Dez discos de 2024 a ouvir

Álbuns de Samuel Úria, The Cure, Lena D' Água e Kendrick Lamar entre os recomendados que este ano nos propiciou.

Eis mais um balanço sobre 2024, num ângulo mais pessoal, sobre dez discos deste ano que vale a pena serem partilhados. A ordem em baixo não é classificativa, nem aleatória. Tenta-se um equilíbrio entre nomes sonantes e outros menos conhecidos do grande público; discos para os vários gostos; mas sempre com uma premissa: têm que ser discos especiais - especialmente bons. É uma forma de se dizer: “oiçam este disco(s), que vale a pena”. 
 
Samuel Úria – “2000 AD”
Com mais de 40 anos de idade, Samuel Úria revolve reviver a passagem do milénio, mas sem fogo-de-artifício, num jogo de espelhos entre as esperanças que teve aos vinte anos e as esperanças que viu defraudadas. "2000 AD" é um álbum de intervenção política e de reflexão introspetiva, mas também uma odisseia no espaço da sua própria vida, entre Tondela e Lisboa, num êxodo rural e mental. Úria vai ao passado para fazer perguntas sobre o presente, agora que teme o futuro. As canções são de corpo inteiro, estrutural e melodicamente ricas, com o fôlego de coros coletivistas. O álbum fecha na mais comovente das simplicidades, num tributo a um imortal dos seus círculos de amigos, numa intimidade universalizada e transbordante. O tema é ‘Xico da Ladra’.
 


The Cure – “Songs of a Lost World”
Em “Songs of a Lost World”, o vocalista e líder Robert Smith reflete sobre a tabela cronológica da sua vida, em que vê muito mais passado do que futuro. A morte deixa de ser apenas uma temática estética nas canções dos Cure, passa a ter mais realismo, como uma ameaça escura que ameaça apagá-los da Terra. No entanto, há também uma serenidade nessa abordagem, como no luto ao irmão de Robert Smith, no tema ‘I Can Never Say Goodbye’. O fim está cada vez mais próximo e cada vez mais presente nas letras. O cantor sente que a metamorfose de homem para fantasma pode estar já a acontecer. A juventude é uma coisa etérea dos sonhos. No entanto, os Cure continuam, parece que ainda melhores. Mas atenção, “Songs of a Lost World” pode ser um álbum sobre morte, mas não é um álbum de despedida.

Lena D’Água - “Tropical Glaciar”
Este é um disco de ativismo, que o seu compositor Pedro da Silva Martins (antigo mentor dos Deolinda) tenta adaptar e encaixar à personalidade autêntica de Lena D' Água. Há uma canção de apelo pela paz, como ‘Chá’, e vários temas de intervenção ecologista. O amor também é chamado. E o sexo também. Lena D’ Água canta com a bravura que faz lembrar Rita Lee, em ‘Carne Vegan’. A máquina a rolar bem, como a sua banda, confere uma dinâmica, num álbum bem equilibrado entre subtileza, graça e temas que sabem colar-se aos ouvidos como o colorido ‘Pop Toma’ ou o comovente ‘Fomos O Que Somos’. A espetivitar isto tudo está sempre a alma e a voz de Lena D’ Água.
 

Kendrick Lamar - “GNX”
O rapper continua com muitos dos seus dons - o flow, as narrativas, o jeito para as parcerias - num álbum em que lhe renova o mandato como o maior do hip hop. “GNX” não é o maior dos seus feitos, se nos lembrarmos de álbuns como “Good Kid, M.A.A.D City”, “To Pimp a Butterfly” ou “Damn”. Mas é assim com os grandes: é difícil superar-se, mesmo que elevando o nível da música.

 
Fogo Fogo - “Nha Rikeza”
Os Fogo Fogo sabem tão bem recriar o imaginário de Cabo Verde num contexto mais urbano como é Lisboa. Este álbum é absolutamente empolgante, de uma energia incrível, em que mesmo quando o corpo não dança, a cabeça sim. 

Arooj Aftab - “Night Reign”
Com uma voz singularmente bonita, Arooj Aftab comprime dois mundos num só disco, embebendo de jazz a tradição musical paquistanesa. Cantando mais em urbu do que em inglês, Aftab entra nas reflexões sobre a noite e sobre os seus excessos, embarcada por um coletivo de músicos de primeira qualidade que, como contraste, lhe dá de volta a tranquilidade.  

Lina – “Fado Camões”
Lina é uma das mais corajosas fadistas, para quem o respeito pela tradição do fado corre a par com a insaciabilidade pela descoberta e de ver mais além. Neste disco, arranjou dois aliados preciosos, como a poesia de Camões e o piano. Fazendo um tributo ao poeta, em pleno 500º aniversário sobre o seu nascimento, engrandece o fado e engrandece-se a si mesma, perfumada pelo mistério e pela elegância.

Nick Cave & The Bad Seeds - “Wild God”
Este álbum é um épico de amor à vida e de superação. “Wild God” é uma obra bastante mais soalheira e positiva do que os dois discos anteriores, em especial “Ghosteen”, marcado pela morte do seu filho Arthur. Este último disco é um autêntico temporal, com coros gospel e esse fôlego vocal coletivo e numeroso, que faz lembrar o disco duplo de 2004, “Abbatoir Blues/The Lyre of Orpheus”. Desde esse disco que Cave e os Bad Seeds não faziam um álbum tão brutalmente grandioso.

Club Makumba – “Sulitânia Beat”
Neste disco bastante efervescente, Há pingos de suor de afro-beat e bafos de sons áridos da África desértica, num imaginário virado para sul, que vai do Extremo Oriente ao Médio Oriente, ao norte de África ou até à América do Sul. É como se os Club Makumba fossem do bairro lisboeta de Martim Moniz. Que quarteto!

Grace Cummings - “Ramona”
“Ramona”, tem uma grandiosidade orquestral, dramática e vocal. Aliás, a voz tem uma flexibilidade desarmante. É um conjunto de 11 canções muito coeso, sempre monumental, sem nenhuma quebra, que confirma a australiana Grace Cummings como um talento monstruoso. É um disco que passou despercebido, mas não a mim, que o elejo talvez como o meu preferido de todos deste ano de 2024.

Artigo de opinião.
 

Ao longo do mês, publicámos os vários balanços musicais do ano. Podem ouvir o podcast Beataites, sobre estes balanços neste link, uma conversa informal entre os jornalistas Gonçalo Palma e Sílvia Mendes.

Em baixo, podem ler os balanços escritos já publicados sobre o ano que passou.