2023, o ano em que perdemos Tina Turner
Rita Lee, Sara Tavares, Tony Bennett e Sinead O' Connor foram outras perdas assinaláveis no mundo da música.
Hoje, o nosso balanço do ano no mundo da música foca-se em quem se despediu de nós: falecimentos, reformas ao vivo de grandes vultos e um último sinal de vida da banda mais histórica do planeta.
Falar de morte é factual mas também drástico. Muitos dos músicos que desapareceram fisicamente ao longo deste ano fizeram apenas uma descolagem corporal da Terra, rumo à eternidade. Não desapareceram das nossas vidas. É o caso de Tina Turner (1939-2023), que foi uma sobrevivente às agruras da vida. Foi fera de palco da soul, em dupla com o seu ex-marido Ike Turner, durante os anos 60 e inícios dos anos 70 - um assombro que se tornou um modelo inspirador para o enérgico Mick Jagger (dos Rolling Stones) e impressionou outro assombro, Janis Joplin. Depois, Tina Turner, de condenada a vítima - vítima de maus tratos por Ike, vítima de uma carreira que derrapou para a escuridão - passou a símbolo do sucesso na sua conversão à pop. 'What's Love Got to Do with It' foi o tiro de partida de uma série de êxitos que coroou Tina Turner como a Rainha do Rock e que a tornou numa estrela carismática que lotava estádios. A cantora Tina Turner morreu aos 83 anos de doença prolongada, em sua casa, em Küsnacht, perto de Zurique, na Suíça.
Outra rainha do rock morreu neste ano: a indisputada “rainha do rock brasileiro” Rita Lee (1947-2023). O seu percurso também vem de lá longe, dos tempos em que foi vocalista dos psicadélicos Mutantes, nos anos 60. Depois seguiu-se uma carreira a solo, que se tornou tão gigante que dispensou o passado com os Mutantes. Pinta e uma capacidade renovadora para transgredir cimentaram a monumentalidade da sua figura. Com 32 álbuns de estúdio em nome próprio, a partir de finais dos anos 70 encetou uma colaboração com a sua grande paixão amorosa, o multi-instrumentista Roberto de Carvalho, que lhe permitiu êxitos como 'Lança Perfume', 'Baila Comigo', 'Flagra' ou 'Desculpe o Auê', que se tornaram familiares e eternos no imaginário do pop-rock brasileiro. A lendária cantora brasileira morreu na sua residência, em São Paulo, aos 75 anos, após uma luta perdida contra um cancro no pulmão.
Em 2023, a música portuguesa sofreu um enorme rombo com a perda do talento de Sara Tavares (1978-2023). Aos 15/16 anos de idade, era já um rosto familiar nos lares nacionais, como vencedora da primeira edição do concurso televisivo apresentado por Catarina Furtado, "Chuva de Estrelas" (no altar do mui jovem canal SIC), ou do Festival da Canção, por intermédio do tema 'Chamar a Música'. Se em 1994, a adolescente Sara Tavares conseguiu mostrar-nos a todos a sua grande voz, em adulta juntou-lhe a visão de esteta, no encontro entre cantora e artista que se celebrou sobretudo a partir do seu álbum de 2005, "Balancê", numa exploração de música africana, em especial de Cabo Verde. Sara Tavares entra no roteiro da world music como portuguesa que faz música africana, numa carreira que teve como entrave os seus problemas de saúde. Sara Tavares morreu em Lisboa, aos 45 anos, de tumor cerebral.
Outra portentosa voz se calou, a da irlandesa Sinéad O'Connor (1966-2023), mas que vamos querer dar vida, pondo a tocar a sua música mais uma e outra vez. Parte do mundo afunila-a à sentida interpretação do êxito global 'Nothing Compares 2 U' (de 1990), mas a cantora não cabe só nessa música. Sinéad O'Connor era uma cantora pop que cantava ao estilo da folk irlandesa, embrenhada na eletrónica e numa modernidade natural. Antes de ser mundialmente famosa, fez um álbum de estreia (de 1987), "The Lion and the Cobra", que é um colosso que merece ser mais conhecido. Se a sua voz era grande, a sua personalidade era ainda maior. E por isso, onde estava, onde colaborava – fosse no single de Jaw Wobble, Visions Of You (de 1991), ou no álbum dos Massive Attack, 100th Window (de 2003) – iluminava com um esplendor solar. Em 2022, a cantora perdeu o filho, Nevi'im Nesta Ali Shane O'Connor, que morreu aos 17 anos. Sinéad O'Connor morreu aos 56 anos, por uma causa que não foi divulgada.
Outro monstro irlandês disse-nos adeus: o vocalista dos Pogues, Shane MacGowan (1957-2023). Popularizou uma fórmula então invulgar de folk-punk, com estilo de cantar rufia e embriagado (e desdentado) envolto numa paisagem instrumental da sua Irlanda natal de flautas, banjos, mandolins e pandeiretas. Foi a alma de uma discografia dourada e concisa de cinco álbuns dos Pogues, entre 1984 e 1990. E criou a mais bela canção natalícia do rock, 'Fairytale of New York' (de 1987), engalanada em valsas, em arranjos orquestrais e num sonho embriagado de uma bela noite de Consoada em Nova Iorque por parte de um casal de sem-abrigo com nostalgia pela sua Irlanda. 'Fairytale of New York' é também um belíssimo dueto entre Shane MacGowan e uma sublime Kirsty MacColl. Shane MacGowan era o homem da 'Fiesta' e das boas festas. Brindemos a ele, à sua luminosa vida e à sua eternidade. Shane MacGowan morreu com 65 anos, após o agravamento do seu há muito débil estado de saúde, por causa de uma encefalite viral.
O jazz vocal perdeu um dos seus maiores crooners, Tony Bennett (1926-2023), após 70 anos de carreira a espalhar charme e a dar lustro a grandes standards. Nos anos finais da sua carreira, ainda se juntou a Diana Krall e sobretudo a Lady Gaga. O alzheimer interferiu na rotina mundana do cantor mas não na competência showbizz deste guru do jazz, que foi escapando milagrosamente em palco à doença neurogenerativa. Tony Bennett morreu com 96 anos de idade.
Neste espaço temporal de 365 dias, marcado como 2023, perdemos dois dos grandes compositores de bandas sonoras (e mais do que isso) e ambos oscarizados: o japonês Ryuichi Sakamoto (1952-2023), autor das músicas dos filmes “Feliz Natal, Mr. Lawrence” e "O Último Imperador", e senhor de um longo passado a nível da pop vanguardista. Burt Bacharach (1928-2023), vencedor de oito Grammys e de três Óscares, foi uma fábrica humana de grandes canções, algumas delas para filmes, com o caso de ‘Raindrops Keep Fallin' on My Head’, para a longa-metragem de 1969, “Dois Homens e um Destino” (“Butch Cassidy and the Sundance Kid”), composto a meias com o seu braço-direito Hal David. ‘What the World Needs Now Is Love’ (de 1965) ou ‘That's What Friends Are For’ foram outras das suas canções que atravessaram o mundo nas vozes de grandes cantores.
A música portuguesa sofreu algumas baixas além de Sara Tavares. Elísio Donas, teclista dos Ornatos Violeta e de outros projetos, deixou-nos cedo, aos 48 anos. Jorge Loução (1956-2023), músico muito relevante dos Rock & Varius e depois Roquivários, também faleceu neste ano. Não propriamente músicos, mas fortemente ligados à música, deixaram-nos Avelino Tavares (1938-2023), fundador do “Mundo da Canção” e programador musical muito importante na vida cultural no Porto, e José Duarte (1938-2023), um homem da rádio e do jazz em Portugal, autor do programa radiofónico de maior longevidade "Cinco Minutos de Jazz".
José Duarte - ou Jazz Duarte como também era conhecido - terá passado muitas vezes no seu programa alguns dos gigantes do jazz que morreram em 2023, como o saxofonista Wayne Shorter (1933-2023), e a pianista Carla Bley (1936-2023), compositora e pianista de jazz norte-americana. Na década de 1960, fundou a Jazz Composers Guild. Gravou 'Grândola, Vila Morena', de José Afonso, no álbum "The Ballad of the Fallen", de 1983. Aos 87 anos.
O grande universo do rock depauperou-se com as mortes de David Crosby (1941-2023), um dos grandes cérebros dos Byrds e membro do supergrupo Crosby, Stills & Nash (mais tarde Crosby, Stills, Nash & Young), do guitarrista Jeff Beck (1944-2023), do canadiano Robbie Robertson (1943-2023), guitarrista e vocalista do grupo The Band, de Tom Verlaine (1949-2023), o influente guitarrista norte-americano e líder dos Television, de Sixto Rodriguez (1942-2023), músico de carreira errática alavancado pelo oscarizado documentário “À Procura de Sugar Man”, e Andy Rourke (1964-2023), que se notabilizou como baixista dos Smiths.
De outros géneros ou de outros pontos do globo, morreram Harry Belafonte (1927-2023), aclamado como o Rei do Calipso, Jane Birkin (1946-2023), a atriz britânica que se eternizou por vários duetos com o seu companheiro amoroso Serge Gainsbourg, e Toto Cutugno (1943-2023), um dos mais populares cantores italianos e vencedor do Festival Eurovisão da Canção em 1990, com ‘Insieme: 1992’.
No mundo lusófono, houve mais perdas assinaláveis além de Sara Tavares e de Rita Lee. Deixaram-nos a cantora brasileira de bossa nova Astrud Gilberto (1940-2023), e o são-tomense General João Seria (1949-2023), o conhecido vocalista dos África Negra.
Se houve alguém que tenha vivido a paixão musical no escritório de uma editora e que tenha tido ouvidos para descobrir talentos, esse alguém foi seguramente Seymour Stein (1942-2023), patrão da Sire Records, que percebeu antes de outros o potencial dos punks Ramones, dos pós-punks Talking Heads, e da então anónima Madonna. Seymour Stein morreu de cancro.
Houve outro tipo de despedidas que não necessariamente mortes. Dois grandes nomes fizeram a sua reforma ao vivo a partir deste ano. Os Kiss despediram-se dos palcos neste mês, com um duplo concerto no Madison Square Garden, em Nova Iorque, encerrando um percurso de 50 anos ao vivo. Mas despedem-se dos palcos apenas em carne e osso. Prometem regressar ao vivo mas na forma de avatares, criados pela inteligência artificial.
Elton John despediu-se dos palcos e de milhões de fãs com um concerto final em Estocolmo, na Suécia, a 8 de julho, no qual agradeceu a todos por "52 anos de pura alegria a tocar música". Para a despedida, Elton John cantou 'Goodbye Yellow Brick Road', uma das suas músicas mais históricas.
Os Beatles deram um sinal de vida inesperado que é, por sua vez, o último. É a última canção de sempre dos Beatles, ‘Now and Then’, salvo pela técnica de inteligência artificial, com a intervenção de Peter Jackson, quando estava a fazer o documentário sobre os Fab Four, "Get Back".
Ao longo do mês, estamos a publicar os vários balanços musicais do ano. Podem ouvir o podcast Beataites, sobre estes balanços neste link, uma conversa informal entre os jornalistas Gonçalo Palma e Sílvia Mendes. Em baixo, podem ler os balanços escritos já publicados.
