Fernando Ribeiro, dos Moonspell: "Já tive fases bastante satãs"
Novo álbum da banda, "Far from God", sai nesta sexta-feira. Entrevista para o podcast "Camarim".
Esta semana, um manto de escuridão avassala o podcast "Camarim", com Fernando Ribeiro, o lobo-alfa da alcateia dos Moonspell, de dentição afiada e em boa forma para caçar ouvidos.
“Far from God” é o álbum de regresso da grande banda de metal de Portugal. Engane-se quem pensa que Fernando Ribeiro só se veste de preto. A camisola azul-e-branca do FC Porto é também do agrado deste urbano convertido à vida de campo. Mas a sua grande religião é o metal. Para as outras, as religiões monoteístas, Fernando Ribeiro deixa dura críticas. Ambientado nos ritos e nos mitos medievais da nossa cultura, sejam pagãos ou cristãos, Fernando Ribeiro é peregrino do gótico (na moda, na música), incluindo nas contraculturas, e até veste a camisola. Neste caso, a camisola era de “Dracula”, do escritor Bram Stoker. Bram...ando, uivando ou falando, eis a fera do bosque Fernando Ribeiro, hoje um homem campestre do Oeste, mas com o sangue urbano da Brandoa a escorrer.
Os Moonspell estão a tocar em vários festivais pela Europa fora, alguns deles são autênticos carnavais de metal gótico, não é? Estou a pensar no Wave Gottik Treffen, na Alemanha, ou no Castle Party, na Polónia?
Também há, são encontros. O Wave Gothic Treffen é um encontro – “treffen” quer dizer “encontro” em alemão. Por acaso, os Moonspell eram uma das poucas bandas com ligações ao metal. Acho que fomos uma das únicas bandas com bateria nessa semana de concertos. Mas depois, existem coisas como ópera, piqueniques vitorianos com toda a gente vestida a rigor, exibições sadomaso com dress code - eu e a Sónia não fomos, infelizmente (risos). Muito mais que um festival de música, é um festival de cultura gótica. A maior parte do público é alemão, mas encontrei lá pessoas do México, de países do leste e de outros países como o Egito. Para quem é gótico, é como uma peregrinação a Meca. Todos os anos as pessoas fazem essa viagem até Leipzig. E é muito curioso porque sendo nós os góticos, uns mais do que outros, uns mais do que eu também, surgiu o [jogo de futebol] Crystal Palace - Rayo Vallecano [final da Liga Conferência, disputada em Leipzig] e houve logo confusão. Por isso é que a música é muito mais importante que o futebol, porque esteve tudo na paz e depois… até mandei uma foto à Sónia: "Olha onde a gente esteve a almoçar", com cadeiras e hooligans.
Vocês vão tocar em sítios como, por exemplo, um anfiteatro romano, na Bulgária Qual foi o local mais invulgar onde já tocaram?
Um cruzeiro de heavy metal, talvez. Sim. Já tocámos três vezes em Miami, e uma vez fui a Cozumel, no México. Também fomos às Bahamas, a Paradise Island, que foi o meu destino preferido. Eu que não sou uma pessoa de destinos turísticos, mas gostei imenso de lá estar. E a última vez que fui com a Sónia, fomos à Jamaica também e ela fez exatamente o mesmo comentário. São três mil metaleiros, é um concerto caro, porque é um cruzeiro, tem todas as comodidades dos cruzeiros, mas a estética muda para o heavy metal. E ela disse: "Ah, vocês estão todos ali ‘à porrada’ no mosh pit mas depois estão todos a tomar o pequeno-almoço e a conviver uns com os outros”. E eu disse assim: "Pois, mas eu não noto esse ambiente, porque sempre cresci nele". Não há pessoas apartadas, não há pessoas VIP. Adoro estar no ambiente do heavy metal, acho que sinceramente recomendo.
Estou a tentar imaginar uma tribo de metaleiros numa praia.
São os mesmos, mas estão nus e branquinhos, a beberem cervejas, mas com as latas bebidas. Mas depois limpam tudo também. São quase japoneses nesse aspeto. Há um grande civismo. Há trinta anos que levo esta vida. E, principalmente em Portugal, havia aquela atitude dos meus pais: "Onde é que este se vai meter, agora?". Mas depois é um ambiente até extremamente familiar. Não é um ambiente aborrecido, estilo piquenique de uma marca de hipermercados. Não tem nada a ver com isso. As pessoas vão para desfrutar e cada qual desfruta à sua maneira. Há um que se manda de um sítio alto sem se aleijar. Há outro que vai com a família, com os filhos não para se mostrarem ou serem vistos também, mas sempre pela música e para estarem naquele ambiente. Dizem que o metal é um mercado de nicho, mas o festival Wacken Open Air esgota antes de anunciar as bandas e tem noventa mil a assistirem, num evento de quatro ou cinco dias, sem as pessoas sequer se importarem quem é que vai tocar. Esgotam logo por causa do ambiente.
Falando do vosso novo álbum, ‘Cross Your Heart’ é um tema de estrada de luto pelos que morreram em acidentes de viação. Já vários músicos morreram na estrada, como o Cliff Burton dos Metallica. O próprio Robert Plant sofreu um acidente de carro muito grave. Vocês já apanharam algum susto grande em digressão?
Vários, mas temos tido muita sorte. Acho que o pior foi ali no final dos anos noventa, em que houve três vítimas mortais. Nós íamos de autocarro, vínhamos da Alemanha para tocar num festival na Polónia e o autocarro aqueceu. Estacionámos na berma, ainda na autoestrada alemã, que tem mais meios. A polícia parou para ver o que é que se passava, para ver se precisávamos de ajuda. Nós estávamos à espera que o motor arrefecesse ou se ia haver um reboque do autocarro de turné, que é sempre mais complicado. Na Alemanha, apesar de terem uma condução mais segura e menos mortes na estrada, há sítios a que chamamos Autobahn, como a canção dos Kraftwerk, em que não têm limite de velocidade. E houve um carro que perdeu o controlo e tocou no carro da polícia e embateu no nosso atrelado quando eu estava a sair, para apanhar ar. Vi um carro a voar literalmente sobre a nossa cabeça. Foi mesmo um acidente. As três pessoas do carro morreram. Nós e a nossa equipa técnica ficámos bem. Houve uma banda francesa que estava connosco, que ficou com tanto medo que apanhou o autocarro de volta. Eles eram franceses. Para gerirmos aquilo, apanhámos boleia de um outro autocarro de músicos. Eu dormi em cima de um banco. E fomos tocar à Polónia. Conseguimos fazer o concerto, sem ficarmos traumatizados. Mas a canção também fala sobre uma realidade "surreal", que são aqueles pequenos altares que a gente vê ali nas estradas do Alentejo e também vejo nas estradas da Polónia, que assinala um momento trágico. É a cruz, são as flores, de vez em quando são as fotografias, porque acidentes acontecem, infelizmente. Mas acho e continuo a achar que Portugal tem um problema muito sério nas estradas. Somos muito agressivos. Cada vez se vê mais violência e má condução nas estradas. A condução está cada vez mais agressiva. Uma pessoa vai na faixa da esquerda, no limite de velocidade, e já estão cinquenta carros atrás de ti a pressionarem-te. Não é a nossa canção que vai trazer isso à baila, mas é um assunto em que devíamos ter mais atenção, porque acho que, tal como a toxicodependência nos anos 80 e anos 90, que foi tratada como problema de saúde mental, a agressividade rodoviária também devia ser. Há radares e multas, tudo bem, mas a mudança de cultura é muito importante, senão vamos ter muito mais acidentes, como, aliás, têm aumentado ultimamente. Todas as pessoas têm uma história, infelizmente. Todas as pessoas já se "passaram ao volante". Eu tenho amigos calmos que se lhes metes um volante à frente, parece que se transformam em demónios. Não é muito habitual uma banda falar sobre isto, acho eu. Mas a Adelaide Ferreira fez. Aqui nos anos 80, ela tinha um tema, ‘São Loucos’. Acho que essa canção até era sobre o trânsito. Eu gosto muito do repertório de hard rock dela. Eles até gravaram em inglês. Infelizmente, não chegou lá fora, senão teríamos tido aí uma banda estilo Whitesnake para nos gabarmos.
Porque é que afirmas que “O ano de 2026 vai ser um dos anos mais importantes na história dos Moonspell” e que “Far from God” “é o disco mais importante de sempre da história da banda”?
Para mim, é, definitivamente. Estou a falar um bocado pela banda. Para o ano, fazemos trinta e cinco anos de carreira. Nunca pensei, sinceramente, nem ter três [anos], às vezes nem trinta dias, quanto mais trinta anos. As bandas estão um bocado programadas pelos managers, pelos agentes, a dizerem que está sempre tudo bem, a dizerem que o novo álbum é o melhor, e o mais importante. Eu não estou a dizer que o novo álbum é o melhor, porque isso não depende de mim, mas sim dos fãs, que o fazem melhor ou pior, dependendo da reação que eles tiverem. Eu, portanto, até não dou a reação [positiva] como garantida. Mas para mim, e um bocadinho para os Moonspell, cujo último disco foi de 2021 [Hermitage], acho que houve aqui uma crise existencial e criativa que nós tivemos que resolver de alguma maneira. Nós tínhamos os concertos, os nossos álbuns antigos e o nosso legado a ser celebrado cá dentro e lá fora. Fizemos muitas turnés retrospetivas também, mas tínhamos que responder à pergunta: "porquê nova música?" “O que é que nos traz a nós?” “O que é que vai trazer à nossa comunidade de fãs?” E tivemos que assumir essa decisão do tudo ou nada. Muitas vezes, tinha tido a ideia de fazer mais livros ou de fazer consultoria musical. Eu gosto muito da parte burocrática e administrativa dos músicos, sobre os direitos de autores e conexos, etc. Penso que os músicos, hoje em dia, ainda estão ou são mal-informados sobre os seus direitos e há um grande campo, principalmente em Portugal, a precisar de aconselhamento em contratos, etc. Mas depois, com a música do “Far from God”, com a direção, com a escrita, com a partilha, com a presença dos Moonspell, consegui recuperar o meu entusiasmo, por ser o vocalista e o letrista, por muitas das vezes eu ser a cara da banda. Daí [este ano] ser bastante importante, pelo menos para mim. Eu acho que é um álbum até decisivo. Para mim, foi decisivo entre se fico ou se vou fazer outras coisas. Não porque estivesse insatisfeito, mas porque eu estava com aquela crise existencial: "O que é que eu faço aqui? O que é que são os Moonspell?" E foi engraçado e curioso, que a resposta não veio da indústria ou dos compromissos, porque isso logo se resolve. A gente passa essa ponte quando lá chegarmos. Mas veio propriamente da música, dos meus colegas, também dos fãs que têm reagido maravilhosamente bem às nossas decisões musicais para o “Far From God”, o que nem sempre acontece, porque nós somos uma banda imprevisível, mesmo dentro do heavy metal. Mas agora foi tão importante que acho que estou numa das melhores alturas como vocalista dos Moonspell. Sinto-me extremamente bem e completo.
O Baudelaire é uma inspiração para o vosso novo álbum? Confirmas?
Também, sim.
A literatura é uma base de inspiração permanente para ti?
Não só para mim, mas como para o heavy metal. Eu repito isto muitas vezes, mas nunca é demais repetir: o heavy metal é em si mesmo uma música bastante literária. Há montes de escritores fãs de heavy metal. Eu até vi o documentário sobre os Iron Maiden, e estava lá o Javier Bardem a roubar completamente o protagonismo à banda. O José Luís Peixoto, que é nosso amigo, é um fã assumido e confesso do heavy metal e escreve também ao sabor dessas letras.
E é fã dos Moonnspel também.
E também fã. Ele já é mais que fã, ele já é da casa, já subiu ao palco connosco várias vezes, até para cantar, que não é bem… Ele é melhor escritor que cantor. E depois há uma grande tradição que começa ali nos anos oitenta, com os Metallica, por exemplo, “For Whom the Bell Tolls”, “Por Quem Os Sinos Dobram”, que é o livro lendário sobre a Guerra Civil de Espanha, do Ernest Hemingway. Tens o “The Rime of the Ancient Mariner”, “A Rima do Antigo Marinheiro”, dos Iron Maiden, que agora tem o documentário e que falam sobre isso. Aliás, há um estudioso que fala sobre o poeta Coleridge. Entre muitas coisas, os Moonspel também começaram a ter essa experiência, principalmente com a canção ‘Opium’, que tem um excerto do poema de Álvaro de Campos ou Fernando Pessoa. E eu penso que, por trás dos criadores das séries, dos podcasts, desta nova maneira também de consumir cultura, há sempre um grande leitor. É o que eu tento explicar ao Fausto, o meu filho, que também tem um nome literário…
E musical também.
Literário e musical. Tanto o romance como o cantor português com alto nível… é um nome muito engraçado. Às vezes enganam-se e chamam-lhe Vasco, que é engraçado. E ele tem tanto sentido de humor em relação a isso que no aniversário dos seus quatorze anos, fomos ali fazer um virtual reality. Não entrei porque não tenho vida para isso. Entrou a Sónia, tinha que entrar um adulto. Equipou-se toda de óculos e de espingarda para matar uns maus. Ele tinha que ter um nickname, um pseudónimo. E ele meteu o Vasco e eu fartei-me de rir com isso. Lembras-te daqueles papéis que a gente recebia, que era para traçar uma linha até ao destino, em que tinhas de fazer um pequeno labirinto? Eu acho que é um bocado assim com os livros. Tens as séries “Stranger Things” e “Game of Thrones” e depois percorres... Nem toda a gente vai ter aos livros, mas no fim desse labirinto, há sempre livros. E para os Moonspell, os livros foram bastante importantes, porque também é o meu lugar feliz: ler e escrever. Leio sempre. De vez em quando vou no avião e perguntam: "O que estás a fazer?" “Estou a ler”, que já é uma atividade estranhíssima, mesmo livros, não o Kindle - que também tenho -, mas é [o livro em objeto] que me acalma. Há pessoas que fazem paraquedismo ou atividades radicais ou bebem alguma coisa. Mas para mim, é mesmo estar com um livro que o meu cérebro descansa e viaja.
O título do álbum é “Far From God”. És crente?
Não sei. É uma excelente pergunta, porque acho que ninguém pode ter a certeza. Já tive as minhas fases bastante satãs, até bastante anti-católicas, porque sempre pensei que culpa não é de Deus, mas dos homens, como aqueles casos preocupantes da Igreja Católica, que é a nossa cultura. Praticamente quase toda a gente da minha geração foi batizada, fez o crisma, fez a profissão de fé. Sempre tive um grande fascínio pelo catolicismo, pelos livros, pela Bíblia. Depois afastei-me, principalmente como adolescente, porque achei que aquilo estava tudo muito mal gerido. Havia casos horríveis de corrupção, de pedofilia, porque não nos vamos esquecer que Portugal, Espanha e Itália não tiveram a Revolução Protestante. Mas sempre fomos de um catolicismo romano muito dogmático. A forma como a Igreja Católica lidou e lida com a pedofilia é uma coisa que envergonha qualquer crente ou qualquer praticante. O facto de não ordenarem mulheres também é uma coisa que me faz alguma espécie... Porque há mulheres que poderiam contribuir até para uma certa abertura de mentalidades, como no celibato. Tudo isso me faz confusão, mas isso são regras escritas pelos homens. Apesar de ter um álbum chamado “Far From God”, sinto-me mais curioso sobre Deus, sobre a fé, sobre o que é que guia estas pessoas. O Nietzsche falava muito do desvio do original, das virtudes humanas da empatia, por exemplo. Empatia não era uma palavra muito utilizada na altura, é mais hoje. Eu acho que este disco, filosoficamente, fala sobre esse desvio, sobre como as pessoas, que têm Deus na boca, - os muçulmanos, os judeus, principalmente os católicos, estas religiões monoteístas - fazem exatamente o contrário do que os ensinamentos do que o seu Deus eleito lhes ensina a fazer. O Islão é uma religião de paz, mas tem a sua faceta militar e tem a sua faceta terrorista. O judaísmo também é uma religião de paz mas tem a situação na Palestina. O catolicismo, hoje em dia, por exemplo, com o advento do Trump e do evangelismo norte-americano, também já está a começar a fazer guerras santas. E é preocupante. As pessoas falam muito de política, mas eu acho que o assunto está demasiadamente concentrado na política e devia passar outra vez para a filosofia e para a religião, porque acho que é onde estão os verdadeiros problemas e soluções. A política é cada um a tentar safar o seu quinhão. É assim que eu leio a política, com muito raras exceções.
Voltas ao fascínio pela simbologia do lobo e da alcateia. Um dos temas novos chama-se ‘The Great Wolf in the Sky’. O vosso álbum de estreia intitula-se “Wolfheart”, de 1995. O vosso novo álbum vai ser lançado poucos dias depois da lua cheia. A lua cheia é uma referência para vocês? Vão ver o calendário das luas?
[Fascínio] com os lobos, sim. Eu já colaborei várias vezes com o Grupo Lobo, mas nunca quis interagir com lobos. Acho a interação com animais selvagens completamente contranatura. Um animal, de vez em quando, tem que estar em cativeiro, por causa da ação humana, mas um animal tem as suas regras. Poeticamente, os lobos são importantes para os Moonspell, por causa de uma coisa muito simples, porque independentemente de toda a gente que colabora connosco, toda a gente que nos ouve, toda a gente que faz parte da família, do universo Moonspell, ao fim do dia, somos só nós os cinco. E isso é uma pequena alcateia e temos que ser nós a ir para a frente. Adoro os fãs, mas o fã quando não gosta do disco, vai ouvir outra coisa. Eu tenho que continuar em frente. Por isso, comportamo-nos um pouco assim. Devo dizer que sou péssimo com as fases da lua. De vez em quando, dizem: "Já viste a lua vermelha?" E eu vou lá tentar tirar uma foto com o meu telefone e aquilo parece sempre um botãozinho estelar. E nunca apanho. Mas sim, eu acredito que há mudanças de comportamento [determinadas pelas fases das luas]. Eu vejo logo pelos meus gatos, ficam logo a fazer aqueles arranques. É muito curioso, porque nós estamos um pouco afastados dessa mitologia. Acho que hoje em dia, a grande moda é a mitologia mais oriental. Eu estive na Índia e tive contactos com yogins, vi que não tinha nada a ver com o yoga mais ocidental. É completamente diferente e que não entendo tão bem, mas já entendo muito mais os ritos e os mitos ocidentais, não só os da igreja e os católicos, mas como também os pagãos, a lua, as energias da terra, tudo isso. Não sou muito new age, confesso, sou mais old age. E confesso que, de vez em quando, há tanta coisa a acontecer que uma pessoa já começa a ser desacreditada. O mundo está tão bem que as pessoas já conseguem ajudar os outros pela autoajuda, que nunca é autoajuda, porque é sempre a ajuda que alguém te está a fazer, portanto, não é auto, é outra coisa. Mas tudo o que seja mais clássico, mais romântico, mais da nossa cultura, que tem as suas raízes na cultura celta, na cultura muçulmana também, não nos vamos esquecer, porque não é novidade para nós. Cada vez que oiço alguém a dizer: "Ah, são muçulmanos em Portugal." Sim, pois, mas estão cá antes de nós, e deixaram-nos legados muito importantes. Formaram a nossa cultura, a nossa música, o nosso alfabeto, a nossa matemática, a nossa álgebra, tudo isso. Mas eu sou dado a isso. Infelizmente, estou sempre tão ocupado que perco esses momentos.
Tens gostos bastante ecléticos. Gostas de Depeche Mode.
Gosto.
Gostas de Nick Cave.
Adoro Nick Cave.
Gostas de Mão Morta.
Muito.
Foi uma honra para ti seres convidado para um álbum dos Mão Morta, o “Pesadelo em Peluche”, no tema ‘Como Um Vampiro’? É engraçado por que estou a ver-te com uma camisola do “Drácula”.
Sabes que com os Mão Morta, a gente nunca sabe. Eu gosto muito dos Mão Morta por causa disso, eu nunca sei se eles estão a sério ou se estão um pouco a ironizar contigo, percebes. É uma banda tão boa, mas também tão própria, tão hermética, com aquelas questões do situacionismo do Adolfo, e a questão política. Eu ouço Mão Morta há muitos anos, quando eles me convidaram - eu fiz-me de convidado - para cantar com eles em palco o ‘Lisboa’, que eu tenho aquela voz agressiva no refrão, hã, e fomos cantar num festival há muito tempo, no Carviçais Rock, ali perto de Miranda do Douro. Depois eu convidei o Adolfo para cantar num álbum nosso, em 2001, para narrar uma pequena peça do Cesariny [na música ‘Than the Serpents in My Arms’, do álbum “Darkness & Hope”]. Depois eles retribuíram o convite para eu cantar o ‘Como um Vampiro’. Entretanto, temos-nos cruzado. Eles, a par dos Bizarra Locomotiva, são a minha banda preferida nacional.
Tu encontraste-te uma vez também com o Nick Cave. Como é que foi esse encontro?
Foi um bocado constrangedor, principalmente para o Nick Cave, porque eu não tenho o costume de tirar fotos com ninguém. De vez em quando, com amigos, tudo bem. Ainda noutro dia, eu estava com uma banda, de que eu gosto muito, da Bielorrússia, que são os Molchat Doma, e estávamos a partilhar o palco e eu queria tirar uma foto com eles, mas eu disse: "Pá, vou deixar os rapazes sossegados, eles ainda por cima estão em turné". Mas com o Nick Cave não resisti. Íamos tocar num festival na Sérvia, que é o Exit Fest. Fomos até Belgrado e depois apanhámos um avião mais pequeno para Novi Sad, para o Exit Fest, que é um festival incrível nessa cidade sérvia. E eu estava com o meu técnico sonzinho: "Pá, olha ali o Nick Cave e o Warren Ellis. Epá, fogo, estão ali mesmo à mão de semear". Estavam mesmo sentados duas cadeiras à minha frente, eu estava bem vestido, com uma mochila, com uma t-shirt de um tubarão, com o mesmo casaco que tenho ali. Eu, pronto, vai, não vai, vai, não vai… mas era o Nick Cave. Entretanto, o road manager dele vive em Portugal. Ele [Nick Cave] dispara porque tinha que ir à sua vida. Atuava o Nick Cave e depois o cabeça-de-cartaz era o David Guetta. Nós éramos cabeças-de-cartaz, mas no palco secundário, que era só bandas de metal. E o Nick Cave dispara, ele anda muito rápido, com certeza para fugir a pessoas como eu. Ele já vai lá ao fundo e eu como se tivesse andado com ele na escola, gritei: "Ei, Nick!" Foi assim que o chamei, ele parou. Fui ter com ele e eu perguntei-lhe: "Podemos tirar uma foto?" E ele responde-me assim: "Tens mesmo a certeza que queres tirar uma foto comigo?" Ele já estava a ser um bocado má onda, e eu disse-lhe assim, com a Brandoa a subir em mim: "Olha, se não quiseres tirar uma foto, também não há problema. Desculpa ter-te incomodado". Depois tirámos uma foto. Ele agarrou-me com a mão para me afastar um pouco. E depois foi muito engraçado, porque chegámos ao mesmo hotel e eu tinha um quarto já todo arranjado, tinha fãs à porta, estive a assinar autógrafos e o Nick Cave não tinha o quarto pronto e teve que estar ali à seca. E eu assim: "Vês? Se me tivesses tratado um bocadinho melhor..." Mas piquei esse ponto, sim.
Tiveste outros encontros de terceiro grau? Imagino que muitos.
Não tem a ver com a música, mas o encontro mais impactante que eu tive foi num programa de música com o José Luís Peixoto e com o José Saramago. Esse foi o encontro mais impactante que tive, porque foi o único Prémio Nobel que tive assim à frente. Tive vários encontros, por exemplo, com o Marilyn Manson, que quando veio a Lisboa, ligam a gente para me telefonarem a mim, para eu lhe recomendar um bar. Falei-lhe do Pavilhão Chinês. Disse: "Pá, aí vais curtir bué e vais estar sossegado”. A primeira vez que o encontrei foi em 1996, quando eles tinham a turné do “Antichrist Superstar” e tocaram num clube muito pequeno para oitocentas pessoas. Estivemos lá. Na altura, era muito surreal estar com eles, porque era mesmo aquela cena “sex, drugs and rock'n'roll” e outras coisas de camarim. Nós éramos um bocadinho mais novos, estávamos fascinados e aterrorizados ao mesmo tempo, porque nós viemos de Portugal, não viemos de Los Angeles. As realidades são muito diferentes, mas dos melhores encontros, dos mais prazerosos, que tive foi com o Lemmy, do Motörhead, que é uma grande referência para todos nós, mas também o vocalista do Slayer [Tom Araya], ou o vocalista do Megadeth. Uma vez estavam a expulsar o Dave Mustaine [dos Megadeth] de um catering porque ele tinha esquecido a pulseira e era na Alemanha, e a segurança: "se não há pulseira..." E eu assim: "Mas é o Dave Mustaine, é o vocalista do Megadeth, deixa lá o homem entrar. O homem é que vai fechar aqui o festival." Portanto, há assim encontros.
Foste tu que safaste o Dave Mustaine?
Eu e o Pedro [Paixão]. Há encontros imediatos, uns bons, outros assim um bocadinho piores, mas o que convém é não chatear. A mim, podem-me chatear à vontade, que eu sou um homem do povo. Mas de vez em quando, tu aproximas-te dessas pessoas e não sabes o que elas passaram, se vieram de uma viagem de avião, se lhes aconteceu alguma coisa de mau, é preciso muito cuidado. Por exemplo, uma pessoa muito simpática é o Mike Patton, dos Faith no More. Tu é que tens de vir embora porque ele não pára de falar. Ele está sempre a falar e adora falar português e espanhol.
Já converteste a Sónia ao metal?
Ela só gosta de um disco nosso. Aquele disco sobre o terramoto de Lisboa, que é o “1755”.
Curiosamente, é aquele disco que cantam em português.
É o que cantamos em português, ela disse que eu estive no meu melhor, disse que não inventei, usei o registo vocal em que eu sou realmente bom, que é o gutural. E eu assim: "Então, mas eu gosto tanto de cantar também e ser um bocadinho gótico e romântico e assim." "Sim, sim, fazes isso bem." E ela é assim muito “pão pão, queijo queijo”, “mas aquele disco, aquelas letras, aquele envolvimento, é o meu disco preferido”. Ao heavy metal, a Sónia não acha assim muita piada, mas ela gosta muito de música gótica. Aliás, os The Gift chamam-se The Gift, e não estou a fazer nenhum spoiler, por causa do primeiro disco de Sisterwood, que era a banda intermédia dos Sisters of Mercy, que se chama “The Gift”. E foi ela que deu o nome à banda. E cada vez que vamos a um festival gótico e que ela pode, como foi o caso agora de Leipzig, ela vem comigo, porque ela diz que ali pode ser livre de vestir o que quiser e meter um pavão empalhado na cabeça que ninguém vai dizer nada, ao contrário de cá, em que ela de vez em quando leva com umas bocas pela maneira como é, como se veste e como se comporta, que é terrível, mas isso acontece. Ela não gosta muito é dos Mão Morta. Acho que é o compromisso impossível ir aos concertos dos Mão Morta. Diz que não gosta da banda. E eu assim: "Pronto, tudo bem. Há coisas que tu gostas que eu também não gosto", mas ela tem um excelente gosto musical, é muito crítica, honesta. Se ela não gosta, vai-te dizer na tua cara. E gosta dos nossos discos, mas o álbum preferido dela é mesmo o disco sobre o terramoto. Está farta de nos chatear para eu fazer outro. Talvez um dia.
Quando é que te tornaste metaleiro e porquê?
Olha, com treze ou catorze anos, curiosamente. O porquê, a gente não sabe nunca muito bem. Mas, para mim, foi um momento mais ou menos mítico. Eu passava férias na Lagoa da Albufeira e estava entre tribos. Havia muitos surfistas, já havia algum pessoal do rap, mas eu não queria ir por aí. Entretanto, vi um casal, que me lembrava aquele filme animado, que é o “Heavy Metal”, que tem aqueles rapazes altos de cabelo comprido e aquelas miúdas louras e opulentas do heavy metal, tipo as personagens femininas do Conan. Eu vi um casal mais ou menos assim na praia e fiquei assim muito fascinado. Comecei a deixar crescer o cabelo contra a vontade dos meus pais. Comecei a vestir outro tipo de roupas. Portanto, foi assim um chamamento mais estético. Mas depois o que me interessou mesmo foi aquilo que falei: a literatura e a convivência do metal. Portanto, foi uma coisa que eu encaixei de alguma maneira. Nunca pensei ser músico de heavy metal, queria mais ser divulgador. Aliás, foi o que eu fiz, ir a concertos, fotografar pessoas, ainda nos anos noventa. Escrevia, entrevistava bandas underground para uma fanzine. Mas depois criámos a banda e a partir daí, não só vivi no estilo, como também comecei a fazer parte integrante desse estilo enquanto vocalista de uma banda.
Tu sentias algum estigma social enquanto metaleiro? Ouvias comentários depreciativos ou eras olhado de lado? Sentias isso?
É a história da minha adolescência, hoje em dia menos, felizmente. Ainda recebo alguns tipos de comentários. Por exemplo, eu escrevo nos jornais da região, em Alcobaça. Eu escrevo lá sobre os problemas de Alcobaça, sobre as coisas boas também. Por exemplo, tenho uma coluna lá que se chama Passadeira e escrevo sobre as dez melhores coisas de Alcobaça, ou seja, o melhor restaurante, sobre os correios de Alcobaça, que são muito simpáticos, sobre “A Cartilha”, que é a papelaria ao pé da minha casa, que me fazem as impressões todas e que eu adoro, e vou lá comprar tudo, economato e livros - também têm uma pequena livraria. Muitas vezes, vêm assim senhoras de sessenta, setenta anos: "Olhe, não gosto da sua música, mas você escreve muito bem e fala muito bem". E eu assim: "Pronto, tudo bem." Mas é um bocadinho preconceito, mas já diluído, ser marido da Sónia também ajuda. Eu tenho um livro de poesia que ainda não lancei, que tem anexo, que é exatamente sobre isso, sobre ser metaleiro e crescer na Brandoa e vir a Lisboa e as senhoras no metro passarem a mala para o outro lado ou levantarem-se e irem para outro sítio e chama-se “Sermão às Vespas”, é assim que se chama o livro. Eu tenho um poema lá que se chama mesmo "Ouve lá, ó Metaleiro", porque eu fui à Feira da Ladra, comprei minha primeira t-shirt de metal. Foram dez euros, na altura, dois mil escudos ou dois contos, porque era usada. Acho que até o rapaz a despiu.
De que banda era a camisola?
Kreator. Tinha uns buracos de cigarros ou de outras coisas. E cheguei à Brandoa e fui à associação dos meus pais, estavam a comer couratos e a beber cerveja, aquelas coisas das associações de clubes recreativos dos subúrbios da Brandoa. E disseram: "Compraste isso no lixo?" Com a Junta de Freguesia da Brandoa, tivemos três ordens de despejo. Depois ganhámos uma medalha. Não a fomos buscar porque estávamos fora. Sempre houve esse esse preconceito. O que eu não deixei foi que esse preconceito tomasse conta de mim. Por exemplo, convidaram-me para um programa qualquer, tenho critério, mas o meu critério não é: "não vou, porque sou do heavy metal e aquelas pessoas não gostam de mim”. Não, tenho ido e tenho tido boas surpresas. Aliás, sou bastante vezes convidado para ir falar a escolas, a estabelecimentos prisionais, ou a festivais literários, também por causa das cenas dos livros. De vez em quando, tipo Batman, quando alguém precisa de um metaleiro para ir falar, normalmente acende-se uma luz e chamam-me. E tem que ser assim, porque se não, o heavy metal também nunca vai ser aceite como uma música, normal, integrante, de que as pessoas gostam como cultura. Também não estou a fazer papel nenhum de embaixador nem nada, porque a cena de heavy metal ultrapassa-me. Há bandas muito antes dos Moonspell e vai haver muitas bandas depois e há valores novos incríveis, mas temos que manter um bocado essa unidade para esclarecer. De vez em quando, as pessoas precisam de algum esclarecimento acerca do heavy metal e eu tenho todo o gosto em dar-lhes.
O preto é a tua cor preferida?
Sim.
Mas tu gostas também do azul, não é? Do azul e branco. És portista.
Gosto do preto e branco e gosto do azul e branco. Sim, sou portista. Mas agora de vez em quando visto cores. Tenho umas t-shirts de heavy metal amarelas. Mas as pessoas acham sempre que está alguma coisa errada comigo quando eu não visto de preto, mas não estou completamente alheio a vestir-me de cores. Uma coisa que eu e a Sónia temos, e ela é melhor nisso, porque ela realmente veste-se muito bem, é a mistura de padrões: ter uma pele, um cinto de padrão de cobra, mas depois ter umas calças em tartan e depois ter uns ténis… ou sapatilhas, que agora sou de Alcobaça e tenho que dizer sapatilhas. Na pandemia, para nos entreter, e o Fausto era pequenino, vestia-me de padre ortodoxo, de marinheiro, para queimar o tempo. Sim, mas sou adepto do Futebol Clube do Porto.
É invulgar ser portista para quem cresce na grande Lisboa... Qual foi a atração?
O meu pai. O meu pai vem de Trás-os-Montes, de Mondim de Basto e era do Futebol Clube do Porto, porque era na altura uma equipa bastante importante também para a região Norte, e ainda é, porque estava tudo muito concentrado aqui a sul de Coimbra, a partir da Académica e depois, claro, o Benfica, o Sporting, o Belenenses, o Casa Pia, o Atlético, portanto. E o meu pai - nós sempre vimos futebol juntos - já era daquele tempo em que [jogavam] o Tibi, o Freitas, o Eduardo Luís, e vivi aqueles períodos gloriosos da conquista da Taça dos Campeões Europeus, em 1987. Eu vivia num prédio cheio de sportinguistas, da Juve Leo, inclusive. Eu saía vestido à Porto, com uma camisola que picava muito quando era pequenino, e eles metiam uma bola com uma pedra lá dentro e diziam assim: "Vai Porto, vai," E o Porto ia, quase que partia ao pé, porque era uma partida. Nesse dia, em 1987, foi a primeira vez que eu consegui sair à rua sem ser alvo de bullying desportivo ou clubístico, porque tinha sido uma vitória tão importante. Isso já não acontece no futebol português, em que torcem pelas equipas estrangeiras, e isso não tem jeito nenhum, não tem lógica nenhuma. Eu torço sempre pelas equipas portuguesas, mesmo por aquelas por quem não tenho tanta simpatia. Mas foi uma vitória tão cabal contra o Bayern de Munique, tão mágica, com aquele golo de calcanhar [de Madjer] e aquela reviravolta toda, que fui o herói desse dia. Depois, no dia seguinte, tive que arrumar as chuteiras e a camisola do Porto e ir à civil. Mas o futebol era muito mágico. Por isso é que foi muito giro, que me perdoem os sportinguistas, o Torreense ganhar a Taça, porque tinha sido um título importante para eles, um título de época para os fãs, para os adeptos, etc. Mas com o Torreense foi muito mais mágico. Até se o Porto tivesse ido à final, até eu tinha torcido um bocadinho pelo Torreense.
É como o David contra o Golias. É aquele fascínio também de torcermos pelo mais fraco.
O Sporting está farto de ganhar coisas. Nunca é demais porque o apetite é voraz. Mas o Torreense era dali de Torres [Vedras], que é ao pé de Alcobaça, aquilo deve ter sido uma festa incrível. Valeu muito a pena.
Como um homem do Oeste.
Sim, sou um homem do Oeste.
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