Dez discos do ano que merecem ser ouvidos

Carminho, Rolling Stones, Depeche Mode ou Fever Ray são convocados para esta seleção.

Prosseguem os nossos balanços de música sobre o ano de 2023. Focamo-nos desta vez em criação concreta de música, isto é, os álbuns. Escolhemos dez discos - cinco nacionais, cinco internacionais - que achamos que merecem ser ouvidos. A seleção é evidentemente subjetiva e a ordem não obedece propriamente a uma classificação.

Carminho - "Portuguesa"
A cantora de Alcântara tem enriquecido paulatinamente o cenário instrumental do fado tradicional, de que não abdica, e desta vez, em "Portuguesa", acrescenta mais um amigo: o mellotron. Seis é o número. Este é o sexto álbum desta adoradora de sextilhas, num fresco hexágono instrumental: a guitarra portuguesa de André Dias, a viola de fado de Flávio César Cardoso, o baixo acústico de Tiago Maia, as guitarras elétricas de Pedro Geraldes (ex-Linda Martini), os teclados de João Pimenta Gomes e... a voz espantosa de Carminho. A cantora concilia a ousadia e o respeito, com uma fasquia musical sempre elevada e que não pára de superar.

 

Rolling Stones - "Hackney Diamonds"
Representou, talvez, o lançamento discográfico mais mediático do ano. Não é para menos. Trata-se do primeiro álbum de originais em 18 anos dos Rolling Stones e o disco apanha em cheio a maior transição da banda, que os apanha em trio - o vocalista Mick Jagger e os guitarristas Keith Richards e Ron Wood - mas também no velho quinteto, mesmo que por um só tema, 'Live by the Sword' - uma das últimas gravações do baterista Charlie Watts antes de falecer e com o ex-baixista Bill Wyman a juntar-se aos velhos companheiros. Se o estúdio dos Stones é já automaticamente um museu do rock, o que dizer da agregação de outras referências históricas como o Beatle Paul McCartney, Elton John e Stevie Wonder e ainda a célebre Lady Gaga neste álbum. Os riffs continuam contagiantes, o rock permanece aguerrido, os blues estão sempre à espreita e por vezes dominam, e há ginástica estética para a solenidade da soul. A marca dos Stones mantém-se viva, portanto. Jagger, Richards e Wood insistem em esconderem a idade... no som. E conseguem.

 

Fever Ray - "Radical Romantics"
O alter-ego da artista sueca Karin Dreijer, Fever Ray, é cada vez mais a sua prioridade musical, após se ter projetado na dupla The Knife. "Radical Romantics" é o terceiro álbum de Fever Ray e o seu mais colossal. Com uma atmosfera rica no suspense musical de programações eletrónicas e de sintetizadores, de bizarria etérea, Karin Dreijer sabe entrar dentro das perversões humanas com uma precisão hitchcockiana, colocando-se no lugar do predador sorrateiro, que aterroriza a vítima por quem é obcecado, ou na posição da mãe vingativa que reage ao bullying na escola de forma sangrenta. Fever Ray é cada vez uma das maiores figuras da eletrónica e da eletropop, e também uma cantora camaleónica, com aquelas flexões vocais tipicamente escandinavas e femininas, e ao mesmo tempo mutações vocais amonstruadas e graves.

 

Depeche Mode - "Memento Mori"
Também no território do synth-pop sombrio, os icónicos Depeche Mode voltaram a estrecemer com um disco mais excitante, em reação à perda do seu membro fundador, o empresário Andrew Fletcher. Desde 1997, do álbum Ultra, em que tinham perdido o seu músico tecnicamente mais capaz, Alan Wilder, que o projeto não fazia um disco tão surpreendente e estimulante. 

 

Prétu - "Prétu 1 - Xei di Kor"
Chullage, o autor de álbuns como "Rapensar " e "Rapressão 1'', nunca foi tão longe nas suas denúncias históricas de desigualdade racial (e mais do que isso) como neste novo projeto de Prétu. Uma das suas críticas mais fortes está no tema 'Todos Quem', sobre dois mundos dentro do mesmo planeta - "Quando isto acabar vamos ficar todos bem! Todos quem? Todos os que vivem bem?". Há um permanente tom lúgubre em todo o disco "Prétu 1 - Xei di Kor", num rap com paisagem instrumental africana e um imenso pulmão carregado por pensamentos que se acumulam na cabeça pensadora de Chullage.

 

Margarida Campelo - "Supermarket Joy"
Depois de um denso passado a dar apoio vocal a projetos como os Cassete Pirata, Julie & the Carjackers ou até na banda de Bruno Pernadas, a teclista Margarida Campelo foi para a frente do palco e do estúdio, em nome próprio, com este álbum de estreia Supermarket Joy. Com o dedo mágico de Bruno Pernadas nos arranjos e na produção, Margarida Campelo descobriu um lugar muito especial e português para a soul, pigmentada de experimentação jazzy e perfumada de classe. 

 

Jaimie Branch - "Fly or Die Fly or Die Fly or Die ((world war))"
Este disco foi editado um ano após a morte da trompetista norte-americana Jaimie Branch, que o gravou poucos meses antes de uma overdose de drogas fatal. Gravado em quarteto, o álbum "Fly or Die Fly or Die Fly or Die ((world war))" é das viagens instrumentais mais alucinantes do jazz deste ano.  

 

Lonnie Holley - "Oh Me Oh My"
O caos de uma infância e adolescência vividas numa miséria indefesa, como o caso do norte-americano Lonnie Holley, ganha uma organização milagrosa numa vida adulta de artista autodidata, que desarruma conceitos e inova na música e nas artes plásticas. O rótulo que resta para casos como o artista de 73 anos Lonnie Holley é o de experimentalista. É com esse espírito desencaixado que faz um assombroso álbum, "Oh Me Oh My", mal assente em free jazz, pingado de eletrónica e mal apanhado pela soul, em que traz às memórias os maus tratos de que fora vítima em criança num internato de menores excluídos no estado de Alabama. As suas desgraçadas mãe e avó também ecoam no seu canto. A cantora maliana Rokia Koné e gente do rock e do indie como Michael Stipe (ex-REM), Sharon Van Etten e Justin Vernon (o homem por trás de Bon Iver) deram uma ajuda, para a imponência e imprevisibilidade vocal de Lonnie Holley.

 
Tó Trips - "Popular Jaguar"
Desde que deixou para trás os indie rockers Lulu Blind, Tó Trips mergulhou na sua portugalidade malandra, por via da dupla Dead Combo ou mais recentemente com os Club Makumba. Pelo meio, vincou o seu trabalho em nome individual. Em "Popular Jaguar", o guitarrista (agora a viver próximo da Costa de Caparica) volta ao gozo da atitude exploratória, em que alarga a vista do que vê, tocando mais longe do que o que sente. Olha para o Atlântico, mas dá-nos também o Tejo. Em "Popular Jaguar", é fera solta à guitarra, ora solitário, ora com a camaradagem humana de outros espíritos livres. Alma andarilha, Tó Trips muda de ruas como muda de guitarras (acústicas ou elétricas). 


Sunflowers - "A Strange Feeling of Existential Angst"
É o quarto álbum do trio português, num rock destravado, tão imparável que vai ser cada vez mais difícil segurá-los em Portugal. Foi das bandas nacionais que mais tocou lá fora do país, com uma pertinência psicadélica universal (no que aos seus meandros diz respeito) que está chapada em "A Strange Feeling of Existential Angst". Com a chama do garage-rock, o disco tem o engenho motorizado da nave espacial Orion e ao mesmo tempo a flexibilidade de uma serpente. Não há um só segundo de previsibilidade neste disco.

 

Artigo de opinião.

Ao longo do mês, estamos a publicar os vários balanços musicais do ano. Podem ouvir o podcast Beataites, sobre estes balanços neste link, uma conversa informal entre os jornalistas Gonçalo Palma e Sílvia Mendes. Em baixo, podem ler os balanços escritos já publicados.