"Já a vi de perto. Prefiro não morrer": Salman Rushdie emociona e faz rir três mil pessoas no Porto

Recebido por uma longa ovação de mais de três mil pessoas no Coliseu do Porto, Salman Rushdie a revisitou a infância, os livros e o atentado de que foi vítima em 2022.

O aplauso começou antes de Salman Rushdie entrar em palco e prolongou-se muito depois de se sentar ao lado de Alberto Manguel. No Coliseu do Porto, completamente lotado, mais de três mil pessoas receberam efusivamente um dos escritores mais influentes do nosso tempo. 

A sessão integrou a programação do festival BABELL e transformou-se rapidamente numa conversa íntima, inteligente e surpreendentemente divertida. Rushdie, de 79 anos, mostrou-se descontraído, irónico e disposto a rir de si próprio, arrancando gargalhadas constantes da plateia.

Manguel abriu a conversa evocando O Feiticeiro de Oz, uma das grandes influências literárias da infância de Rushdie. O escritor recordou o primeiro conto que escreveu aos dez anos, inspirado pela canção “Over the Rainbow”, e contou que o manuscrito acabou perdido pelo próprio pai. “Provavelmente foi melhor assim”, brincou.

Ao longo de da sessão, Rushdie foi construindo um retrato da sua infância em Bombaim, cidade que continua a recusar chamar Mumbai. Cresceu, contou, numa Índia mais aberta e tolerante do que a atual, numa família muçulmana de classe média alta, rodeado pelas histórias das Mil e Uma Noites, pelos clássicos ocidentais e pelo fascínio omnipresente do cinema.

Foi precisamente a propósito do cinema indiano dos anos 1950 que surgiu um dos momentos mais divertidos da noite. Rushdie recordou que os beijos eram proibidos nos filmes e revelou que inventou, em Os Filhos da Meia-Noite, o chamado “beijo indireto” em que um ator beijava uma manga, e dáva a manga a beijar à amada". “Eles tinham o beijo através da manga”, resumiu, provocando risos na sala.

Segundo o escritor, a ideia acabou por ser adotada pelo próprio cinema indiano. “Algo que começou como ficção tornou-se real. Isso mostra que a ficção é mais verdadeira do que a realidade.”

A imaginação como território

Um dos temas centrais da conversa foi a transformação literária, cultural e humana. Rushdie falou dos migrantes como pessoas em permanente metamorfose e explicou a sua fascinação por autores como Ovídio e Kafka.

“Quando se atravessa uma fronteira, transforma-se qualquer coisa em nós”, observou.

A certa altura, Manguel sugeriu que o escritor tem uma tendência natural para ultrapassar limites e fronteiras. Rushdie respondeu sem hesitar: “Se alguém desenha uma linha na areia e diz ‘não passes daqui’, o meu instinto é atravessá-la imediatamente.”

A frase resume não apenas uma visão literária, mas toda uma vida marcada pelo confronto com a censura, os dogmas e as tentativas de o silenciarem.

Shakespeare, escritores e detetores de disparates

O humor foi uma constante. Quando Manguel perguntou se alguma vez sente, ao escrever, aquilo que Shakespeare talvez tenha sentido ao terminar uma obra-prima, Rushdie respondeu prontamente: “Todos os dias." A sala explodiu em gargalhadas.

Logo depois, explicou que os escritores sabem quando um texto funciona e quando falha. Citando Ernest Hemingway, recordou a importância de possuir um “bom detetor de disparates”.

“Se não sabe quando está mau, também não sabe quando está bom.”

Falou ainda do processo de escrita, descrevendo-o como “a coisa mais difícil” que sabe fazer, mas também a mais recompensadora. E revelou uma das lições que aprendeu ao longo da carreira: quando uma história bloqueia, o erro raramente está no ponto onde a escrita parou.

“Há sempre uma decisão errada algures antes. Às vezes uma página antes. Às vezes cinquenta.”

O homem que tentou matá-lo

O momento mais intenso da noite chegou quando a conversa se centrou em A Faca, o livro em que Rushdie revisita o atentado de que foi vítima em agosto de 2022, durante uma conferência nos Estados Unidos.

Manguel destacou o capítulo em que o escritor imagina uma conversa com o seu agressor. Rushdie explicou que chegou a ponderar encontrá-lo na prisão, mas percebeu que jamais obteria respostas sinceras.

“Pensei: sou romancista. Porque não inventá-lo?”

A partir daí decidiu construir literariamente a voz do atacante e tentar compreender aquilo que continua a parecer incompreensível.

“Como é que um jovem de 24 anos, sem antecedentes criminais e que nunca leu nada do que escrevi, decide matar um desconhecido?”

A resposta não surgiu como explicação definitiva, mas como exercício de imaginação, a ferramenta que, para Rushdie, continua a ser a melhor forma de compreender o mundo.

“Prefiro não”

A conversa terminou regressando ao universo de O Feiticeiro de Oz. Rushdie voltou a defender a ideia de que os mundos imaginários são tão reais quanto os físicos e afirmou que, para os escritores, muitas vezes é a imaginação que acaba por se tornar o verdadeiro lar.

Foi então que Alberto Manguel lhe colocou a pergunta inevitável:

“Tem medo da morte?”

Rushdie sorriu.

“Já a vi de perto. Não é nada de especial.”

Fez uma pausa e concluiu com uma das frases mais memoráveis da noite, evocando Bartleby, a personagem de Herman Melville:

“Quanto à morte, a minha posição é simples: prefiro não.”

O Coliseu voltou a erguer-se numa longa ovação. E Salman Rushdie de copo de vinho do Porto na mão terminou a noite a dar vivas à cidade.