2024 na música: as notas de ativismo e solidariedade que pautaram o ano

As ações solidárias e os atos de ativismo que marcaram o ano no universo musical.

Mesmo que a voz lhe doa, Macklemore não se cala quando chega a hora de pedir a paz em Gaza

No final de outubro, o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, descreveu o cenário trágico na Faixa de Gaza como "a pior crise humanitária desde a II Guerra Mundial". As palavras são esclarecedoras e foram proferidas pouco mais de um ano após o início da ofensiva militar israelita naquele território. 

Também em outubro o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde afirmou que "a situação no norte de Gaza é catastrófica". Tedros Adhanom denunciou as "operações militares intensas" por parte das forças israelitas em hospitais, por exemplo, uma situação que está a privar os palestinianos de cuidados médicos vitais.

Estima-se que o número de mortos ultrapasse os 40 mil e a soma de feridos os 100 mil. Multiplicam-se doenças e multiplica-se a fome. 

Um artista que tem sido vocal sobre a situação em Gaza é o rapper norte-americano Macklemore. O músico de Seattle não arreda pé da causa e em 2024 lançou dois singles que "estendem a mão" ao povo palestiniano e criticam o apoio militar dos Estados Unidos a Israel. 
 
As receitas de 'Hind's Hall' (lançada em maio) e 'Hind's Hall 2' (partilhada em setembro) revertem para a UNRWA - a agência das Nações Unidas que ajuda refugiados palestinianos e que tem estado na mira do estado israelita. 


Os títulos das canções lembram a história de Hind Rajab, uma criança, de 5 anos, que foi morta pelas forças militares israelitas no início do ano. A pequena Hind, que sobreviveu a um primeiro ataque que matou 6 membros da sua família, foi morta pouco tempo depois. Sendo a única sobrevivente, Hind conseguiu contactar as equipas de socorro mas não conseguiu que a salvassem. Hind e os dois paramédicos que foram socorrê-la acabaram por não resistir a um novo ataque levado a cabo pelas forças de Israel. 

'Hind's Hall 2' conta com a participação do rapper Anees e do comediante Amer Zahr, ambos palestino-americanos, e também de MC Abdul, um jovem rapper, natural da Faixa de Gaza, que atualmente vive em Los Angeles, nos Estados Unidos. A canção conta ainda com as vozes do coro LA Palestinian Kids Choir.  

Massive Attack, ativistas a tempo inteiro e sem mãos a medir  

Da ecologia à consciência social, a existência do grupo de Bristol é por isso só um manifesto. Em 2024, passaram pelo MEO Kalorama, no Parque da Bela Vista, com a digressão que inclui a escocesa Elizabeth Fraser, o jamaicano Horace Andy, os escoceses Young Fathers e a cantora britânica Deborah Miller.

O espetáculo “desdobrou-se numa série de inquietações, como a sobrecarga tecnológica versus autenticidade humana, a ditadura silenciosa do algoritmo, os bombardeamentos literais em zonas de guerra (da Ucrânia ao Iraque) ou os bombardeamentos de informação descartável e vazia que se "infiltra" na zona da reflexão humana, anulando-a. E meteu o foco na Palestina” - causa que os Massive Attack abraçam há vários anos. Agora, em 2024, pedem pelo "fim do genocídio" em Gaza.  


No concerto que deram em agosto na cidade de Bristol, Inglaterra, os Massive Attack entregaram o palco a um fotojornalista palestiniano que conseguiu fugir dos bombardeamentos israelitas na Faixa de Gaza, estando agora refugiado em Londres. Robert Del Naja (3D) e Daddy G deram voz a Motaz Azaiza e ajudaram a amplificar o pedido de ajuda dos habitantes de Gaza pelo mundo. Azaiza falou em nome dos que diariamente lutam pela sobrevivência no meio de escombros, fome e doenças. 

O regresso dos Massive Attack a Bristol também enviou uma mensagem ecológica ao mundo. O espetáculo foi preparado para ser o concerto com a menor emissão de carbono possível, ação que faz parte da missão climática que a dupla assumiu há alguns anos. Em 2019, os Massive Attack juntaram-se ao Tyndall Centre for Climate Change Research - um centro da Universidade de Manchester que procura soluções sustentáveis para ajudar a reduzir os efeitos das alterações climáticas. 

A energia ativista dos irlandeses Fontaines D.C. 

Em dezembro de 2023, os Fontaines D.C. já se tinham juntado aos Massive Attack e aos escoceses Young Fathers para a criação de um EP solidário com a causa palestiniana. Os lucros do registo "Ceasefire" (cessar-fogo) reverteram a favor da ação dos Médicos Sem Fronteiras na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. O apoio à causa palestiniana por parte dos Fontaines D.C. continua em 2024. Em agosto, o grupo cancelou um concerto na Turquia como forma de protesto contra a atuação do estado de Israel. O espetáculo estava marcado para o Zorlu PSM, propriedade da empresa israelita de energia Dorad. 

Na digressão deste ano, que passou duas vezes por Portugal, a banda irlandesa voltou a manifestar apoio ao povo palestiniano. Quer em Paredes de Coura (em agosto) quer no lisboeta Campo Pequeno (em novembro) a banda irlandesa fez questão de atuar com uma bandeira da Palestina no palco.  


O 'Grito' da portuguesa iolanda na Eurovisão foi pela paz 

Numa edição que ficou marcada pelas vozes de contestação pela presença de Israel na competição eurovisiva, a portuguesa iolanda apelou à paz quando cantou 'Grito' na fase final da competição. A representante portuguesa na 68ª edição da Eurovisão terminou a atuação na final do concurso com a frase: "a paz vai prevalecer". Iolanda cantou 'Grito' com as unhas pintadas com o padrão do 'keffiyeh', lenço que simboliza a causa palestiniana. 


"Nos momentos que antecederam a minha entrada em palco, a minha cabeça estava um autêntico turbilhão. Tinha noção que aquilo que estava prestes a fazer ia ter repercussões. Mas a minha intenção nunca foi marcar uma posição política até porque a paz não é uma politiquice", disse-nos a cantora numa entrevista que deu à rádio poucos dias depois da participação na Eurovisão. 

"Enquanto cidadã e antes de ser artista, figura pública ou de ter qualquer influência nas redes sociais, a paz é algo em que eu acredito. Todos nós, enquanto seres humanos, devíamos lutar pela paz. É óbvio que estamos a falar de uma situação geopolítica que envolve dois locais completamente diferentes e que se relacionam de uma forma que não é a correta. Mas nunca imaginei chegar ao ponto de testemunhar aquilo que está a acontecer [na Faixa de Gaza]. Quando comecei a cantar, passaram muitas imagens pela minha cabeça. Senti muitas emoções. O que pensei na altura foi: ‘se vou cantar para 200 milhões de pessoas, como é que posso ficar calada?’. E não fiquei. Usei a plataforma que tinha para, em primeiro lugar, promover a paz", acrescentou iolanda. 

A Suíça venceu a Eurovisão 2024 que teve lugar na Suécia. Portugal ficou em 10º lugar.  

Annie Lennox levantou a voz e o braço nos Grammys para pedir paz no mundo 

Na cerimónia de entrega dos Grammys, que teve lugar em fevereiro em Los Angeles, a cantora Annie Lennox deu voz a 'Nothing Compares 2 U' (celebrizado por Sinéad O' Connor) no segmento "In Memoriam" que lembra os artistas que morreram no ano anterior. 

No final da atuação, a cantora histórica escocesa, que também é ativista, pediu "paz no mundo", fazendo ainda referência ao movimento "Artists for Ceasefire" (Artistas pelo Cessar-fogo) - grupo com mais de 300 artistas que pede o cessar-fogo na Faixa de Gaza, bem como o resgate em segurança dos reféns que estão nas mãos do Hamas. Na lista de artistas que assinam uma missiva dirigida ao atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, encontramos nomes como os de Adam Lambert, America Ferrera, Ben Affleck, Bradley Cooper, Brian Eno, Cat Power, Drake, Jennifer Lopez, Nelly Furtado, Patti Smith, Peter Gabriel, Richard Gere, Run The Jewels, Dua Lipa, Michael Stipe, Caroline Polachek, Killer Mike, Vic Mensa, Ani DiFranco, Miguel, Kaytranada, Macklemore, Cate Blanchett, Joaquin Phoenix, John Cusack, Lena Waithe, Diplo, Florence Pugh, Jessica Chastain, Jessie Buckley, John Cusack, Jon Stewart, Kirsten Dunst, Kristen Stewart, Mark Ruffalo, Michael Moore, Milla Jovovich, Oscar Isaac, Rosie O'Donnell, Susan Sarandon, entre muitos outros. 


Artistas portugueses uniram-se pela mesma causa 

Também em fevereiro foi divulgada em Portugal uma missiva com o mesmo propósito. Artistas e produtores portugueses e brasileiros juntaram-se no abaixo-assinado "Músicos por um cessar-fogo em Gaza, com a intenção de "apelar ao cessar-fogo imediato em Gaza, à entrada urgente de ajuda humanitária nos territórios ocupados, à libertação de todos os reféns e à resolução política desta ocupação no quadro das Nações Unidas (ONU)".
   
A iniciativa partiu do produtor Sérgio Machado Letria, também diretor da Fundação José Saramago, e reuniu artistas como Aldina Duarte, António Pinho Vargas, Chico Buarque, Capicua, Jorge Palma, Lena d'Água, Mário Laginha, Salvador Sobral, Tó Trips, Vitorino, A Garota Não, Ana Deus, Bernardo Tinoco, Carlos Bica, Carlos Barretto, Filipe Melo, Filipe Raposo e Francisca Cortesão (Minta), Cristina Branco, Gaspar Varela, Joana Espadinha, Luca Argel, Luís Tinoco, Márcia, Mitó Mendes, O Gajo, Pedro Moutinho, Ricardo Toscano, Rogério Charraz, Teresa Salgueiro, Carlos Caires, a banda Cassete Pirata, Edu Miranda, Inês Mota, Luís Varatojo, Margarida Campelo, Sebastião Varela, Suse Ribeiro, Tânia Monteiro, Tiago Branco, entre outros.   

Os subscritores sublinham na carta a importância de tornar "realidade a solução de dois Estados, defendida pela ONU", quando "todos os dias" são "confrontados com a violência perpetrada pelo governo de Israel contra a população palestiniana, no atropelo de todas as regras internacionais de respeito pelas populações civis e de ajuda humanitária". 

"A situação em Gaza piora de minuto a minuto e torna-se fundamental que um cessar-fogo seja decretado, pondo fim a semanas de desumanidade e numa tentativa de abrir caminho a uma solução pacífica que ponha fim ao domínio perpetrado por sucessivos governos israelitas sobre a Palestina", lê-se no texto do abaixo-assinado.

Em março, o brasileiro Chico Buarque já tinha manifestado a sua posição numa publicação nas redes sociais. O cantor, compositor e escritor qualificou as ações militares do estado israelita na Faixa de Gaza de "genocídio".  


Roger Waters e Yusuf/Cat Stevens cantaram pela Palestina numa igreja em Londres 

Foi em junho na igreja de St. Pancras, em Londres, Inglaterra. Os dois artistas britânicos atuaram no concerto solidário "Stand Up for Palestine" e aproveitaram a ocasião para falar sobre a situação que se vive no Médio Oriente. Roger Waters cantou 'Wish You Were Here' e o mais recente 'The Bar' que foi buscar ao catálogo da carreira que leva a solo. Yusuf/Cat Stevens interpretou a canção 'Wild World', que editou em 1970. 

"Estou certo que muitos de vocês, tal como eu, vivem com lágrimas nos olhos. Vivemos na era do limiar das lágrimas porque sentimos empatia pelos nossos irmãos e pelas nossas irmãs em Gaza e nos outros territórios ocupados na Palestina", disse Waters. "Empatia é uma bênção preciosa", acrescentou o músico histórico antes de dedicar 'Wish You Were Here' (clássico dos Pink Floyd) à Palestina.        


"Estou aqui também pelas crianças. São inocentes. São puras. E não merecem isto", disse Yusuf aos presentes. "Há um ditado que diz: 'quando matas uma alma inocente matas a humanidade'. E quem é que pode ser mais inocente que um bebé, que uma criança? As crianças que vivem naquele ponto do mundo não fazem ideia de como será o futuro. E muitas não terão futuro", acrescentou o músico.  


Um "Mundu Nôbu" por Dino D'Santiago 

Em maio, Dino D'Santiago, em conjunto com Liliana Valpaços, fundou a Mundu Nôbu, uma organização sem fins lucrativos com o intuito de "contribuir para uma maior representatividade de comunidades vulneráveis em diferentes setores da sociedade".  A organização, cuja atividade arrancou em setembro, desenvolveu um programa de intervenção comunitária intitulado "O teu lugar no mundo", que pretende chegar a 160 jovens, dos 14 aos 18 anos.   

"É uma organização que investe no sonho das crianças. Não as manipula nem impõe um limite naquilo que podem ser. Dei-lhe o nome de 'Mundu Nôbu' porque a minha intenção maior esteve sempre assente na ideia de contribuir para um mundo novo", disse-nos o músico algarvio quando esteve nos estúdios da rádio em abril.


"O objetivo é dar-lhes apoio psicológico, literacia financeira e promover acordos com universidades para que esses adolescentes sintam que podem pertencer ao mundo académico. Ainda paira a ideia que as universidades não são para estas pessoas, mas se estabelecermos um contacto prévio com esse tipo de oportunidade, o número de afrodescendentes a frequentar o ensino superior aumenta. Também ajudamos com questões de cidadania e relembramos que o exercício de voto faz a diferença. Dou um exemplo. Apenas 20 por cento das pessoas que vivem no bairro Cova da Moura [na Amadora] votam. As pessoas daquele bairro acham que o voto que exercem não vai fazer a diferença. A ideia é dizer-lhes precisamente o contrário. É dizer-lhes que as coisas podem mudar quando se começar a olhar para essas populações como eleitores", acrescentou Dino D'Santiago. 

Rosalía arregaçou as mangas e foi ajudar as pessoas afetadas pelas cheias em Valência 

A cantora espanhola Rosalía deslocou-se até Paiporta, uma das zonas mais afetadas pelas cheias do passado dia 29 de outubro, para se juntar à equipa de voluntários que estava no terreno a ajudar as pessoas afetadas pela tragédia. Nos vídeos que foram publicados na plataforma X podemos ver, por exemplo, a cantora a ajudar na distribuição de comida ou a descarregar os camiões que transportaram alimentos e materiais utilizados nas limpezas.

   



Taylor Swift deu 5 milhões de dólares às comunidades afetadas pelos furacões Helene e Milton

Em outubro, a cantora norte-americana doou 5 milhões de dólares (mais de 4 milhões de euros) às comunidades afetadas pelos furacões Helene e Milton que assolaram algumas áreas dos Estados Unidos, nomeadamente nos estados da Carolina do Norte, Carolina do Sul, Geórgia e Florida.   
A cantora norte-americana fez a doação à Feeding America - organização que ajudou, de diversas formas, as pessoas que foram afetadas pela passagem de ambos os furacões.

Os Dave Matthews Band também anunciaram um concerto de apoio às vítimas dos dois furacões. O concerto está agendado para o dia 24 de novembro no Madison Square Garden, em Nova Iorque. 

Mark Knopfler convocou elenco histórico para ajudar na luta contra o cancro

Em fevereiro, Mark Knopfler chamou mais de 60 artistas para a regravação do tema instrumental 'Going Home: Theme of the Local Hero' (de 1983) com o intuito de ajudar as organizações Teenage Cancer Trust e Teen Cancer America, que ajudam adolescentes que lutam contra o cancro. A lista, grandiosa por sinal, incluiu nomes como os de Bruce Springsteen, David Gilmour, Slash (Guns N' Roses), Eric Clapton, Ringo Starr, Ronnie Wood (Rolling Stones), Pete Townshend (The Who), Sting, Brian May (Queen), Joan Jett ou Nile Rodgers. O Jeff Beck (que morreu em 2023) também entrou no projeto, a título póstumo.

 
Oiça o primeiro episódio do Beataites, o podcast que faz o balanço do ano na indústria musical.