2024 na música: regressos e despedidas

Primeiros álbuns em muitos anos dos Cure e de Manu Chao. Oasis e Silence 4 anunciaram regressos. Os No Doutb e os Linkin Park já o fizeram.

Em 2000, os No Doubt lançaram o álbum “Return of Saturn”. Em 2024, foram os próprios No Doubt que fizeram o seu... retorno. A reativação da estrutura ao vivo da banda de Gwen Stefani foi num evento especial, no Festival de Coachella, em 2024, em dois fins-de-semana, com ‘Don't Speak’, ‘Just a Girl’, entre outros êxitos. O primeiro de dois concertos contou com a presença de uma admiradora muito especial, a estrela pop Olivia Rodrigo, para um banho de alegria com Gwen Stefani no tema ‘Bathwater’. 

Foi como um banho, mas de surpresa - para alguns fãs de Chester Bennington, de água gelada - que os Linkin Park reapareceram com novas canções e banda reformulada num concerto em Los Angeles, em setembro passado. O novo reforço Emily Armstrong passou a fazer parelha vocal com Mike Shinoda, além da banda passar a contar com o novo baterista Colin Brittain. 2024 torna-se, portanto, no ano 1 depois de Chester Bennington, ainda por cima com novo álbum, intitulado simbolicamente “From Zero”. Para o ano há mais ação, mas nos palcos europeus - e não só. 

Houve mais surpresas. 25 anos depois e talvez com 25 quilos mais, os Soul Coughing regressaram aos palcos. O quarteto nova-iorquino, que se distinguiu por uma mescla de jazz, hip hop, rock e eletrónica, andou pela estrada americana. ‘Is Chicago, Is Not Chicago’, ‘St. Louise Is Listening’, ‘Lazybones’ ou ‘Super Bon Bon’ foram servidos em palco, para matar as saudades. Será que vêm ao Velho Continente?

Já se planeiam regressos para o próximo ano, que foram anunciados em 2024. Houve um que causou estrondo em Portugal: o segundo regresso dos Silence 4, desta vez para comemorarem os 30 anos do início da banda. O quarteto de David Fonseca e de Rui Costa vai atuar em 2025 nas maiores salas do Porto e de Lisboa, respetivamente a Super Bock Arena (em dose tripla) e a MEO Arena, e ainda no Teatro José Lúcio, na cidade-natal de Leiria. A novidade do regresso em 2025 tinha sido anunciada no programa “Manhãs da Comercial”, da Rádio Comercial, em pleno coração da cidade do Lis.

Este ano, foi também anunciado o regresso dos Santos & Pecadores para 2025, pondo fim a um interregno de 11 anos, para a próxima edição do festival Às Vezes o Amor. O espetáculo intitula-se “As Canções de Amor dos Santos & Pecadores”. A banda de Olavo Bilac vai mostrar o seu lado mais romântico nos concertos a 14 de fevereiro no Coliseu do Porto, e a 15 de fevereiro no Campo Pequeno, em Lisboa. Nesse espetáculo, será ainda evocada a memória de Rui Martins, antigo saxofonista e percussionista da banda.

Houve uma espécie de milagre, capaz de inspirar uma paz mundial. Os irmãos Gallagher resolveram pôr de lado as turras e resolveram reativar os Oasis, ao fim de 15 anos de paragem (para não dizer separação) e de azedume naquela irmandade. A digressão de regresso, planeada para 2025, está já numa dimensão mundial. Apesar da grandeza dos recintos ao ar livre, a oferta tornou-se pequena para procura, o que levou ao crescimento exponencial de preços dos bilhetes na revenda, com valores superiores a 7 mil euros. Só no Heaton Park, em Manchester, ou no Estádio do Wembley, os Oasis vão dar cinco concertos em cada um dos recintos. 2025 vai ser o ano em que o mundo vai poder cantar ‘Wonderwall’ e ‘Don’t Look Back in Anger’ juntamente com os seus autores. Knebworth de 1996 vai repetir-se.

Outro anúncio de regresso para 2025 foi o dos festivos e dançantes Scissor Sisters, que vão celebrar os 20 anos do seu álbum de estreia, de título homónimo, com uma digressão nas Ilhas Britânicas entre 16 e 28 de maio de 2025. Quatro dos cinco fundadores - Jake Shears, Babydaddy, Ana Matronic e Del Marquis - vão participar neste regresso ao vivo, que dificilmente se ficará pela digressão britânica.

2024 é o ano do regresso aos álbuns dos Cure e de Manu Chao, ao fim de um hiato de mais de década e meia. “Songs of a Lost World” é o primeiro álbum em 16 anos dos Cure, em que Robert Smith reflete sobre a tabela cronológica da sua vida, onde vê muito mais passado do que futuro. O fim está cada vez mais próximo e cada vez mais presente nas letras. O cantor sente que a metamorfose de homem para fantasma pode estar já a acontecer, mesmo que só metaforicamente. A juventude é uma coisa etérea dos sonhos. No entanto, os Cure continuam. Parece que ainda melhores. E uma frase está a ser cada vez mais repetida na imprensa: “’Songs of a Lost World’ é o melhor álbum dos Cure dos últimos 30 anos”. 

Não é um álbum de despedida, mas sim um álbum sobre a morte, de uma forma mais real do que estética, onde Robert Smith faz o luto sobre o seu irmão, no tema 'Never Say Goodbye'. A morte surgiu ainda como uma ameaça a um dos membros dos Cure, o teclista Roger O’Donnell, que luta contra um linfoma agressivo desde há mais de um ano e que completou os 11 meses de tratamentos para superar o tumor cancerígeno.

17 anos depois, Manu Chao lançou novo álbum, “Viva Tu”, onde mostra os seus dotes de poliglota. Tanto canta em castelhano e em francês, como em inglês e... em português, através do imaginário do Brasil. 2024 trouxe não só de volta Manu Chao aos discos, como também em palcos portugueses, 12 anos depois. Atuou em vários pontos do país como Valença, Águeda ou o Seixal.

2024 abriu com o fim dos Rage Against the Machine. O anúncio foi pouco ortodoxo e veio do baterista Brad Wilk, que resolveu desmascarar as razões do adiamento da digressão na sua página pessoal do Instagram, esclarecendo que os Rage não mais iriam tocar ao vivo. Quem quiser voltar a ver os Rage Against the Machine a tocarem ao vivo 'Killing in the Name', 'Bullet in the Head' ou 'Freedom', vai ter que ir ao YouTube. Teremos sempre os quatro álbuns do grupo californiano, em especial o seu disco mais referencial, “Rage Against the Machine”.

Os Jane’s Addiction desfizeram-se em pleno palco, quando Perry Farrell tentou agredir o guitarrista Dave Navarro, a meio do concerto em Boston. O incidente ocorreu no dia de aniversário do baterista Stephen Perkins, quando tocavam a 11ª canção da atuação, 'Ocean Size'. A mítica banda norte-americana cancelou o resto da sua digressão e talvez a sua própria existência. Já não é a primeira vez que os Jane’s Addiction se separam. A primeira vida do grupo entre 1985 e 1991 saldou-se nos seus dois álbuns mais reconhecidos: “Nothing's Shocking” (de 1988) e o inesquecível “Ritual de lo Habitual” (de 1990).

Dois nomes fortes anunciaram este ano as suas digressões de despedida: Gilberto Gil e Cindy Lauper. Não são despedidas de carreira mas sim fechos da vida de estrada. Gilberto Gil vai fazer a sua turné final pelo Brasil, Estados Unidos e Europa, incluindo, esperamos nós, Portugal, ao longo do próximo ano. Gilberto Gil tem atualmente 82 anos e é um dos nomes gigantes do MPB e do tropicalismo.

Cyndi Lauper anunciou a "Girls Just Wanna Have Fun Farewell Tour", que também vai terminar no próximo ano. Não é crível que passe por Portugal, país onde nunca atuou. Tal como Gilberto Gil, Lauper vai manter-se na música. Quanto a concertos, só em situações excecionais e nunca digressões.


Os nossos artigos online de balanço musical do ano inspiram o podcast Beataites, conduzido pelos jornalistas Gonçalo Palma e Sílvia Mendes. O balanço deste artigo sobre regressos e despedidas pode ser também ouvido no oitavo episódio do Beataites, da temporada de 2024.

Podem ler nas notícias relacionadas os balanços que publicámos até à data.