A música que fez plim plim em 2024
Números de vendas, recordes de visualizações e enchentes em concertos. Taylor Swift está em todo o lado.
Este quarto balanço do ano de 2024 é feito em números, em matemática aplicada... à música. Nesta retrospetiva ao modo de Financial Times da música, os instrumentos fazem pilim (ou plim plim), as notas musicais são também de dinheiro e as colunas de som desfocam-se em colunas do Excel.
A serpenteada clave de sol revira para um S não só com um traço mas com dois e a mim parece ser um cifrão. As folhas de pautas estão estranhamente em papel quadriculado, com somas de somar, mas nunca de subtrair.
Aqui fala-se de massa e de massas. E foram massas de gente que Madonna teve em 2024 na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, nada menos do que um milhão e seiscentas mil pessoas (três vezes a população da cidade de Lisboa), no seu concerto gratuito de 4 de maio. É a maior assistência dos últimos 20 anos da música ao vivo em todo o planeta. Nunca Madonna tinha tido tanta gente à sua frente, em mais de 40 anos a pisar palcos. A Praia da Copacabana continua a ser a maior arena do mundo. É nesse areal que ocorreu o concerto com o maior número de espectadores de sempre, com Rod Stewart a cantar para três milhões e meio de pessoas na passagem de ano de 1994 para 1995.
Madonna pode ser a Rainha da Pop, mas vem aí agora um continente de letras dominado por Taylor Swift, que quase monopoliza este artigo. O concerto com o maior público pode ter sido o de Madonna, mas a digressão mais lucrativa de sempre da música passou a ser este ano de Taylor Swift. "The Eras Tour" teve uma receita bruta de quase dois mil milhões de dólares, superando com uma larga vantagem digressões anteriormente líderes no encaixe como a Farewell Yellow Brick Road Tour de Elton John, a + Tour de Ed Sheeran ou a 360° Tour dos U2. Praticamente, duplicou a concorrência histórica. E o efeito “sísmico” da sua passagem por Lisboa, para o espetáculo duplo no Estádio da Luz, fez duplicar (ou quase) os preços do alojamento local na área metropolitana de Lisboa entre os dias 24 e 26 de maio, devido à grande diferença entre a procura alta e a oferta. O mercado abanou com a presença sísmica da caravana ao vivo da Eras Tour. Já falámos de soma, mas no caso de Taylor Swift, multiplica-se.
O impacto da digressão também se fez sentir nas horas caseiras das pantufas. "Taylor Swift: The Eras Tour" é o filme-concerto que, em três dias, registou mais streams na plataforma Disney+. Taylor Swift somou mais um recorde na lista de feitos que tem conseguido na carreira. "Taylor Swift: The Eras Tour" é o filme-concerto que, em apenas três dias, registou o maior número de streams na plataforma Disney+. De acordo com a publicação The Hollywood Reporter, na semana de estreia, o filme somou cerca de 16 milhões de horas de visionamentos.
Onde quer que esteja, no palco ou no estúdio, Taylor Swift faz sempre um número... impressionante. O seu 11º álbum, “The Tortured Poets Department” bateu vários recordes no mercado digital e físico. Tornou-se no álbum com o maior número de streams num só dia: mais de 300 milhões. Perguntar de quem era o recorde anterior é como dar já a resposta. A insaciável Taylor Swift bateu-se a si própria – salvo seja. A cantora bateu ainda recordes nas várias plataformas, como a Amazon e a Apple. E no vinil, Taylor Swift foi também a campeã, tendo vendido só em quatro dias nos Estados Unidos um milhão e seiscentas mil cópias.
A menina aplicada à matemática Taylor Swift passou a ser este ano a personalidade feminina mais rica da música, segundo a revista Forbes, com um ganho acumulado de mais de cem mil milhões de dólares, averbado em royalties e em receitas de digressões (600 milhões de dólares), em proveitos do catálogo musical (600 milhões de dólares) e à volta de 125 milhões de dólares de património em seu nome. Taylor Swift ultrapassa assim a cantora Rihanna, que vinha sendo a mulher mais rica da música, muito por causa das suas atividades no mundo dos negócios, em especial nos produtos cosméticos.
Finda esta travessia transiberiana de palavreado no Swiftiquistão, mudemos de sujeito, porque, por incrível que pareça, há mais mundo além de Taylor Swift. Houve mais negócios chorudos de vendas de catálogos. A venda de catálogo mais badalada foi talvez a dos Pink Floyd à Sony Music, pelo valor de quatrocentos milhões de dólares (cerca de 360 milhões de euros). As negociações entre os representantes da banda e a Sony Music duraram mais de dois anos e foram dificultadas pelas lutas internas entre os ex-elementos dos Pink Floyd.
Os ex-membros dos Pink Floyd venderam o catálogo das canções, mas mantêm os direitos autorais sobre as músicas. A Sony Music passa a deter as gravações de álbuns emblemáticos como “The Dark Side of the Moon” (de 1973), “Wish You Were Here” (de 1975) “The Wall” (de 1979), além da restante obra.
Houve mais veteranos a embolsar rios de dinheiro graças ao seu histórico. Bryan Ferry vendeu 50% do seu catálogo musical à empresa Iconic Artista Group. O negócio com Ferry, que diz respeito à sua carreira a solo e ao período com os Roxy Music, inclui direitos de gravação, publicação, bem como os direitos de nome e imagem do músico. Como cantaria Bryan Ferry num outro contexto, em ‘Kiss and Tell’, “Money talks – it never lies”.
Marca redonda (ou esférica, como lhe quiserem chamar) é no planeta Terra e cabe só a nós, comuns mortais, porque os números de visualizações que se atingiram no YouTube foram estratosféricos, como o caso do vídeo de Dua Lipa em 'New Rules', que ultrapassou este ano os 3 mil milhões de visualizações. O vídeo do hit 'New Rules' é já de 2017.
Em marcas estratosféricas mais próximas da Terra, houve vários vídeos antigos a superar em 2024 a marca dos mil milhões de visualizações no YouTube, como 'The Real Slim Shady' (de 2000) do rapper Eminem, ‘Always' (de 1994) dos Bon Jovi, ou 'Back in Black' (de 1980) dos AC/DC. Michael Jackson, mesmo à Rei (da Pop), teve não só um, mas três vídeos a ultrapassarem a marca dos mil milhões de views: 'Billie Jean', 'Beat It' e 'They Don't Care About Us'.
Nas tabelas de vendas, Beyoncé fez história ao tornar-se na primeira negra a liderar o top de country, por via do single, ‘Texas Hold ‘Em’. Outra lenda afroamericana, Ray Charles, tinha também um particular carinho pelo country, e já tinha obtido a liderança da tabela de country, mas em dueto com Willie Nelson no tema de 1984, ‘Seven Spanish Angels’.
Se Beyoncé fez história, os Metallica mostraram... o seu histórico no top dos Estados Unidos. O álbum “preto” e homónimo de 1991 – popular pelas músicas Nothing Else Matters’, ‘Enter Sandman’, ‘The Unforgiven’ ou ‘Wherever I May Roam’ - chegou em 2024 às 750 semanas no top 200 da Billboard. O disco “Metallica” entra num lote muito reduzido de obras com um mínimo de 750 semanas no top 200 da Billboard, como “The Dark Side Of The Moon” dos Pink Floyd (com 990 semanas), e as compilações “Legend” de Bob Marley (com 843 semanas) e “Greatest Hits” dos Journey (com 813 semanas).
(Ar)rematamos este balanço dos números... à martelada, no mundo das leiloeiras. Destacamos dois acontecimentos, o primeiro deles com um significado especial. Os sapatos de camurça de Elvis – os tais blue suede shoes - renderam 120 mil libras (mais de 140 mil euros) em leilão. O cantor histórico usou-os, por exemplo, quando participou no programa televisivo "The Steve Allen Show", em 1956. No vídeo a preto e branco, não dá para perceber a cor dos sapatos de camurça – na verdade, nem sequer dá para os ver. Uma das músicas que Elvis mais glorificou chamava-se precisamente ‘Blue Suede Shoes’.
Mas a nível de números, Mark Knopfler superou o “Rei do Rock”, ao alcançar uma receita de oito milhões de libras (mais de dez milhões de euros), na venda de 120 objetos do ex-Dire Straits, num leilão na Christie's, em Londres. Entre os numerosos bens arrematados, contam-se muitas, mas mesmo muitas guitarras e ainda alguns amplificadores. Os compradores vieram de 61 países diferentes e 25% da receita total reverteu para instituições de caridade. Uma das guitarras vendidas foi um modelo Red Schecter Telecaster, que atingiu o valor de 415 800 libras (cerca de 486 mil euros), e que foi usada por Knoplfer para gravar o êxito dos Dire Straits de 1984, 'Walk Of Life'.
Os nossos artigos online de balanço musical do ano inspiram o podcast Beataites, conduzido pelos jornalistas Gonçalo Palma e Sílvia Mendes. O balanço de hoje sobre música e cinema pode ser também ouvido no quarto episódio do Beataites, da temporada de 2024.
Podem ler nas notícias relacionadas os balanços que publicámos até à data.
