Margaret Atwood alerta para os riscos da IA e para a erosão dos direitos das mulheres
No BABELL, no Porto, a autora de A História de uma Serva refletiu sobre feminismo, inteligência artificial e o atual clima político norte-americano e afirma que "o que está a acontecer nos Estados Unidos é um caminho para a ditadura"
Aos 86 anos, Margaret Atwood continua a ser uma das vozes mais influentes da literatura contemporânea e uma observadora atenta das transformações sociais e políticas. Na sua passagem pelo festival BABELL, no Porto, a escritora canadiana abordou temas que atravessam grande parte da sua obra: o feminismo, a liberdade de expressão e o poder mas também se deteve sobre um fenómeno mais recente: a inteligência artificial.
A autora de A História de uma Serva rejeita visões simplistas do feminismo e insiste numa perspetiva assente nos direitos humanos. Questionada sobre a sua relação com o movimento feminista, respondeu com ironia: “Quando me perguntam se sou feminista, tenho de perguntar: ‘Que tipo de feminista?’”.
Atwood recordou que existem dezenas de correntes feministas diferentes e recusou associar-se a posições extremas. “Os direitos das mulheres são um subconjunto dos direitos humanos. E os direitos humanos, segredo enorme, incluem os homens”, afirmou, arrancando aplausos da plateia.
A escritora recordou ainda a receção que encontrou quando publicou A Mulher Comestível, em 1969. Muitos críticos homens reagiram com hostilidade ao livro, enquanto algumas entrevistas se centravam menos na obra do que na sua condição de mulher. Um jornalista perguntou-lhe se os homens gostavam dela; outro quis saber como geria as tarefas domésticas. Episódios que, vistos à distância, revelam o ambiente cultural da época e ajudam a explicar porque os seus romances passaram a ser lidos como textos pioneiros da literatura feminista.
Mas Atwood faz questão de sublinhar que as mulheres não são moralmente superiores aos homens. Referindo-se ao romance Olho de Gato, que aborda o bullying entre raparigas, observou que as relações de poder e crueldade existem em todos os grupos humanos. “As raparigas experimentam o poder de uma forma diferente, mas trata-se sempre de uma questão humana”, explicou.
Inteligência artificial: “Se houver uma forma fácil de fazer batota, muita gente vai fazê-lo”
A inteligência artificial foi outro dos temas centrais da conversa. Atwood contou uma experiência recente com Claude, um dos sistemas de IA generativa mais conhecidos.
A escritora tentou descobrir quem era o assassino num episódio da série britânica Father Brown. A resposta dada pela IA estava errada.
“Ele mentiu”, contou, entre risos. “Mas não penso que soubesse que estava a mentir.”
A autora explicou que os modelos de linguagem são treinados a partir de enormes quantidades de texto disponíveis online e que, por isso, podem reproduzir erros ou interpretações incompletas. No caso concreto, a IA tinha lido críticas à série, mas essas críticas evitavam revelar o final do episódio.
Apesar do tom bem-humorado da história, Atwood manifestou preocupação com o impacto da tecnologia na educação e na produção de conhecimento.
“Os seres humanos não são robôs, mas são oportunistas. Se houver uma forma fácil de fazer batota e for difícil detetá-la, muita gente vai fazê-lo”, afirmou.
A escritora reconheceu que já existem sistemas destinados a detetar conteúdos produzidos por inteligência artificial, mas alertou que esses mecanismos também podem falhar. “São igualmente inteligências artificiais”, observou.
Para Atwood, a principal fragilidade destes sistemas continua a ser a qualidade da informação que recebem. “Garbage in, garbage out”, resumiu, recorrendo à conhecida expressão da informática que significa que resultados errados são inevitáveis quando os dados de origem são deficientes.
Estados Unidos: “Estão a tentar sufocar a dissidência política”
Se a inteligência artificial levanta dúvidas sobre o futuro, a situação política dos Estados Unidos provoca preocupações ainda mais profundas.
Ao longo da conversa, Atwood voltou várias vezes ao universo de A História de uma Serva, romance publicado em 1985 que descreve uma sociedade autoritária onde as mulheres perdem direitos fundamentais. Questionada sobre as semelhanças entre a ficção e o presente, a autora referiu que recebe regularmente mensagens de leitoras de países onde essas restrições são uma realidade.
“A História de uma Serva não é ficção. Nós estamos a vivê-la”, relatam-lhe frequentemente mulheres de países como o Irão.
Quando o tema passou para os Estados Unidos, Atwood mostrou-se particularmente crítica. Na sua opinião, existe atualmente uma tentativa de limitar a liberdade de expressão e de enfraquecer a dissidência política.
“O que está a acontecer nos Estados Unidos neste momento é uma tentativa de sufocar a dissidência política, e isso é um caminho para a ditadura, como todos sabemos”, afirmou.
A escritora destacou ainda a crescente influência de bilionários próximos de Donald Trump em meios de comunicação tradicionais, embora tenha sublinhado que existe também um movimento contrário, com o aparecimento de novas plataformas independentes.
Apesar das preocupações, Atwood não se mostrou totalmente pessimista. Considera que a resistência democrática continua viva e que a sociedade norte-americana ainda não aceitou passivamente essas tendências.
Ao mesmo tempo, lembrou que a censura assume formas diferentes consoante os contextos históricos e políticos. “A censura é uma história muito antiga”, disse. “Muda de lugar para lugar e de época para época.”
Continuar a escrever
No final da sessão, Atwood leu um excerto das suas memórias em que reflete sobre a passagem do tempo. “A arte é longa. A vida é breve”, escreveu.
Mesmo perante as ameaças que identifica (da erosão dos direitos das mulheres à desinformação alimentada pela inteligência artificial) a autora mantém a confiança no papel da literatura.
“Continuo a escrever”, disse.
Uma declaração simples, mas que resume décadas de intervenção literária e política de uma escritora que continua a acreditar que as histórias podem ajudar a compreender e talvez a transformar, o mundo.
Milhares de pessoas assistiram à sessão literária de Margaret AtwoodAna Bernardino
