Teatro Variedades faz 100 anos e prova que o Parque Mayer está longe de morrer

Durante anos esteve fechado e muitos chegaram a acreditar que nunca voltaria a abrir as portas. O Teatro Variedades celebra 100 anos de vida como símbolo de resistência cultural e da renovação do Parque Mayer.

Durante anos, ouviu-se que o Parque Mayer estava condenado ao desaparecimento. O encerramento prolongado do Teatro Variedades parecia confirmar esse destino. Mas, cem anos depois da inauguração, a sala histórica de Lisboa apresenta-se como símbolo de resistência cultural e de renovação.

"Estamos a começar a escrever os próximos cem anos", afirma Joaquim René, diretor do Teatro Variedades, que vê nas comemorações do centenário não apenas um momento de celebração, mas também uma afirmação de futuro para o próprio Parque Mayer.

Reaberto em outubro de 2024, após mais de 30 anos encerrado, o teatro regressou à cidade recuperando um dos espaços mais emblemáticos da cultura lisboeta. Para Joaquim René, o renascimento do Variedades representa uma resposta direta à ideia de que o Parque Mayer tinha perdido relevância.

"Durante muito tempo ouvimos que o Parque Mayer ia desaparecer. Hoje temos o Teatro Variedades, o Capitólio e o Maria Vitória ativos. Isso prova que o Parque Mayer continua vivo."

O teatro que sempre teve lugar para todos

Embora a história do Variedades esteja inevitavelmente ligada à revista à portuguesa, a sua identidade nunca se esgotou nesse género.

Desde a inauguração, em 1926, com a revista Pó de Arroz, o palco acolheu comédias, operetas, zarzuelas, farsas e alguns dos maiores nomes da cultura nacional.

Por ali passaram artistas como Vasco Santana, Maria Matos, Eunice Muñoz e Amália Rodrigues.

Essa diversidade continua a ser a principal herança que a direção pretende preservar.

"A resposta estava no próprio nome: Variedades", recorda Joaquim René. "Queremos ser um espaço sem preconceitos, aberto a todos os géneros e a todos os públicos."

Um século contado através de livros, música, dança e teatro

As celebrações dos 100 anos estendem-se ao longo de um dia inteiramente dedicado à memória e ao futuro da sala.

O programa inclui o lançamento do livro Cem Anos de Variedades, da investigadora Paula Gomes Magalhães, uma exposição criada em parceria com o Museu de Lisboa e um espetáculo de dança vertical que transformará a fachada do edifício em palco.

Um dos momentos mais originais da exposição será a recriação de canções históricas do teatro pela cantora Cláudia Pascoal, que revisita temas marcantes da programação do Variedades, entre eles "Cheirar Lisboa", eternizado por Anita Guerreiro.

A noite termina com a estreia de Variedades, uma ópera bufa erótica e satírica que percorre a história do teatro através de personagens imaginárias que testemunharam um século de espetáculos no Parque Mayer.

Histórias que resistem ao tempo

Ao mergulhar nos arquivos para preparar o centenário, a equipa do teatro encontrou dezenas de episódios que ajudam a compreender a riqueza da sua história. Um dos mais acarinhados envolve a atriz Beatriz Costa e o célebre burro Manjerico.

Conta-se que, durante uma representação da revista Arre Burro, o animal decidiu aliviar-se em pleno palco. Beatriz Costa transformou o inesperado incidente num momento de improviso que arrancou gargalhadas e aplausos da plateia, tornando-se uma das histórias mais lembradas do imaginário do teatro.

O palco contra o mundo digital

Num tempo marcado pelas redes sociais e pela comunicação instantânea, Joaquim René acredita que a força do teatro reside precisamente naquilo que o digital não consegue reproduzir, ou seja, a experiência partilhada.

Segundo o diretor, desde a reabertura, o Teatro Variedades tem registado salas consistentemente cheias e um interesse crescente por parte dos públicos mais jovens.

"Existe uma vontade de comunhão. As pessoas querem voltar a viver experiências em conjunto."

Para quem dirige uma sala que atravessou monarquia, ditadura, revolução e sucessivas transformações tecnológicas, o teatro continua a responder à mesma necessidade de estar presente, no mesmo lugar e no mesmo momento.

Um espaço de liberdade para os próximos cem anos

Quando as celebrações terminarem e as luzes se apagarem, Joaquim René espera que permaneça uma ideia simples: o Teatro Variedades continua a ser um espaço aberto.

Um lugar onde cabem diferentes linguagens artísticas, diferentes públicos e diferentes formas de olhar o mundo.

"Gostávamos que as pessoas pensassem neste espaço como um lugar de liberdade criativa e de fruição cultural. Um espaço de todos e para todos."