"A democracia está incapaz de se purificar"

Nesta conversa, durante o festival BABBEL, a escritora Lídia Jorge traça um retrato crítico da sociedade e defende a memória como condição essencial para a democracia.

Há mais de quatro décadas que Lídia Jorge escreve sobre o tempo, as pessoas e as mudanças que atravessam a sociedade. Ainda assim, a autora garante que continua a encontrar na realidade motivos para se surpreender. Ou melhor, é precisamente a literatura que nasce dessa surpresa constante.

“A mudança do tempo, a forma como os povos reagem à mudança, aquilo que esperamos que aconteça e depois não acontece”, explicou. Para a escritora, a história humana vive de um movimento permanente entre desilusão e esperança. Quando uma expectativa falha, surge outra. E é nesse ciclo que reside a matéria da literatura.

Ao longo da conversa, Lídia Jorge voltou a defender a singularidade da ficção como instrumento de compreensão do ser humano. Enquanto outras disciplinas descrevem o mundo tal como ele é, a literatura tem a capacidade de mostrar simultaneamente o mundo real e o mundo desejado.

“A literatura junta a descrição histórica do tempo que passa àquilo que desejávamos que a humanidade fosse”, afirmou. Por isso, considera que os livros registam não apenas uma época, mas revelam também os sonhos e as aspirações das pessoas que a viveram.

A memória, um dos temas centrais da sua obra, surgiu inevitavelmente na conversa. Para a autora, uma sociedade que abandona a memória perde também a capacidade de construir o futuro. Citando um antigo ensinamento, recordou que “o futuro está cheio de passado” e defendeu que cada geração deve inovar sem apagar aquilo que recebeu das anteriores.

“Não há hipótese de recomeçar sempre do princípio”, afirmou. A alternativa, alertou, seria repetir eternamente os mesmos erros da humanidade.

Essa preocupação estende-se ao momento político atual. Há vários anos que Lídia Jorge tem chamado a atenção para o crescimento dos discursos extremistas e para a simplificação do debate público. Questionada sobre o estado da democracia, respondeu sem hesitações: o problema não está na democracia em si, mas na sua incapacidade de se regenerar.

“A democracia está incapaz de se purificar”, disse. Para a escritora, o desgaste das instituições e a falta de exemplos éticos abriram espaço para o crescimento dos populismos e da extrema-direita. Em vez de procurar sistemas alternativos, defende que o desafio passa por restaurar a credibilidade democrática e reforçar o compromisso com os cidadãos.

O tema da velhice ocupou também um lugar especial na conversa, inevitavelmente ligado ao romance Misericórdia, obra nascida da experiência pessoal de acompanhar a fase final da vida da mãe.

Longe de encarar o envelhecimento como uma perda, Lídia Jorge descreveu-o como uma intensificação da existência. “Quando se aproxima do fim, o ser humano volta a ser adolescente”, observou. Segundo a autora, permanecem os desejos, os sonhos e a curiosidade, concentrados num tempo que se percebe cada vez mais limitado.

Foi precisamente essa reflexão que a levou a uma das afirmações mais marcantes da entrevista. Ao falar da finitude, recusou uma visão exclusivamente trágica da morte.

“A morte é um momento de vida”, afirmou.

Uma frase que resume a perspetiva humanista que atravessa toda a sua obra: a consciência da fragilidade humana não diminui a existência; pelo contrário, confere-lhe significado.

No final da conversa, a escritora reservou palavras de entusiasmo para o Festival Babell, que se distingue por trocar livros por entradas. Considera que a iniciativa demonstra a vitalidade da leitura e a permanência do livro físico numa era cada vez mais digital.

Recordando um texto que escreveu sobre o futuro do livro, deixou uma mensagem: “Senhores silvicultores, plantem muitas árvores porque os livros serão de papel.”

E perante o sucesso do festival, acrescentou uma certeza: "os livros que mais amamos continuarão a ser feitos de papel".

Num tempo marcado pela velocidade, pela polarização e pela amnésia coletiva, Lídia Jorge voltou a lembrar que a literatura continua a ser um dos lugares onde a humanidade se pensa, se interroga e se reencontra.