A música que ecoou no ecrã em 2023

Biopics e documentários sobre músicos, além de bandas sonoras.

Cinema e música entrelaçam-se como duas forças dependentes. A música é o que a alma sente no filme e que escapa às palavras, mas que eleva o universo sensorial da tal sétima arte. E por vezes, a música é o centro do próprio enredo do filme. É o que acontece em "Maestro", talvez o grande biopic sobre um músico deste ano, centrado na vida do carismático compositor norte-americano Leonard Bernstein (1918-1990). Com produção de dois gurus do cinema, Martin Scorsese e Steven Spielberg, e distribuição da Netflix, Bradley Cooper esfalfou-se e ficou com o rosto a pingar de suor a realizar o filme e a interpretar o carismático compositor, na condução de orquestras, nas aulas de música e na composição de partituras. Mas o cerne de um biopic é, já se sabe, a vida pessoal, e nesse plano a personagem ainda mais importante de "Maestro" é a sua mulher Felicia, que merece um papelão de Carey Mulligan. "Maestro" estreou-se nas nossas salas de cinema neste mês de dezembro. No dia 20, estará disponível na plataforma televisiva do Netflix.  

 

Sem base em factos verídicos, "Tár" é outro filme sobre um maestro... ou melhor sobre uma maestrina, a personagem imaginária de Lydia Tár, interpretada por uma superlativa Cate Blanchett. Sob a realização de Todd Field, "Tár" é um suspense tenso, pouco desembrulhado, com planos magníficos de Cate Blanchet a dirigir a sua orquestra e a irromper no fosso, quase que aparecendo em carne e osso na própria sala de cinema, tão bons são os planos, tão forte é a interpretação da atriz australiana. A facilidade com que se desfaz uma figura como uma maestrina de topo por causa de uma polémica nesta era histérica das redes sociais e da dominante cultura de cancelamento são alguns dos elementos deste filme tenso e de intriga que marcou o ano cinematográfico. Músicas de Mahler, Elgar ou Bach fazem-se ouvir, a par da composições originais para o filme da islandesa Hildur Guðnadóttir.


Rodados ao longo deste ano mas com data de estreia marcada para 2024 estão os filmes sobre as vidas de Bob Marley e de Amy Winehouse, respetivamente intitulados "Bob Marley: One Love" e "Back to Black", ambos com os avais das famílias dos músicos retratados. Cabe ao ator inglês Kingsley Ben-Adir o difícil papel de replicar a aura que Bob Marley tinha. O filme centra-se no período turbulento entre os anos de 1976 e 1978, quando foi alvo de uma tentativa de homicídio em Kingston e conseguiu organizar um concerto pela paz na Jamaica, quando era já um ícone planetário. Marisa Abela é a atriz escolhida para encarnar a controversa cantora inglesa Amy Winehouse, em "Back to Black", cuja estreia mundial está marcada para abril.

 

Sem data marcada de lançamento público, mas já encaminhado está o biopic sobre os lendários hard-rockers Kiss, "Shout It Out Loud", que se estreia na plataforma do Netflix em 2024. Joachim Rønning é o realizador deste filme focado nos primeiros quatro anos da banda norte-americana. Outro projeto de ficção audiovisual que começou a ganhar avanço este ano foi o filme sobre os Frankie Goes To Hollywood, "Relax", com o nome do êxito de intervenção pró-gay do grupo britânico que abriu os horizontes musicais e politico-sociais em 1984. Callum Scott Howells é o ator que vai interpretar o papel principal, do cantor central dos Frankie Goes To Hollywood, Holly Johnson. Em 2023, ficámos a saber ainda quais os atores que irão interpretar os papéis dos músicos Michael Jackson e Bob Dylan. Será Jaafar Jackson, filho de Jermaine Jackson (o irmão mais velho de Michael Jackson), a protagonizar "Michael" - o biopic sobre o Rei da Pop. Antoine Fuqua está sentado na cadeira do realizador. Mais atrasado e ainda só no papel está o filme sobre a vida de Bob Dylan, que tem no elenco Timothée Chalamet, com a missão de encarnar o cantor de harmónica montada junto aos beiços. James Mangold está indicado como o realizador deste biopic, de que pouco ainda se sabe. 

Não faltaram documentários sobre músicos nas nossas salas de cinema, As maiores estrelas da pop da atualidade, Beyoncé e Taylor Swift. não brilharam só nos palcos norte-americanos. Levaram esses palcos para os cinemas do país, nos filmes-concertos "Renaissance: A Film by Beyoncé" e "Taylor Swift: The Eras Tour". Com uma perspetiva mais histórica, o documentário "Have You Got It Yet? The Story of Syd Barrett and Pink Floyd", que também foi exibido em Portugal, segue o rasto intrigante do primeiro líder e vocalista dos Pink Floyd, Syd Barrett (1946-2006), que se apagou e desapareceu misteriosamente de cena, após um nefasto consumo de ácidos para a sua saúde mental.

 

Muitos dos documentários musicais que foram aterrando foram programados por festivais de cinema. Um dos mais bombásticos, "Little Richard: I Am Everything", foi exibido na edição de 2023 do IndieLisboa.  O filme realizado por Lisa Cortés indaga sobre a personalidade e sexualidade do "arquiteto do rock" Little Richard.  O DocLisboa agarrou o documentário "I Am Noise", onde Joan Baez fala na primeira pessoa sobre a sua carreira de 55 anos de folk, ativismo e uma paixão enorme por Bob Dylan. A plataforma da Netflix acrescentou este ano mais uns quantos documentários de música à sua programação, como o caso mais notório de "Wham!", sobre o percurso estratosférico da dupla pop de George Michael e Andrew Ridgeley, Wham!, nos anos 80. É uma história de sucesso mas também de uma velha e sólida amizade entre a estrela George Michael e o discreto Andrew Ridgeley. Também na Netflix, Robbie Williams está retratado numa série documental de quatro episódios, sobre as vulnerabilidades de lidar com a pressão diária do sucesso, ao ponto de ter arriscado um colapso nervoso.

 

Não faltaram maestros a dirigir orquestras nas salas de cinema. É o que acontece também com o documentário sobre o compositor de bandas sonoras de filmes, o italiano Ennio Morricone, "Ennio, O Maestro", em que se detalha com muita emoção a imponência do seu trabalho e os preconceitos e lutas que teve que enfrentar. Um dos momentos altos de "Ennio, O Maestro" é a irmandade entre ele o seu velho amigo Sergio Leone, o realizador do western spaghetti "Aconteceu no Oeste" e do filme de gangsters "Era uma Vez na América" para os quais Morricone compôs algumas das suas mais marcantes músicas. "Ennio, O Maestro" é realizado pelo compatriota Giuseppe Tornatore, um dos cineastas felizardos que pôde contar com o talento do compositor, na marcante música do filme de 1988, "Cinema Paraíso". "Ennio, O Maestro" conta com depoimentos de gente a cantora portuguesa Dulce Pontes, e de cineastas como Roland Joffé, Bernardo Bertolucci, Wong Kar-Wai ou Quentin Tarantino - e também admiradores seus como rockers como Bruce Springsteen, Mike Patton (dos Faith No More) ou James Hetfield dos Metallica ou o produtor musical Quincy Jones. "Ennio, O Maestro" foi dos documentários que mais tempo esteve em exibição nas nossas salas de cinema, sem estar reduzido às habituais sessões únicas.

 

2023 preparou bem o futuro para próximos documentários de música. Aquele que é um dos mais impactantes compositores de bandas sonoras de filmes de sempre, o nonagenário John Williams, vai tornar-se alvo de um documentário, que tem na produção o cineasta que há quase 50 anos recorre aos seus serviços, Steven Spielberg. O documentário ainda sem título vai ser um esforço conjunto entre as produtoras Amblin Television (criada por Steven Spielberg), Imagine Entertainment e Nedland Media, com um realizador já assegurado: Laurent Bouzereau, responsável pelo documentário sobre a atriz Natalie Wood, "Natalie Wood: What Remains Behind". São numerosas as músicas marcantes e imortalizadas de John Williams para o cinema, como a orquestração em tom de folclore de "Um Violino no Telhado" (de 1971), a monumentalidade épica de "Star Wars" (de 1977) e de "Superman" (de 1978), o encanto natalício de "Sozinho em Casa" (de 1991) ou a ambientação enigmática que determinou os filmes de Harry Potter (a partir de 2001). O documentário promete.

Saímos finalmente do fosso da orquestra e vamos para o estúdio de uns tais de... Rolling Stones. Está a ser trabalhado o documentário sobre a gravação do novo álbum dos Rolling Stones, "Hackney Diamonds", onde se capta o ambiente de gracejos entre os três membros dos Rolling Stones: Mick Jagger, Keith Richards e Ron Wood. O documentário, ainda sem título conhecido, abrange também a recente conferência de imprensa dos Rolling Stones de apresentação de "Hackney Diamonds" no Hackney Empire, em Londres, numa conversa que foi moderada pelo entertainer americano Jimmy Fallon e que foi transmitida em direto para todo o mundo, através do livestream do YouTube.
 
Houve várias bandas sonoras badaladas neste ano, como o evidente caso do filme e sucesso comercial "Barbie", que atraiu um naipe de estrelas da música, que lançaram canções inéditas propositadamente para a longa-metragem, como os casos de Billie Eilish, Dua Lipa, Lizzo, Charli XCX, Sam Smith, ou as Haim, entre outra gente de nomeada. Sem surpresa, a banda sonora está nomeada para o Grammy de Melhor Banda Sonora Compilada para os Media Visuais. 

 

Um dos acontecimentos a nível de bandas sonoras aconteceu com a série da Netflix, "Outlander", em que é recuperada uma gravação vocal da falecida Sinéad O'Connor, a cantar 'The Skye Boat Song' - uma canção tradicional escocesa, para o genérico de abertura da sétima temporada da obra televisiva.

 

Fechamos este artigo sobre a música que balouçou com o ecrã neste ano com uma curiosidade: pela primeira vez, uma canção da indústria cinematográfica de Bollywood foi premiada com um Globo de Ouro e um Óscar. Aconteceu com 'Naatu Naatu', da dupla M. M. Keeravani & Chandrabose, para o filme indiano "RRR".

 

Ao longo do mês, estamos a publicar os vários balanços musicais do ano. Podem ouvir o podcast Beataites, sobre estes balanços neste link, uma conversa animada entre os jornalistas Gonçalo Palma e Sílvia Mendes. Em baixo, podem ler os balanços escritos já publicados.