"Muitas fronteiras são escolhas arbitrárias": Gil Mendes da Costa desafia o mapa que conhecemos

E se o mapa que conhecemos estivesse errado? E se alguns dos países que hoje fazem parte do nosso imaginário nunca tivessem existido ou se outros, entretanto esquecidos, tivessem sobrevivido? Em "Os Países que Quase Existiram", Gil Mendes da Costa mergulha em fronteiras improváveis e em bandeiras que nunca saíram do papel.

Depois de quase uma década a partilhar curiosidades sobre História, Geografia, fronteiras e bandeiras no YouTube, Gil Mendes da Costa reuniu algumas das histórias mais fascinantes que descobriu ao longo dos anos em Os Países que Quase Existiram, um livro que desafia a forma como olhamos para o mapa-mundo e para as fronteiras que hoje tomamos como garantidas.

A passagem do digital para o papel nasceu de uma preocupação com a permanência do conhecimento. Para o autor, as plataformas online são importantes para divulgar conteúdos, mas estão sujeitas à volatilidade dos tempos. "Tenho cada vez mais a ideia de que de um dia para o outro esse conteúdo pode desaparecer, a plataforma pode deixar de ser popular ou deixar de existir. Os livros são talvez o meio que dura para sempre", afirma.

A obra reúne mais de uma centena de curiosidades que exploram países efémeros, fronteiras improváveis, disputas territoriais e símbolos nacionais que poderiam ter sido muito diferentes. O título surge precisamente da ideia de que a realidade geográfica que conhecemos hoje poderia ter seguido caminhos alternativos.

"Há países que efetivamente existiram, mas durante muito pouco tempo, e há outros que tentaram existir de forma supertemporária e falharam na sua missão de se estabelecerem", explica. "É interessante pensar que a nossa perceção do mundo podia ser tão diferente se alguns destes países tivessem tido sucesso."

Entre todos os temas abordados, as bandeiras ocupam um lugar especial. Não por acaso, constituem o primeiro e mais extenso capítulo do livro.

"Eu olho muito para os países fazendo associação com a sua bandeira", confessa. "A perceção que temos de certos países ou de certos povos está muito associada às bandeiras e foi uma escolha completamente arbitrária que podia ter sido muito diferente."

Uma das descobertas que mais o fascinou durante a investigação foi precisamente o conjunto de bandeiras propostas para vários países que nunca chegaram a ser adotadas. A ideia de uma Espanha representada por cores completamente distintas das atuais é apenas um dos exemplos que o autor apresenta.

Mas há também histórias que desafiam a lógica das fronteiras. Uma das que mais o surpreendeu foi a de Baarle-Hertog, uma localidade dividida entre Bélgica e Holanda.

"Há ilhas belgas dentro de um bairro holandês e vice-versa", descreve. "Foram divididas casas onde vivem pessoas holandesas e pessoas belgas. Acho isso muito interessante."

As mais de cem curiosidades reunidas no livro resultam de um trabalho de seleção entre os conteúdos que Gil Mendes da Costa tem vindo a publicar semanalmente há quase dez anos.

"Já vão fazer quase dez anos em que coloco um vídeo todas as semanas", recorda. "Fiz alguma seleção daquelas que achei mais interessantes entre os vários tópicos e procurei juntar um grupo interessante para cada um desses temas."

O humor e a simplicidade continuam a ser ingredientes essenciais na forma como comunica História e Geografia. Uma opção que, acredita, facilita a aprendizagem.

"A capacidade de partilhar conhecimento de uma forma aberta, simples e às vezes com algum humor ajuda a aprender e desperta mais o interesse das pessoas", defende.

Ao longo das páginas, o leitor é constantemente levado a questionar até que ponto as fronteiras atuais são inevitáveis ou naturais. A conclusão a que o autor chegou durante a investigação é clara: muitas delas resultam de decisões arbitrárias.

"Percebemos que muitas das fronteiras são escolhas muito arbitrárias", afirma. "Há exemplos, sobretudo em África, em que olhamos para o mapa e vemos linhas retas que não têm em conta as fronteiras naturais dos povos nem do terreno."

Portugal não escapa a esta reflexão. Gil Mendes da Costa aponta a Galiza como um dos exemplos de proximidade cultural e linguística que poderia ter conduzido a uma realidade diferente. E recorda também o caso de Olivença.

"Efetivamente, nos documentos legais pertence a Portugal e é um exemplo interessante dessas disputas", sublinha.

Se pudesse viajar para um dos cenários descritos no livro, o autor escolheria a América do Norte no período da independência dos Estados Unidos. Um tempo marcado por transformações territoriais profundas.

"A compra do território da Louisiana pelos Estados Unidos à França é um momento em que quase duplica o território do país de um dia para o outro. Acho que é superinteressante", refere.

No final, Gil Mendes da Costa reconhece que nem sempre imaginou que a História e a Geografia viriam a ocupar um lugar tão importante na sua vida. Em criança sonhava ser cozinheiro. O fascínio pelos mapas e pelos acontecimentos do passado foi crescendo com o tempo e teve uma ajuda decisiva dos professores.

"Eu consigo lembrar-me de todos os professores de História", conta. "Foram professores muito bons que conseguiram transmitir conhecimentos de uma forma superinteressante e superacessível."

Com Os Países que Quase Existiram, Gil Mendes da Costa convida os leitores a olhar para o mundo com outros olhos e a descobrir que aquilo que hoje parece definitivo poderia, afinal, ter sido muito diferente.