2024: músicos que desapareceram fisicamente (só fisicamente)
Fausto, Marco Paulo ou Mísia e produtores como Quincy Jones e Steve Albini deixaram o mundo terreno. Morte de Liam Payne causou comoção mundial.
O 10º balanço musical do ano é dedicado a grandes figuras que morreram. Este artigo inspira também o 10º episódio do podcast Beataites, disponível desde hoje.
A música portuguesa perdeu um dos seus maiores navegadores, Fausto Bordalo Dias (1948-2024), nascido em pleno mar e depois viajado em epopeias musicais… marítimas que o próprio comandou autoralmente. O seu corpo embarcou numa viagem sem retorno a 1 de julho, mas ficou em terra a sua imensa obra, que faz de Fausto um dos três grandes descendentes de José Afonso, a par de José Mário Branco e do único dos vivos, Sérgio Godinho.
Em entrevista que lhe fiz logo após a sua morte, Sérgio Godinho recordou o seu velho amigo como “um criador inspirado, que sempre perseguiu uma espécie de perfeição, sem deixar que o talento e a criatividade interferissem com isso. Eu acho que era uma personalidade única e muito forte”.
Os três maiores cantautores da linha de descendência de José Afonso: José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto juntar-se-iam para um supergrupo efémero, os Três Cantos, de que José Mário Branco tinha sido o grande impulsionador. “Foi de facto um encontro único, esse dos Três Cantos, que foi limitado no tempo. Houve dois espetáculos em Lisboa, no Campo Pequeno, e dois espetáculos no Coliseu do Porto. Foram ensaios muito aturados, um trabalho muito burilado. Tínhamos uma banda com 16 músicos, ou 18. É uma coisa muito consistente. E foi um trabalho que, como é evidente, cimentou a nossa amizade e interação musical”, contextualiza Sérgio Godinho.
Além da música de intervenção e de muitas outras experiências cancioneiras, Fausto ergue-se como uma figura monumental através da trilogia das viagens marítimas portuguesas de vários séculos atrás, iniciada pelo álbum "Por Este Rio Acima", cujas letras e imaginário mergulham nas crónicas de Fernão Mendes Pinto. Quando Fausto ainda era vivo, entrevistei Pedro Adão e Silva, então Ministro da Cultura. O próprio governante enalteceu este álbum de 1982. “O álbum de música popular portuguesa de que gosto mais é o Por Este Rio Acima, do Fausto. Acho difícil que alguém tenha a ousadia de regressar a esse disco. Mas isso sou eu [a achar]. Se alguém conseguisse fazer, seria uma ótima homenagem àquilo que foi a criação musical portuguesa dos anos 70 e inícios dos anos 80”.
Os discos “Crónicas da Terra Ardente” (de 1994) e “Em Busca das Montanhas Azuis” (de 2011) completam essa trilogia, em novas obras homéricas ao gosto de Fausto que com o seu coro de marinheiros canta sobre temporais, um mar ainda mais tenebroso e mesmo o naufrágio e o salve-se quem puder. Fausto foi um génio da precisão rítmica, um arqueólogo da tradição folclórica portuguesa, um criador minucioso com a qualidade das letras e, ao mesmo tempo e apesar da elaboração, um homem com jeito para tornar a canção orelhuda e popular. Jamais o esqueceremos.
A partir da manhã de 24 de outubro deste ano, a população portuguesa teve que lidar com a estranha sensação de já não ter entre nós Marco Paulo (1945-2024), figura icónica da música romântica portuguesa e omnipresente na televisão portuguesa. Não foi consensual, mas foi venerado por muito do seu público. A sua morte mereceu as condolências das mais altas figuras do Estado e uma cerimónia fúnebre na Basílica da Estrela, em Lisboa com centenas de pessoas, incluindo populares colegas seus como Tony Carreira ou Quim Barreiros.
Foi no ano da sua morte, em 2024, mas ainda com vida, que Marco Paulo pôde assistir à renovação do seu legado através do projeto re-criador Para Sempre Marco, dinamizado pelo instrumentista e arranjador Tiago Pais Dias (que se destacou nos Amor Electro). No dia da sua morte, consegui entrevistá-lo. Tiago Pais Dias recorda o acompanhamento de perto de Marco Paulo na feitura destas versões dos seus clássicos. E então a primeira versão que eu faço é do 'Maravilhoso Coração'. E logo após ter concluído a versão, falei com ela outra vez e disse, “olha, tenho isto aqui pronto para tu ouvires? Queres ouvir?” E ele disse que sim. Fui a casa dele outra vez e mostrei-lhe a canção e ele esteve muito compenetrado ao ouvir a versão e no fim, com uma lágrima no olho, disse 'arrepiante', 'está épico', e agradeceu muito e ficou muito feliz e orgulhoso das versões, por sentir que estavam bem servidas e bem defendidas as canções. E por outro lado também sentiu que as novas gerações pegaram no reportório dele e de alguma forma deram ainda mais longevidade às canções icónicas do Marco”.
Além da pessoa, Tiago Pais Dias enaltece o artista. “Marco Paulo acaba por ser um artista e de alguma forma controverso. Mas eu acho muito honestamente que, acima de tudo, o Marco é um artista com canções icónicas que são transversais. Eu acho que quer se gosta ou não se gosta, é incontornável. Sou sempre muito feliz, e já fui muito feliz muitas vezes, a cantar músicas de Marco Paulo em situações completamente distintas. Eu acho que se nós todos estivemos numa festa animada e se passarem ‘Ninguém Ninguém’, ou o 'Maravilhoso Coração', ninguém fica indiferente. Toda a gente vai cantar. Portanto, eu acho que isto cumpre o propósito a que ele se comprometeu, que foi atingir as pessoas e mexer com elas. Portanto, está tudo certo, bate tudo certo”.
A cantora Mísia (1955-2024) deixou-nos em julho. A artista nascida no Porto imprimiu uma nova energia ao fado no início dos anos 90, a par de Camané e de Paulo Bragança. A fadista consagrou-se internacionalmente, ainda antes do furor de Mariza lá fora. Mísia foi condecorada com a Ordem das Artes e das Letras de França e em Portugal foi distinguida com a Ordem de Mérito da República Portuguesa. “Animal Sentimental”, de 2022, tornar-se-ia o seu último álbum. Ao longo da sua carreira de 35 anos, cantou alguns dos maiores escritores da literatura portuguesa como Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, José Saramago, Lobo Antunes, Natália Correia ou Lídia Jorge.
Um dos seus álbuns mais preponderantes, que pode ser visto como uma obra renovadora do fado, é “Fado”, de 1993, que abre com este tema, ‘Liberdades Poéticas’, composto por Sérgio Godinho e produzido por Vitorino, em que, como canta, “busca na diferença o mesmo som”.
Liam Payne (1993-2024), dos One Direction, morreu de forma inesperada a 16 de outubro. O cantor caiu da varanda de um terceiro andar de um hotel de Buenos Aires, na Argentina. Os resultados da autópsia revelaram álcool, cocaína e antidepressivos no corpo de Payne, além de “múltiplos traumas” e “hemorragias externas e internas”.
A morte causou uma comoção mundial, com numerosas vigílias nalgumas das cidades mais importantes do globo a uma escala beatlesca, como Londres, Nova Iorque, Manila, Paris, Madrid, e também em Portugal: em Lisboa, junto à MEO Arena; no Porto, junto ao Estádio do Dragão; ou em Évora, na Praça do Giraldo. Houve vários tributos emocionados por parte também dos músicos. Na cerimónia de entrega dos MTV Europe Music Awards, em Manchester, Rita Ora fez um discurso embargado de lágrimas ao lembrar Payne como um homem que “tinha um coração enorme e era a primeira pessoa a oferecer ajuda a quem precisasse. Enchia de alegria cada sala onde entrasse e deixou uma grande marca neste mundo". Os Jonas Brothers homenagearam Liam Payne com uma versão ao vivo 'Night Changes'. O tema original é dos One Direction, de 2014.
A música perdeu um dos mais ecléticos profissionais de sempre: Quincy Jones (1933-2024), não só produtor, mas também arranjador, maestro e compositor. Trabalhou com alguns dos gigantes do jazz como Louis Armstrong ou Dizzie Gillespie, compôs bandas sonoras de filmes, como "A Cor Púrpura" (de Steven Spielberg) e, claro, produziu discos de muita gente, alguns dos maiores, como Aretha Franklin, Frank Sinatra, Donna Summer e, obviamente, Michael Jackson, incluindo o álbum mais bem sucedido de sempre, “Thriller”. A sua noite mais longa e talvez o seu maior milagre foi quando produziu e gravou, em 12 horas de sessão, o single humanitário ‘We Are the World’, a 28 de janeiro de 1985. Foi a maior concentração de estrelas da música americana de que há memória dentro do mesmo estúdio.
Outro visionário de estúdio que perdemos este ano foi Steve Albini [1962-2024], que morreu de ataque cardíaco. Steve Albini é mais conhecido como produtor, mas foi acima de tudo músico, um carismático guitarrista e frontman dos indie-rockers Shellac, cheio de inteligência, humor, personalidade forte e muita criatividade, depois de um passado noutras bandas como os Big Black. Só a sua morte o impediu de levar novamente os Shellac para o Primavera Sound, do Porto. Eles eram a única banda que tinha tocado em todas as edições do festival do Parque da Cidade. A banda lançou a título póstumo o bem rasgado álbum “To All Trains”, que já estava pronto a ser editado. Termina de forma trágica o trajeto do trio Shellac ao fim de 32 anos de atividade.
Steve Albini tinha mais curiosidades sobre ele próprio. O músico tinha uma outra vida no mundo da alta competição do poker, por sinal, uma atividade bem mais remunerada que a que ocupava no rock. Venceu por duas vezes o World Series of Poker, em Las Vegas. O músico tinha direito a prémio monetários de valores como 196 089 dólares, qualquer coisa como 187 mil euros.
Mas percebe-se que Steve Albini seja mais conhecido como produtor, ele que preferia definir-se como engenheiro de som. Steve Albini produziu álbuns como “Surfer Rosa” dos Pixies (de 1990), “Pod” das Breeders, “Rid of Me” de PJ Harvey (de 1993) ou o último álbum de estúdio dos Nirvana, “In Utero” (de 1993). Steve Albini produziu ainda álbuns de Jon Spencer Blues Explosion ou Nina Nastasia. Após a sua morte, foi lançado o EP da cantora portuguesa Carminho, “Carminho at Electrical Audio. No vídeo da fadista em baixo, vemos Steve Albini de gorro e de máscaras, a deslizar na sua cadeira de rodas pela mesa de estúdio, a tirar apontamentos, a conversar com Carminho ou a pôr a gravar: “you are rolling”.
Kris Kristofferson (1936-2024), o cowboy hippie, deixou-nos a 28 de setembro. O músico norte-americano consolidou-se como uma das maiores lendas do country e da música americana. O músico levou a contracultura dos hippies à capital do country. Para Kris Kristofferson, a embriaguez dos músicos country e os devaneios de drogas dos hippies eram atitudes erráticas que não eram assim tão diferentes. Kris Kristofferson elevou a fasquia das composições no mundo do country, com as suas elaboradas rimas e uma maior sensibilidade. Um dos primeiros a reconhecer isso foi Johnny Cash, para quem Kris Kristofferson era um dos melhores compositores de country de sempre. A canção 'Sunday Mornin' Comin' Down' foi o início de uma amizade fortíssima e de um respeito mútuo entre Johnny Cash e Kris Kristofferson. A composição foi dada à voz carismática de Cash que rapidamente se torna uma das canções mais fortes do seu reportório.
Este ano, morreram ainda Françoise Hardy (1944-2024), ícone da chanson française; Ana Faria (1949-2024), a criadora dos Queijinhos Frescos; José Ribeiro, cofundador do Trio Odemira, aos 97 anos; Eric Carmen (1949-2024, o cantor de 'All By Myself'; Jack Jones (1938-2024), a voz da música ’Love Boat’; Melanie Safka (1947-2024), uma das raras cantoras do Festival de Woodstock de 1969; Roy Haynes (1925-2024), o lendário bateria de jazz; Tito Jackson (1953-2024), dos Jackson 5; o músico brasileiro Sérgio Mendes (1941-2024); Mary Weiss (1948-2024), a cantora principal das Shangri-las; o DJ Paul Spencer (Dario G), aos 53 anos; Wayne Kramer (1948-2024, antigo guitarrista dos MC5; Toumani Diabaté (1965-2024), o grande músico de kora do Mali; e ainda Ruy Mingas (1939-2024), histórico músico angolano que compôs o tema independentista ‘Monagambé’ e o hino oficial de Angola, ‘Angola Avante’.
Morreu também em 2024 Brian Griffin, um dos grandes fotógrafos da música. Foi responsável pelas capas dos cinco primeiros álbuns dos Depeche Mode, mas as suas fotografias serviram igualmente de capa a discos de outros artistas como Kate Bush, Billy Idol, os Echo & The Bunnymen, os Siouxsie & The Banshees, os Devo, ou os Psychedelic Furs. Fez ainda sessões fotográficas de grande cuidado visual com os R.E.M., os Queen, ou Peter Gabriel.
Os nossos artigos online de balanço musical do ano inspiram o podcast Beataites, conduzido pelos jornalistas Gonçalo Palma e Sílvia Mendes. O balanço deste artigo sobre regressos e despedidas pode ser também ouvido no décimo episódio do Beataites, da temporada de 2024.
Podem ler nas notícias relacionadas os balanços que publicámos até à data.
