Cai Guo-Qiang lança uma página em branco sobre o Porto: "Há coisas humanas que não podemos perder"

Artista chinês transforma o céu da cidade numa metáfora para a literatura num tempo marcado pela incerteza, pela inteligência artificial e pela erosão dos valores comuns.

O céu do Porto recebeu uma página em branco. Não uma folha qualquer, mas uma obra de arte suspensa entre o mar, a literatura e o futuro. Foi essa a imagem escolhida por Cai Guo-Qiang para o espetáculo criado para o festival BABELL, um gesto poético que o artista descreve como uma forma de preservar aquilo que a humanidade corre o risco de esquecer.

Durante a conferência de imprensa que se seguiu à apresentação, o criador chinês revelou que a inspiração nasceu de duas fontes muito concretas: a cidade do Porto e o próprio festival literário.

“Depois de pensar muito, acabei por chegar à imagem mais icónica de todas: uma página em branco”, explicou. Uma página ainda por escrever, aberta a todas as possibilidades, mas também carregada de inquietações sobre o presente.

A ligação ao Porto surgiu de forma quase emocional. As cores da cidade (o azul e o branco) e a relação com o mar fizeram-no recordar Quanzhou, a sua cidade natal na China, também ela uma cidade portuária. “Senti-me eternamente grato ao Porto e ao festival BABELL”, confessou.

A arte que desaparece para falar da eternidade

Conhecido internacionalmente pelas suas obras com pólvora e pelos espetáculos de fogo-de-artifício que transformam paisagens em acontecimentos efémeros, Cai Guo-Qiang foi confrontado com uma questão central da sua obra: como criar arte destinada a desaparecer num mundo obcecado por guardar tudo?

A resposta foi quase filosófica. “O meu trabalho procura captar a eternidade através do transitório”, afirmou.

Para o artista, existe uma diferença fundamental entre aquilo que é eterno e aquilo que dura para sempre. “O eterno está fora do tempo. O ‘para sempre’ continua dentro do tempo”, explicou, defendendo que a impermanência não representa fragilidade, mas sim uma forma de infinito.

É essa tensão entre o instante e a permanência que atravessa grande parte da sua obra. A pólvora, material que explode e desaparece, torna-se assim um instrumento para refletir sobre aquilo que permanece para lá do visível.

“Perdemos alguma coisa e estamos a lutar para a preservar”

Foi, porém, quando falou sobre o mundo contemporâneo que o artista deixou uma das reflexões mais marcantes da sessão.

Questionado sobre o significado da página em branco e sobre aquilo que a sociedade atual poderá estar a esquecer de escrever, Cai Guo-Qiang respondeu que o seu trabalho nasce precisamente da sensação de perda que atravessa o nosso tempo.

“Sentimos que perdemos alguma coisa e estamos a lutar para a preservar”, afirmou.

A página suspensa no céu do Porto é, segundo explicou, uma manifestação desse desejo coletivo de conservar algo essencial, ainda que difícil de nomear.

Inteligência artificial, crise de valores e literatura

Na sua análise do presente, o artista apontou três fatores que alimentam a crescente sensação de incerteza: o enfraquecimento da globalização, as tensões políticas e o avanço acelerado das novas tecnologias.

“A inteligência artificial está a fazer-nos questionar os nossos princípios e os nossos valores”, alertou.

Perante esse cenário, defendeu que a literatura e os encontros culturais assumem um papel ainda mais relevante. “Quando os nossos valores estão a ser abalados, devemos continuar a realizar festivais como o BABELL para preservar aquilo que é precioso.”

A literatura surge, assim, não apenas como expressão artística, mas como espaço de resistência cultural e humana num mundo em rápida transformação.

O menino que continua a olhar para o céu

Apesar da dimensão internacional da sua carreira, houve um momento particularmente íntimo na conversa. Ao olhar para a obra apresentada no Porto, Cai Guo-Qiang disse ter sentido que continua a ser o mesmo rapaz que sonhava diante do céu.

“Olhei para o papagaio no céu e percebi que ainda sou aquele menino que nunca cresceu.”

Talvez seja essa a chave para compreender o seu trabalho: a capacidade de manter o espanto, mesmo quando se fala de temas tão vastos como a memória, o tempo ou o futuro da humanidade.

Uma relação antiga com os livros

A presença num festival literário também não foi um acaso. Cai recordou que cresceu rodeado de livros porque o pai geria uma livraria na China.

“Passei a infância sentado atrás do balcão da livraria a ler”, contou.

Uma memória que ajuda a explicar a naturalidade com que a literatura se tornou parte integrante desta obra criada para o Porto.

“Quero voltar”

Esta foi a primeira grande intervenção artística de Cai Guo-Qiang em Portugal, mas dificilmente será a última.

O artista confessou sentir uma proximidade inesperada com o país. E não escondeu o entusiasmo pelas experiências vividas durante a sua estadia.

“Gosto da comida, gosto das pessoas e sinto-me naturalmente próximo deste lugar”, afirmou, revelando o desejo de regressar para desenvolver novos projetos e colaborar com criadores portugueses.

Depois de deixar uma página em branco a flutuar sobre o Porto, Cai Guo-Qiang parte com uma certeza: ainda há histórias por escrever.