegan, que foi mais pela canção. Arranjámos um poema do Fernando Pessoa que ele já conhecia. Ele tinha o Livro do Desassossego. E assim foi. É uma voz inconfundível", que ficou registada na faixa de "Odeon Hotel", 'I Know, I Alone'. “A partir daí, passámos a ter uma relação próxima. Quando veio cá pela primeira vez, foi quando o Pedro [Gonçalves, o falecido multi-instrumentista dos Dead Combo] soube que estava doente. Depois, criou-se uma amizade. Íamos trocando uns mails, uns telefonemas".
Chegou a surgir a hipótese de gravarem um álbum juntos. "Ainda se falou nisso. Houve uma altura na pandemia em que [Mark Lanegan] me mandou um mail naquela de ver como é que eram as coisas por aqui, porque estava farto dos Estados Unidos. Ainda planeou vir viver para aqui. A minha mulher ainda lhe mandou um mail a explicar-lhe como é que era [viver] aqui, quais eram as condições. Tinha-se pensado fazer uma banda suporte para as cenas dele, se tivesse vindo para cá. Mas depois nada disso aconteceu. O Pedro [Gonçalves] estava doente”.
A partir da empatia natural com Mark Lanegan e do problema de saúde de Pedro Gonçalves, a relação próxima manteve-se até aos dias de hoje. "Ele às vezes telefonava-me para saber do Pedro. Às vezes, telefonava-lhe eu. Ele era muito reservado. Era um tipo que gostava de estar sozinho, nas cenas dele. Quando a gente falava com ele, ele falava connosco. Tinha várias histórias para contar. Era um tipo interessante".
Havia várias cumplicidades entre os Dead Combo e Mark Lanegan, tanto a nível comportamental, como no plano musical. Os três eram de poucas palavras, incluindo Pedro Gonçalves. E quer Trips, quer Lanegan veneravam os Gun Club, ao ponto de terem feito juntos e em palco a versão de um dos temas míticos da banda de Jefrey Lee Pierce, 'Fire of Love' (de 1981). “Quando fui busca-lo ao aeroporto, passámos ali pela Alameda, no [cinema] Império. Ele achou piada à arquitetura. 'Hi, muita fixe a arquitetura do Império'. E eu disse-lhe: 'olha, em 1987, tocaram aqui os Gun Club'. A partir daí, começou a contar histórias dos Gun Club, que os adorava. O 'Fire of Love' foi uma proposta que ele fez para nós tocarmos. Ele também gostava muito dos Joy Division".
