Bombeiros alertam para risco de mortes por falta de ambulâncias no Algarve
As ambulâncias dos bombeiros ficam horas retidas nas unidades hospitalares, por insuficiência de macas nas urgências dos hospitais de Faro e Portimão. A denúncia é feita pela Federação dos Bombeiros do Algarve e pela Comunidade Intermunicipal do Algarve (AMAL).
A Federação de Bombeiros do Algarve denuncia o agravamento das retenções de ambulâncias nos hospitais de Faro e Portimão, uma situação que está a deixar meios de emergência indisponíveis durante várias horas e que pode colocar vidas em risco. O alerta surge numa altura em que a região se prepara para receber um aumento significativo de população durante o verão, pressionando ainda mais um sistema já sobrecarregado. Segundo Steven Sousa Piedade, presidente da Federação de Bombeiros do Algarve, o problema não é novo, mas tem vindo a intensificar-se.
"Isto não é uma situação de hoje. É uma situação recorrente. O que tem acontecido é que cada vez há mais retenções e os períodos são cada vez maiores."
Na origem do problema está a falta de macas disponíveis nas unidades hospitalares. Quando os bombeiros transportam um doente para a urgência e não existe uma maca livre, o doente permanece na maca da ambulância, impedindo que o veículo e a respetiva equipa regressem ao serviço.
Durante o mês de julho, uma ambulância dos Bombeiros de Faro esteve retida durante oito horas no Hospital de Faro, com dois operacionais impossibilitados de responder a outras ocorrências.
"Estamos a falar de uma viatura e dois bombeiros retidos no ULS de Faro durante oito horas."
Doentes à espera de socorro
As consequências fazem-se sentir no terreno. Steven Sousa Piedade relata o caso de um homem que caiu de um escadote enquanto realizava pequenas obras em casa e que aguardou duas horas e meia por assistência.
"O doente teve duas horas e meia na via pública à espera que o meio de socorro chegasse para o socorrer."
O responsável explica que, quando as ambulâncias ficam retidas nos hospitais, o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) é obrigado a mobilizar meios de concelhos mais distantes, aumentando significativamente os tempos de resposta.
A situação atingiu níveis particularmente preocupantes este ano, com registos de sete e oito ambulâncias retidas em simultâneo no Hospital de Faro.
"Nós já tivemos este ano dias em que tivemos sete e oito ambulâncias retidas em Faro."
Um problema que começa dentro dos hospitais
A Federação identifica como principal causa a dificuldade em libertar camas hospitalares. Muitos doentes que já receberam alta permanecem nas urgências porque as famílias não os vão buscar ou porque não existem vagas suficientes na rede de cuidados continuados.
"O doente fica no hospital. Ao ficar no hospital, ocupou uma maca que serviria para outra pessoa. Isto é uma bola de neve."
Para o dirigente, o problema exige soluções imediatas e estruturais. A curto prazo, defende a aquisição de mais macas para os hospitais algarvios.
"O Ministério da Saúde tem que tomar uma atitude. Se calhar inicialmente adquirir mais macas para que haja uma pequena solução."
Já a médio e longo prazo, considera essencial reforçar a capacidade das unidades de cuidados continuados para acolher doentes que já não necessitam de permanecer nas urgências.
Sem respostas da tutela
Steven Sousa Piedade garante que os alertas têm sido repetidamente transmitidos ao Governo, à Administração Regional e aos autarcas algarvios, mas sem resultados concretos.
"Nós, Federação de Bombeiros do Algarve, nunca obtivemos resposta."
O responsável recorda que chegou a ser proposta uma solução conjunta envolvendo os municípios algarvios, que passaria pela compra de macas para os hospitais da região. No entanto, o processo ficou bloqueado à espera de informações técnicas por parte da administração hospitalar.
"Estamos à espera há um ano e meio, dois anos, da resposta sobre as características das macas para as podermos comprar."
Verão e incêndios agravam preocupação
Com a chegada de agosto e o aumento da pressão turística, os bombeiros receiam um cenário ainda mais difícil. Além da elevada procura dos serviços de saúde, existe a possibilidade de coincidirem ocorrências médicas com incêndios rurais, obrigando os mesmos operacionais a responder a diferentes emergências.
"Vamos supor que estamos num dia caótico nos hospitais e há ativação de um fogo. Como é que se faz? Os bombeiros são todos os mesmos."
Para Steven Sousa Piedade, o risco já ultrapassou o plano da gestão operacional e transformou-se numa questão de segurança pública.
"Qualquer dia uma pessoa na via pública pode vir a falecer por falta de meios que estão retidos nos hospitais."
O presidente da Federação de Bombeiros do Algarve conclui que a situação exige uma resposta urgente das autoridades.
"Quando temos vidas em risco, não se pode correr atrás do prejuízo. Temos que fazer prevenção."
