Quase oito em cada dez idosos não conseguem pagar um lar apenas com a reforma
Estudo da DECO PROteste revela que famílias suportam diferenças superiores a 440 euros por mês e esperam, em média, cinco meses por uma vaga.
Envelhecer com dignidade continua a ser um desafio para milhares de portugueses. Um estudo da DECO PROteste, divulgado por ocasião do Dia dos Avós, revela que 79% dos idosos não conseguem suportar o custo de um lar apenas com a sua pensão, obrigando muitas famílias a recorrer às poupanças acumuladas ao longo da vida ou ao apoio financeiro de filhos e outros familiares.
Os dados resultam de um inquérito realizado junto de 694 familiares de utentes de estruturas residenciais para pessoas idosas (ERPI) e traçam um retrato preocupante da resposta social em Portugal.
Em entrevista, o porta-voz da DECO PROteste, Nuno Figueiredo, sublinha a dimensão do problema. "Setenta e nove por cento dos idosos não conseguem pagar um lar apenas com a sua reforma. É um dado muito preocupante porque representa uma esmagadora maioria dos casos."
Segundo o estudo, o custo médio mensal de um lar, incluindo mensalidade e despesas adicionais, ascende a 1.343 euros, cerca de 462 euros acima do rendimento médio dos utentes.
"Entre a mensalidade, os custos extra e outras despesas, cada pessoa gasta, em média, mais de 1.300 euros. É um valor muito elevado para aquilo que as pessoas conseguem pagar", explica Nuno Figueiredo.
Famílias recorrem às poupanças, mas nem sempre chega
Para muitas famílias, a diferença entre a pensão do idoso e o custo da instituição torna-se incomportável.
"A diferença média entre aquilo que os idosos recebem e aquilo que têm de pagar ultrapassa os 440 euros por mês. Tendo em conta que a permanência média num lar ronda os quatro a cinco anos, muitas poupanças simplesmente não chegam até ao fim", alerta.
Segundo o responsável, esta realidade evidencia fragilidades estruturais na resposta aos mais velhos.
"Há muitas lacunas e uma enorme necessidade de reforçar o apoio à população idosa. Ninguém merece chegar ao fim da vida nestas circunstâncias."
Lisboa e Norte concentram os custos mais elevados
O estudo conclui que a Área Metropolitana de Lisboa e a região Norte apresentam os custos mais elevados para acesso a um lar.
De acordo com Nuno Figueiredo, o problema resulta da conjugação entre o aumento generalizado do custo de vida e a estagnação das pensões.
"Os preços continuam a subir, mas os rendimentos e as pensões não acompanham essa evolução. É isso que explica grande parte destes desequilíbrios."
Falta de vagas prolonga espera
As dificuldades não se resumem aos custos. O acesso continua a ser um dos principais obstáculos.
O estudo indica que 44% das famílias tiveram dificuldades em encontrar uma vaga e que o tempo médio de espera ronda os 157 dias, ou seja, cerca de cinco meses.
"Estamos perante um problema de falta de oferta e também de distribuição desigual das respostas", afirma.
Segundo o responsável da DECO PROteste, a escassez de lugares é particularmente evidente nas grandes cidades, onde a procura supera largamente a capacidade instalada.
"Cinco meses é muito tempo quando estamos a falar de pessoas que já precisam de cuidados permanentes. Durante esse período muita coisa pode acontecer."
Um terço das famílias abdica da primeira escolha
A dificuldade em encontrar vagas leva muitas famílias a aceitarem instituições que não eram a sua preferência inicial.
"Cerca de um terço acaba por escolher um lar que não era a primeira opção, muitas vezes longe da residência da família."
Essa situação tem consequências diretas na qualidade de vida dos residentes.
"A distância geográfica aumenta o isolamento dos idosos, porque nem sempre os familiares conseguem visitá-los com a frequência desejada."
Entrada cada vez mais tardia
Outro dos dados revelados pelo estudo mostra que os idosos entram, em média, para um lar aos 84 anos, já com elevados níveis de dependência.
Segundo Nuno Figueiredo, há duas razões principais para este adiamento.
"Por um lado, muitos idosos resistem naturalmente à mudança. Por outro, há famílias que simplesmente não têm condições financeiras para recorrer mais cedo a uma estrutura residencial."
O resultado é que muitos utentes apenas chegam ao lar quando necessitam de cuidados intensivos.
"As pessoas acabam por entrar demasiado tarde, numa fase em que já perderam grande parte da autonomia."
Embora os cuidados médicos e de enfermagem estejam geralmente assegurados, outros serviços fundamentais continuam a implicar encargos adicionais.
"Apoio psicológico, fisioterapia, nutrição, lavandaria ou atividades físicas acabam frequentemente por representar custos extra, quando deveriam fazer parte do mínimo necessário para garantir qualidade de vida."
Satisfação moderada, mas longe do ideal
O estudo atribui uma classificação global de 72 pontos em 100 à satisfação das famílias relativamente aos lares.
No entanto, a avaliação da qualidade e competência dos profissionais baixa para 69 pontos.
"Estes resultados mostram que ainda estamos muito longe de proporcionar um fim de vida verdadeiramente digno aos nossos idosos."
Entre as principais críticas surgem a escassez de apoio psicológico, o reduzido número de funcionários durante a noite e problemas de comunicação com as famílias.
Reforçar apoio domiciliário e aplicar Estatuto da Pessoa Idosa
Perante este cenário, a DECO PROteste defende uma resposta mais ampla por parte do Estado.
Para Nuno Figueiredo, o reforço do apoio domiciliário poderá ajudar a aliviar a pressão sobre os lares.
"É fundamental investir mais no apoio domiciliário, aumentar o número de vagas e tornar os custos mais equilibrados. Sem esse investimento, arriscamo-nos a envelhecer com muito pouca dignidade."
O responsável considera igualmente essencial aplicar plenamente o Estatuto da Pessoa Idosa, publicado em fevereiro de 2026, garantindo melhores condições de acesso aos cuidados.
"Portugal ainda não está preparado para envelhecer"
Questionado sobre se o país está preparado para responder ao envelhecimento da população, Nuno Figueiredo é perentório.
"Os resultados deste estudo mostram que Portugal ainda não tem condições para garantir aos idosos a qualidade de vida mínima que merecem. Muitos chegam ao fim da vida sem capacidade financeira para suportar os custos de um lar."
E deixa um apelo. "Somos um país envelhecido. Precisamos de olhar para esta geração com mais atenção e garantir que quem tanto deu ao longo da vida possa envelhecer com dignidade."
