Ana Ventura, autora de "Uma Página da História": "os Da Weasel são uma prova de coragem"
A biografia oficial dos Da Weasel já está nas lojas. A banda atua a 14 de julho no MEO Marés Vivas.
"Uma Página da História" - a biografia oficial dos Da Weasel - já é "de quem a apanhar". A jornalista Ana Ventura é a autora do livro - editado ontem (27 de abril) - que chega no ano em que a banda assinala 30 anos desde a sua formação.
"Uma Página da História" resulta "de um ano de longas conversas" com os seis elementos do grupo português. Carlos Nobre (Pacman/Carlão), João Nobre (Jay-Jay Neige), Bruno Silva (Virgul), Pedro Quaresma (Quakas), Guilherme Silva (Guillaz) e Miguel Negretti (DJ Glue) são os protagonistas da narrativa que relata as vivências de uma das bandas mais importantes da música portuguesa e que, em 2022, regressou aos palcos após mais de uma década sem atividade.
O concerto do grandioso regresso aconteceu no NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés, perante um mar entusiasmado de gente. Cerca de 50 mil pessoas quiseram assistir ao momento com estatuto de histórico. No próximo dia 14 de julho, a doninha vai fazer estremecer Vila Nova de Gaia, com uma atuação marcada para o MEO Marés Vivas.
O livro "Uma Página da História" vai ser apresentado em vários pontos do país, em maio e junho. Os eventos de apresentação vão contar com a presença dos Da Weasel e da autora da obra, Ana Ventura. Pode ver as datas mais abaixo.
Finalmente, existe uma biografia oficial dos Da Weasel e coube-te a ti a tarefa de escrevê-la. "Uma Página da História" chega com muitas histórias lá dentro...
Acabei por apropriar-me de uma frase de uma letra dos Da Weasel para o título. Mudei apenas uma vogal e o sentido da frase mudou. No tema 'Força', os Da Weasel dizem "uma página de história", mas o livro chama-se "Uma Página da História". Acho que a página não é só da história deles. É também uma página da história de cada um de nós, de todos os que, de alguma forma, foram tocados pela obra deles. Acho que, acima de tudo, é uma página da história da música e da cultura portuguesas.
Apresentei-lhes a ideia [para o título] e eles gostaram. Acho que o facto de terem gostado acaba por representar muito bem o que foi esta viagem. Iam sempre aceitando as ideias que eu ia pondo em cima da mesa, por mais loucas que fossem. Confiaram sempre. Além disso, deram-me o privilégio de poder concretizá-las. Ainda assim, acho que a primeira grande loucura foi mesmo escrever o livro.
O livro reúne entrevistas que foram feitas ao longo de um ano. Como é que estruturaste as entrevistas?
Tinha uma entrevista estruturada para cada capítulo. Em cada uma das entrevistas, tinha os tópicos principais sobre os episódios que marcaram a carreira da banda durante determinado período. Depois falei isoladamente com cada um deles, apesar de não ter falado sempre com os seis em cada um dos capítulos. A "conversa" que lemos no livro aconteceu apenas na minha cabeça.
As histórias e os detalhes parecem estar muito frescos na memória deles, sentiste isso?
Quando lidamos com as memórias, os pormenores nunca estão absolutamente frescos. É, aliás, uma das coisas que mais me atrai nos livros em registo oral, o mesmo registo que já tinha feito com os Xutos & Pontapés, com o livro "À Minha Maneira". Quando entrevistamos individualmente cada um dos elementos do grupo percebemos claramente o sentido da velha máxima que diz que há sempre três versões da mesma história - a minha, a tua e a verdadeira. É mesmo assim. Cada um dos elementos dos Da Weasel viu a mesma coisa, viveu a mesma coisa, mas a forma como viu e viveu é diferente. E não importa se estamos a falar de coisas que aconteceram em 1993 ou em 2010. A perspetiva de cada um deles revela a respetiva personalidade. Revela a forma como cada um deles lida com as situações. É engraçado ver que o nível de importância que cada um deu a determinados acontecimentos é diferente. Fazer entrevistas individuais tem este lado divertido.
O que também deve ser divertido é vê-los agora a comparar as versões e a cruzar as várias perspectivas...
Sim e a descobrir coisas novas uns dos outros. Eles foram lendo o livro à medida que cada capítulo ia estado pronto. Fiquei com o coração apertado quando lhes mostrei os dois primeiros capítulos. No fundo, esse foi o primeiro confronto com a realidade que me estavam a contar.
E que página escreveram os Da Weasel na história da música nacional?
Acima de tudo, os Da Weasel são uma prova de coragem. São a prova de que, se nós não edificarmos barreiras para aquilo que é a nossa vontade ou o nosso sonho, conseguimos ir muito mais longe. Apesar de hoje em dia já nem nos questionarmos, aquilo que os Da Weasel fizeram, na primeira metade da década de noventa, era algo totalmente impensável. Estou a falar do arrojo que tiveram em misturar sons tão diferentes, como são o hard core e o hip-hop. É importante lembrar que naquela altura em Portugal ainda estávamos a descobrir o que era o hip-hop. Era impensável misturar esse som com as guitarras distorcidas ou com uma toada mais pesada. Hoje o que é estranho é não haver essa mescla de géneros, mas na época não era bem assim.
Os Da Weasel até foram um pouco olhados de lado. A própria crítica não entendia aquilo que estavam a fazer. Eles chegaram primeiro ao público. Só depois de terem conquistado o público é que começaram a recolher alguma aclamação por parte da indústria. Acho que acreditaram imenso no que estavam a fazer. Acreditaram nos sonhos que tinham, na vontade que tinham e nas influências musicais que partilhavam. Nunca se vergaram e acabaram por concretizar um sonho que foi muito além daquilo que podiam imaginar. Acreditavam no que estavam a fazer sem pensarem sequer que um dia estariam a atuar para 50 mil pessoas, como aconteceu no NOS Alive, em 2022.
Acompanhaste o regresso da doninha aos palcos, cerca de uma década depois do "fim" anunciado. Como é que o tempo atuou nos Da Weasel?
Em dez anos acontece muita coisa. Aconteceu muita coisa na música, nas vidas das pessoas. Como tal, também muda muita coisa em nós. Aquela curiosidade de perceber se o regresso da doninha faria sentido não estava apenas na cabeça da banda. Também estava na cabeça de quem viveu a música deles e de todos os que fizeram das canções dos Da Weasel a banda sonora de vida.
É prazeroso perceber que as mensagens que eles nos passaram na altura, quando tínhamos 20 ou 30 anos, continuam atuais. Percebemos que não nos enganámos. Os seis elementos dos Da Weasel envelheceram muito bem, mas, acima de tudo, as canções também envelheceram muito bem.
Sentiste alguma abertura para um eventual regresso ao estúdio, à composição?
Os Da Weasel são muito mais do que a soma das suas partes. São uma entidade que surge quando os seis elementos se reúnem no mesmo sítio. Porém, são seis pessoas diferentes. Uns queriam já ter um ou dois discos novos compostos, outros têm o foco no concerto que vão dar no MEO Marés Vivas. Essas diferenças também são a riqueza da banda. O que posso dizer é que os Da Weasel continuam a ter muitos sonhos e que vieram para ficar.
APRESENTAÇÕES "UMA PÁGINA DA HISTÓRIA"
3 de MAIO – FNAC Colombo, Lisboa – 18H30
(com moderação de Ricardo Farinha)
5 de MAIO – FNAC Stª Catarina, Porto – 18H30
(com moderação de Tito Couto)
12 de MAIO - FNAC Almada Fórum - 19H00
(com moderação de José Mariño)
6 de JUNHO - Feira do Livro de Lisboa | Stand Showtime Books
(com moderação de José Mariño)
