2024: a música que passou no ecrã
Biopics e documentários sobre músicos, cantores com carreiras de atores e uma estreia na animação de uma diva pop.
Neste balanço musical do ano de 2024, cruzamos música e cinema. O ecrã é também um palco e um camarim, através dos biopics e dos documentários. Há cantores que se atravessam para a tela, como a cada vez mais atriz Lady Gaga. E não nos esquecemos até dos filmes de músicos que estão a ser pré-produzidos, rodados ou já prontos para estrear no próximo ano. Comecemos pelos biopics.
O há muito esperado biopic sobre Bob Marley, “Bob Marley: One Love”, esteve em exibição nas nossas salas de cinema. O filme “Bob Marley: One Love” centra-se num período tenso da vida de Bob Marley, que intermedeia dois grandes eventos pela paz na Jamaica que tem o rei do reggae como figura maior do cartaz: o atribulado “Smile Jamaica” de 1976 e o mais bem sucedido “One Love Peace Concert”, de 1978. Pelo meio, que é quase tudo, o filme tem como cenário a cinzenta Londres onde o músico vive o seu exílio, com reminiscências do passado da soalheira Jamaica. A longa-metragem é realizada por Reinaldo Marcus Green e é interpretada por Kingsley Ben-Adir no papel de Bob Marley. Há alguns factos biográficos retratados ao detalhe, como o tiroteio e tentativa de homicídio a Bob Marley em 1976, na sua casa da Jamaica, ou o momento de inspiração repentista para a composição da canção ‘Exodus’, quando Bob Marley se empolga com a banda sonora do filme de Otto Preminger, “Exodus”, e coordena com os membros da banda a letra do que viria a ser o célebre tema, quando vivia em Londres. Em apenas seis dias, mais de 55 mil pessoas viram nos cinemas portugueses o filme sobre Bob Marley, “Bob Marley: One Love”. Novas gerações de fãs surgem em torno de um dos maiores ícones globais da música do século XX.
Outra cantora que se arriscava a ter um filme biográfico era Amy Winehouse. E teve-o este ano nas nossas salas de cinema. "Back to Black" é o nome do biopic, com a atriz Marisa Abela a encarnar a cantora e realização de Sam Taylor-Johnson. Ao abordar-se a vida de Amy Wnehouse, há de tudo: a ascensão meteórica ao estrelato, a paixão amorosa pelo problemático Blake Fielder-Civil e a derrocada no alcoolismo e na toxicodependência de alto grau. "Back to Black" esteve em exibição nos nossos cinemas.
Elvis Presley pode ser o rei do rock & roll e de muita coisa, mas não do olhar da cineasta Sofia Coppola que, como é seu hábito, deu em “Priscilla” o protagonismo principal a uma mulher, neste caso a uma jovem perdida no reino dos caprichos do omnipotente Elvis, na mansão de Graceland: Priscilla Presley, ela mesmo, a única mulher que se casou com o cantor. Como base no livro de Priscilla, “Elvis and Me”, o filme - que integrou o circuito comercial dos nossos cinemas - retrata a história da relação conjugal entre Elvis e Priscilla, do momento em que se conheceram na Alemanha até ao divórcio. Elvis Presley não sai bem deste retrato, interpretado como uma pessoa dominadora que tratava Priscilla como a sua boneca, sem oxigénio para a sua individualidade. É notável o trabalho de ator de Jacob Elordi a dar autenticidade a Elvis no seu íntimo, mas o papel principal coube a Cailee Spaeny, enquanto Priscilla, num trabalho que lhe valeu o prémio de Melhor Atriz no Festival Internacional de Veneza.
Passamos dos biopics estreados em 2024 aos biopics filmados em 2024 e que vão estrear no ano que vem. O filme sobre a vida de Bob Dylan, “A Complete Unknown”, estreia-se nos cinemas portugueses a 30 de janeiro de 2025. A narrativa baseada em factos verídicos incide nos primeiros anos de carreira de Bob Dylan, do jovem prodígio que tocava nos clubes de folk de Greenwich Village, em Nova Iorque, à estrela em questionamento que comete o sacrilégio de se metamorfosear para o rock & roll em pleno Festival de Folk de Newport, perante muita contestação e escaramuças. Ao contrário do filme “I'm Not There” de Todd Haynes, em que Bob Dylan é fatiado em seis representações caricaturais de seis atores, em “A Complete Unknown” é assumida a coragem para reproduzir a realidade que aconteceu, sem derivações ou fugas. E para fazer isso, aí está o realizador James Mangold, que soube muito fazer essa reencarnação no filme sobre Johnny Cash, em “Walk the Line”. Cabe a Timothée Chalamet entrar na pele de Bob Dylan, ele que já tinha interpretado outra figura histórica de um outro tempo, o Rei de Inglaterra, Henrique V, do século XV.
Menos convencional será o biopic sobre Robbie Williams, "Better Man", em que o cantor inglês é representado por… um chimpazé. O símio é manipulado digitalmente e leva com a voz humana do ator inglês Jonno Davies. Estão lá, ainda assim, todos os dramas vividos por Robbie Williams, do menino que sonhava à estrela principal da boy band Take That. "Better Man" está em exibição nas nossas salas a partir de 16 de janeiro.
Outro biopic que tem sido muito noticiado este ano e que só vai ver a luz… do projetor em 2025 é “Michael”, sobre a vida de Michael Jackson. Quem o interpreta em idade adulta tem sangue Jackson, o seu sobrinho Jaafar Jackson. O ator menor Juliano Krue Valdi não é um Jackson de sangue, mas tem poderosas semelhanças com o Rei da Pop quando era criança e membros dos Jackson 5, que validam o seu intérprete na fase inicial dos Jackson 5. Antoine Fuqua é o realizador de um filme que vai ter outras personagens importantes na vida de Michael Jackson, como a cantora Diana Ross ou o produtor Quincy Jones.
Tem estado em rodagem o filme sobre a fase mais reclusiva de Bruce Springsteen, "Deliver Me from Nowhere". Cabe ao ator Jeremy Allen White (conhecido por séries de TV como “Shameless” ou “The Bear”) calçar as botas do Boss, quando este tinha 32 anos. Jeremy Allen White não lhe calça só as botas, como lhe veste o casado de couro de aba subida e liga a ignição do carro Chevrolet Z28 Camaro, modelo outrora guiado por Springsteen. Vamos todos para 1982, portanto, quando Bruce Springsteen se fechou nele próprio para gravar sem a banda E Street Band o seu álbum mais country e blues de todos, “Nebraska”. Bruce Springsteen e Jeremy Allen White têm interagido um com o outro, desde que o papel foi entregue ao ator norte-americano. Como um Boss, Bruce Springsteen esteve mesmo presente nas rodagens do biopic. "Deliver Me from Nowhere" é realizado por Scott Cooper.
Há mais biopics em preparação. E 2024 registou alguns avanços significativos. Os Beatles vão merecer quatro filmes, um pela vida de cada membro da banda - que depois se cruzam - a serem realizados pelo cineasta premiado Sam Mendes – anunciou hoje a produtora Sony Pictures Entertainment. Cada filme adota o ângulo pessoal de cada um dos Beatles: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. A Universal Pictures assegurou os direitos para o filme sobre a vida do vocalista dos Red Hot Chili Peppers, Anthony Kiedis, baseado no livro biográfico de 2005, "Scar Tissue", sobre a vida complicada do rocker, enquanto delinquente, toxicodependente e membro de gangues, mas também os primeiros anos com a sua banda de sempre, ao lado do amigo Flea (baixista), o malogrado Hillel Slovak (guitarrista) e Jack Irons (baterista, mais tarde membro dos Pearl Jam). Los Angeles é a cidade central na narrativa, onde Kiedis vive desde os 12 anos. Neste ano, ficámos a saber quem é o ator escolhido para vestir a pele de Bradley Nowell no filme biográfico sobre os norte-americanos Sublime: KJ Apa. Está em preparação o filme biográfico sobre Britney Spears, baseado no livro de memórias "The Woman in Me", com produção de Marc Platt e realização de Jon M. Chu, segundo avançou em agosto a Variety. Selena Gomez foi a escolhida para interpretar o papel de Linda Ronstadt no biopic sobre a cantora norte-americana que andou por géneros como o rock, country ou música latina.
Há vários festivais de cinema que, como sabemos, dedicam secções a documentários de música. Vamos só dar alguns exemplos para não sermos demasiado exaustivos. O DocLisboa teve na sua secção do Heartbeat [dedicada aos artistas diretamente] o documentário sobre os Blur, “Blur: To the End”, com foco na gravação do álbum de 2023, “The Ballad of Darren” – em ano produtivo em documentários sobre os Blur se nos lembrarmos do filme-concerto "Blur: Live At Wembley Stadium" lançado em setembro nos formatos de DVD e blu-ray. Na sempre abundante programação da secção IndieMusic, do IndieLisboa, sobressaiu o novo documentário sobre Paul Simon, “In Restless Dreams: The Music of Paul Simon”, de Alex Gibney, que é um pingue-pongue entre passado e presente, entre as imagens de arquivo de Simon & Garfunkel e de outros momentos cruciais do cantor nova-iorquino, e o seu trabalho de estúdio para o seu álbum mais recente, “Seven Psalms”. O festival Porto/Post/Doc conseguiu ter na sua secção de Transmission o documentário sobre a vida interna dos ABBA, “Abba: Against The Odds”, que tem como tesouro as numerosas imagens de arquivo. James Rogan realiza este documentário.
As plataformas televisivas têm sido férteis em integrar na sua grelha novos documentários de música. O filme-concerto sobre a recente digressão da cantora Olivia Rodrigo chegou à plataforma Netflix, no contexto da famosa "Guts World Tour", que passou pela MEO Arena, em Lisboa.
A Disney+ continua a atrair para a sua grelha todos os documentários sobre os Beatles que vão aparecendo. A 29 de novembro, estreia-se nesta plataforma “Beatles ’64”, que conta com imagens inéditas ou raras daquela visita tão mediática dos Beatles aos Estados Unidos no inverno de 1964. O produtor é nada mais nada menos que Martin Scorsese. Também na Disney+, surgiu o documentário sobre outros fabulosos, os norte-americanos Beach Boys, e também com imagens de arquivo desconhecidas. “Beach Boys” é um trabalho escavador na vida interna da banda de Brian Wilson. Outra novidade da Disney+ foi o documentário sobre o compositor de bandas sonoras John Williams, “Music by John Williams”, onde são analisadas todas as suas grandes obras, desde a epopeia do “Star Wars”, “Sozinho em Casa” e, como seria de esperar, os filmes de Steven Spielberg, desde as genialmente simples notas para “Tubarão” ou “Encontros Imediatos de 3º Grau”, ao épico orquestral das aventuras de Indiana Jones. Muitos dos depoimentos são feitos num ambiente de grande cumplicidade e respeito entre John Williams e Steven Spielberg.
Começou este ano a carreira de ator de Salvador Sobral, com a rodagem do novo filme do realizador João Nicolau, em que o cantor interpreta, curiosamente, uma personagem “que não gosta de música”. A longa-metragem intitula-se “A Providência e a Guitarra”, tem como “ponto de partida” o conto homónimo de Robert Louis Stevenson (1850-1894). Pedro Inês e Clara Riedenstein têm os papéis principais. As filmagens decorreram numa pequena terra do Centro, no Carriçal.
A carreira de atriz de Lady Gaga continua de vento em popa. A cantora contracenou com Joaquin Phoenix na sequela cinematográfica "Joker: Loucura a Dois", num musical com temas populares do cancioneiro americano. Lady Gaga interpreta o papel de Harley Quinn, o grande amor da personagem Arthur Fleck (Joker), interpretada por Phoenix. Nem mesmo no encargo cinematográfico, Lady Gaga larga a sua vertente musical. Não só canta em "Joker: Loucura a Dois", como gravou um álbum, “Harlequin”, que parte das músicas para esse filme, realizado por Todd Phillips.
Como se não bastasse, Lady Gaga vai fazer ainda parte da segunda temporada da série da Netflix, "Wednesday". A cantora já esteve a participar nas filmagens da série na Europa. Curiosamente, a canção de Lady Gaga de 2011, ‘Bloody Mary’, ganhou uma nova popularidade graças à cena de dança da atriz Jenna Ortega (a interpretar a personagem principal) na primeira temporada de "Wednesday", que se tornou viral em redes sociais como o TikTok.
Nick Cave e PJ Harvey continuam a ser desafiados a gravar canções para bandas sonoras. Ao lado do seu braço-direito Warren Ellis, Nick Cave compôs 'Song for Amy', para a banda sonora do biopic de que já falámos sobre Amy Winehouse, “Back to Black”. “And I’d give you anything for you to stay”, suplica Cave para Winehouse. PJ Harvey reativou a sua colaboração com o compositor Tim Phillips e voltou a colaborar para a série de Apple TV, “Bad Sisters”, para uma versão da famosa canção dos Joy Division, 'Love Will Tear Us Apart', para a segunda temporada da produção televisiva.
Não resisto a mencionar duas bandas sonoras muito especiais, para dois filmes também eles muito especiais. Num trabalho autoral a três, Yelli Yelli, Dino Spiluttini e Florent Charissoux souberam aplanar um autêntico sonho synth-pop para o filme de Patric Chiha, “A Fera na Selva”, uma viagem narrativa e notívaga de um casal de namorados entre o final dos anos 70 e os anos 90, na boémia parisiense. O compositor franco-tunisino Amine Bouhafa teve extrema sensibilidade musical na banda sonora que fez para um documentário de assunto delicado como “Quatro Filhas”, de Kaouther Ben Hania, o drama de uma mãe tunisina que perde duas das filhas para o movimento terrorista do ISIS. Duas atrizes interpretam as filhas desaparecidas, num trabalho real com as irmãs mais novas (as que ficaram) e com a mãe.
Fechamos este balanço com a revelação de um talento colossal que nos era desconhecido em Kate Bush. A reclusiva cantora escreveu e realizou a sua primeira curta-metagem de animação, ““Little Shrew”, sobre um musaranho (o mamífero mais pequeno do mundo, que tem a metade de um dedo de uma mão humana) envolto num ambiente de guerra. É um filme pacifista, motivado pela Guerra na Ucrânia. A banda sonora da curta é a música de Kate Bush de 2011, ‘Snowflake’.
Os nossos artigos online de balanço musical do ano inspiram o podcast Beataites, conduzido pelos jornalistas Gonçalo Palma e Sílvia Mendes. O balanço de hoje sobre música e cinema pode ser também ouvido no terceiro episódio do Beataites, da temporada de 2024.
